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Quarta-feira

5 de Agosto de 2020

'Mulheres negras estão na base da pirâmide social economicamente', diz Maria Gal

Atriz fala da falta de espaço para negros não só na televisão, mas também em cargos de poder

Maria Gal se despede temporariamente de Gleyce, de As Aventuras de Poliana, do SBT, com o término da primeira temporada da novela. Por causa da pandemia do novo coronavírus e a consequente paralisação das gravações, a segunda fase da história ainda não tem data de estreia. Na continuação do folhetim surgirão novos conflitos para a mãe de Jeff (Vitor Britto) e Kessya (Duda Pimenta). Porém, enquanto esse momento não chega, os fãs podem assistir ao quadro Dicas da Gleyce, no canal do YouTube da trama. São vídeos nos quais a personagem ensina como poupar dinheiro e ter uma boa saúde financeira.

Na entrevista a seguir, a atriz de 44 anos faz um balanço da primeira temporada de As Aventuras de Poliana; conta de que forma se surpreendeu com a trajetória de Gleyce e como a personagem quebrou o racismo estrutural na trama. Além disso, Maria Gal comenta sobre as mudanças em sua vida desde que começou a trabalhar no folhetim infantojuvenil e como a pandemia de coronavírus afetou as gravações da segunda fase da novela. Por fim, ela fala da falta de espaço para negros não só na televisão, mas também em cargos de poder.

Qual o balanço que você faz da primeira temporada de As Aventuras de Poliana?

Eu faço um balanço positivo, porque está sendo muito melhor do que imaginei. A Gleyce, que é uma personagem que representa a mulher brasileira, saiu da condição de trabalhar na área de limpeza da escola Ruth Goulart para passar no vestibular para a faculdade de Administração.

A jornada da personagem te surpreendeu?

Quando eu fiz o teste, não imaginei que ela fosse uma heroína. A Gleyce inspira o público e isso é muito bonito de ver, como retorno das pessoas na audiência e nas inúmeras mensagens no Instagram.

Na segunda fase da novela, Gleyce passa por uma reviravolta após voltar a estudar. Como vai ser isto?

Essa trama da Gleyce é muito simbólica hoje, especialmente se nos lembrarmos de que, segundo o IBGE de 2019, os negros são maioria nas universidades públicas devido às ações afirmativas como as cotas. A Gleyce representa exatamente essa mulher: negra, mãe de família que acredita que pode voltar a estudar para dar melhores condições de vida para a sua família. As mulheres negras estão na base da pirâmide social economicamente e o racismo estrutural contribui para que ela continue lá. Apenas através da cultura e da educação essas mulheres têm a oportunidade de mudar o próprio destino. E com muito esforço, superando todas as dificuldades, a personagem faz exatamente isso.

Como fica a relação dela com os filhos nessa nova fase da história?

A Gleyce é muito mãezona, mas não posso dar spoiler (risos). Então, o que posso adiantar é que, nessa nova fase, tudo vai se intensificar, porque virão outros conflitos para a família Soares, que inclusive estará em outro patamar.

As Aventuras de Poliana faz sucesso não só com as crianças, mas também com suas famílias. Como encara a recepção do público e o que mudou na sua vida desde que entrou para o elenco da novela?

Mudou tudo. Primeiro a forma de interagir com o público, até porque antes eu nem usava o Instagram. E a minha rotina mudou também. Como minha casa oficial é no Rio de Janeiro e as gravações são em São Paulo, viajava semanalmente para gravar. A recepção do público é maravilhosa, e é bem isso. São crianças, adultos, terceira idade, pessoas das mais variadas classes sociais. Todos assistem à novela e ter esse retorno é compensador. Sou muito grata a Deus e ao SBT pela confiança e oportunidade.

Por conta da pandemia do novo coronavírus, as gravações foram interrompidas temporariamente. O que achou dessa medida da emissora?

Eu acredito que foi a atitude mais sensata É difícil para todos porque estávamos gravando a segunda fase com força total. Tínhamos acabado de voltar das férias, mas, infelizmente, é necessário para o bem comum. O coronavírus já matou milhares de pessoas, de todas as classes sociais, no mundo. Se aqui no Brasil, na nossa normalidade, já temos problemas sérios com a saúde pública, imagina neste momento.

Como vê a atual situação da sociedade?

Acredito que o mundo está tendo a oportunidade de parar, rever como estamos levando a nossa sociedade, para mudarmos, para vivermos de forma mais generosa e empática com o outro. É importante entender também que, até o momento de se contrair o coronavírus, a pessoa sendo do grupo de risco ou não, não sabe como de fato seu organismo vai reagir a essa doença e exatamente por isso é necessário ficar em casa.

A participação de negros na teledramaturgia cresceu. O que você acha disso?

Cresceu, mas ainda é muito aquém do que deveria ser. Basta lembrarmos de que vivemos num país no qual mais de 56% da população se autodeclara negra ou parda. O mínimo que deveríamos ver na teledramaturgia, na publicidade, na imprensa, em cargos de poder, seria o reflexo dessa porcentagem e não números ínfimos, como vemos hoje. Ainda temos poucas atrizes negras protagonistas em teledramaturgia e no cinema. Produtoras, roteiristas e diretoras negras com filmes comerciais nas salas de cinema, por exemplo, quase inexiste. Para se ter uma ideia, os Soares são a única família negra no ar em teledramaturgia ininterruptamente desde 2018, e isso com certeza não representa a sociedade brasileira. 

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