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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

Coringa: a loucura que incomoda

Filme suscita uma série de debates comportamentais

“É impressão minha ou o mundo está ficando mais louco?” Esta é a primeira frase dita pelo personagem Arthur Fleck, interpretado pelo ator Joaquin Phoenix, que vai se transformando no arquiinimigo de Batman ao longo filme Coringa, que estreou há pouco mais de duas semanas. E é essa loucura retratada no longa de Todd Phillips que faz com que o público saia do cinema com uma sensação de incômodo.

“É um soco no estômago”, avalia a psicóloga Paula Carvalhaes. Ela descreve a história como uma fábula dos tempos modernos, com um antiherói que sofre de um transtorno narcísico, distúrbio no qual a pessoa tem um senso inflado de autoimportância.

“Ele é alguém que tem a síndrome do pequeno poder, que ele se sente humilhado, maltratado, em que ele não vê saída para a pequenês dele, mas ele aspira o grande poder”, afirma a especialista. Paula destaca que a síndrome faz com que a pessoa busque o poder não para fazer o bem, mas para se vingar, maltratar e humilhar os outros.

Para o professor da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) e psiquiatra especialista na área de transtornos de humor, Eduardo Calmon Moura, a representação sobre o que é a doença mental é verdadeira no filme. “Existem coisas que vêm da genética, o que não conseguimos avaliar no filme. Mas a doença se apresenta por conta dos gatilhos ambientais. O ambiente interfere na manifestação, mas não é a criação da doença”, explica ele.

O psiquiatra faz uma ponderação sobre o que mexe com o público do cinema. “Hoje em dia, o cinema, que já foi um programa barato, é muito caro. Esse público se identifica com o Wayne (pai de Bruce Wayne, milionário de Gotham City) e acaba ficando com medo de estarmos fabricando Coringas em nossa sociedade”, analisa ele. No longa, a população da cidade decadente se revolta contra a situação de miséria, se volta contra os ricos e começa um grande tumulto de destruição, elegendo o Coringa como ícone do movimento.

Paula considera ainda que há outro fator que gera desconforto no público: uma relação grande com a realidade atual do Brasil. “Mostram um desleixo com os bens públicos, com a Saúde pública, da forma de tratar que muitas vezes não é digna e não é correta. Isso gera revolta de quem sente esse atendimento sem qualidade aqui”, diz ela, referindo-se principalmente à cena em que o personagem perde o atendimento social e fica sem o tratamento por conta de corte de verba pública.

A jornalista e analista junguiana Vera Leon, que assistiu ao filme a convite da Reportagem, considera que o que choca mais as pessoas é perceber que há um Coringa dentro de cada um. “De perto mesmo, ninguém é normal. Só que alguns de nós vão aprendendo a lidar com a sua loucura; outros não conseguem enxergar que esse componente fora de eixo existe e é dele; e outros ainda negam completamente que tenha um louco aqui dentro”, observa.

Assim como no filme, ela considera que nossa sociedade está doente. “O preço que se cobra hoje para se estar inserido é altíssimo e a gente não está aguentando. Alguns estão suportando com o sorriso aqui (falso, forçado como o do Coringa), mas observamos o aumento dos casos de suicídio. A depressão é a doença de 2020 e a venda de remédios ansiolíticos aumentou assustadoramente. Estamos buscando em bengalas, como em selfies felizes nas redes sociais, um jeito de não surtar, de não virar Coringa”, reflete.

O diretor americano Michel Moore, do documentário Tiros em Columbine, publicou em suas redes sociais a mesma percepção. “Tudo o que ouvimos sobre esse filme é que devemos temer e ficar longe dele. Fomos informados de que é violento, doente e moralmente corrupto - um incitamento e celebração de assassinato (...). É um filme que devemos ter medo. Eu sugeriria o contrário: o maior perigo para a sociedade pode ser se você não for ver este filme. Como a história que conta e as questões que ela suscita são tão profundas, tão necessárias, que se você desviar o olhar da genialidade dessa obra de arte, perderá o dom do espelho que ela está nos oferecendo. Sim, há um palhaço perturbado naquele espelho, mas ele não está sozinho - estamos de pé ao lado dele.”

Para reverter esta situação no País e evitar o surgimento deste tipo de figura, Paula Carvalhaes acredita que todo o atendimento deve ser de qualidade e que se deve trabalhar os valores humanos desde cedo. “Temos que falar o quanto é bom ser bom e não o quanto é bom ser poderoso”, aconselha a psicóloga.

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