Debate sobre identidade de gênero avança

Opinião é de Silvero Pereira, que dá vida ao motorista Nonato em A Força do Querer, onde também brilha nos palcos como travesti

Silvero Pereira sente, até hoje, o impacto de ter estreado na televisão em A Força do Querer, novela das 21 horas da Globo. Na trama de Gloria Perez, o ator deu vida ao motorista Nonato, que também brilhava nos palcos como a travesti Elis Miranda. Natural de Mombaça, no interior do Ceará, o artista, de 38 anos, lembra com carinho de quando voltou pela primeira vez à terra natal após o sucesso do personagem – que se propõe a debater sexualidade e identidade de gênero com o público.

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“Vi muita gente aglomerada na frente da minha casa. Meu pai nunca olhou para o meu trabalho artístico, mas entrou no quarto e disse que eu tinha de falar com as pessoas, porque estavam ali para me ver. Foi quando senti que representava uma esperança para quem tem aquela mesma origem”, conta.

O convite para integrar o elenco de A Força do Querer veio diretamente de Gloria Perez, que havia assistido à peça BR-Trans, em que ele mergulhava em relatos de travestis e mulheres trans marginalizadas pela sociedade. Feliz com a oportunidade, o ator agarrou a chance, mas sem deixar de questionar os estereótipos que, nos bastidores, tentaram estabelecer para o personagem.

“Da metade para o fim da novela, Elis Miranda começa a se vestir diferente, porque chegou o momento em que vi o guarda-roupa e disse que não ia vestir nada da arara. Não achava que a personagem tinha de usar só lantejoula e animal print. A gente conversou e, em seguida, chegou outra proposta de figurino. O ator também tem o papel de criar; não é só aceitar o que jogam para cima da gente”.

Na visão de Silvero, de 2017 pra cá, houve um avanço na discussão sobre a identidade de gênero, levantada pela novela. Para ele, algumas frases ditas por Nonato/Elis Miranda “arranham” os ouvidos do público, pois não deveriam ter sido ditas do jeito como foram ao ar. No entanto, o ator ressalta que, naquela época, era o mais viável, para chegar às pessoas e provocar questionamento.

“Crescemos em diversas pautas. A novela tem temas muito sérios, como as questões de gênero e de ser nordestino. A cena da agressão do meu personagem foi nomeada originalmente como ‘Nonato se metendo em confusão’, mas pedimos e o Globoplay mudou o título para ‘Elis Miranda sofre ataque homofóbico’. É interessante para construir uma nova história”, acredita.

Contracenar com grandes nomes da dramaturgia é o sonho de qualquer ator. Para Silvero, não seria diferente. Em A Força do Querer, ele teve a chance de dividir cenas com pessoas que admirou por toda a vida. Segundo o artista, houve um momento em que até esqueceu a fala, por estar observando Lilia Cabral atuar. Além disso, é só elogios a Humberto Martins, que fazia Eurico, o chefe preconceituoso de seu personagem. “Humberto foi meu maior mestre na televisão, de uma generosidade absurda. Me ensinava milhões de coisas. Era muito gratificante trabalhar ao seu lado”.

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