Biografia de Jorge Amado é lançada em Santos; veja entrevista com autora

Jornalista baiana Joselia Aguiar fala sobre pesquisa para a obra e características do escritor

Por: Vinicius Holanda  -  15/12/18  -  16:18

Para concluir as 640 páginas de Jorge Amado: Uma Biografia(Editora Todavia), a jornalista Joselia Aguiar dedicou seis anos à pesquisa. A baiana teve acesso exclusivo a documentos da família, amigos e outros escritores para concluir o trabalho de fôlego sobre o conterrâneo, o que incluiu busca por material não apenas no Brasil, mas também na Europa e Estados Unidos. O resultado abrange todas as fases do celebrado autor de Terras do Sem-Fim, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Tieta do Agreste.


Jorge Amado é autor de obras aclamadas, como Tieta do Agreste
Jorge Amado é autor de obras aclamadas, como Tieta do Agreste   Foto: Divulgação

A escritora - curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2017 e 2018 - lança a obra na Realejo Livros (Avenida Mal. Deodoro, 2, Gonzaga), em Santos, neste sábado (15), a partir das 17h.


Como surgiu a proposta de escrever uma biografia de Jorge Amado?


Nunca pensei em fazer a biografia de Jorge Amado, o projeto foi encomendado por um editor.


Como se deu a pesquisa?


Tive de recorrer a muitas fontes: os romances de Jorge e as memórias dele e Zélia foram um ponto de partida; depois, segui para as cartas que ele enviou a amigos, jornais e revistas de época, memórias de amigos e gente que viveu em sua época, entrevistas e uma bibliografia variada sobre sua história literária e política.


Apesar de toda a popularidade que o escritor teve em vida, é possível dizer que as pessoas realmente conheceram sua trajetória?


As pessoas conheciam o Jorge Amado já maduro e autor de sucesso. Não tinham como lembrar ou saber de como tudo começou, as brigas e dificuldades, as reviravoltas, os bastidores de seus livros e adaptações. É um grande personagem da cultura brasileira, alguém que atravessa todo o século 20 do Brasil e do mundo.


Jorge Amado escreveu mais de 30 livros. Quantos Jorges Amados podemos encontrar ao longo dos 77 anos em que ele publicou as obras? E quais você considera as mais marcantes?


São muitos. Há um muito jovem Jorge Amado, ainda verde, que escreve livros como Cacau e Suor, na casa dos 20 anos. Há um outro, já mais maduro, que chega aos 30 com Terras do Sem-Fim e Seara Vermelha. Um terceiro Jorge Amado escreve O Mundo da Paz, que tirou depois de circulação, e Os Subterrâneos da Liberdade, obras de sua fase mais comunista. Depois, há um Jorge Amado mais complexo e com mais humor que surge com Gabriela, Os Velhos Marinheiros e Dona Flor. O que vem a seguir, o de Tenda dos Milagres, deseja pensar a questão racial. Já no seu outono, há um outro, o de Tocaia Grande e O Sumiço da Santa, que sintetiza suas preocupações em romances muitas vezes retrabalhados.


Na sua opinião, que método tão eficaz Jorge Amado desenvolveu para cair no gosto popular?


Intuição e capacidade de comunicação. Fazia histórias que pudessem ser lidas por todos, e não apenas por intelectuais. Dedicou-se a divulgar a própria obra - e a de outros autores brasileiros - no país e no exterior. Permitia a tradução e a adaptação sem interferir ou fazer exigências.


Apesar de tão identificado com a brasilidade, ele também conseguiu romper os limites territoriais e atingir vários países. A que se deve esse fascínio?


Como ele dizia, "a característica brasileira" de sua obra era um dos fatores que atraía leitores no Brasil e lá fora. Era um mestre do romance, no sentido de que entretinha os leitores com os muitos artifícios do gênero romanesco.


Jorge Amado, pelo menos em vida, sempre foi aclamado pelo público. A crítica, no entanto, nem sempre lhe foi amistosa. Por quê?


Jorge Amado sempre teve a apreciação de críticos, ocorre que nunca foi unânime. A certa altura, os críticos contrários a ele passaram a preponderar. No exterior, sempre houve um pouco mais de consenso.


A militância dele na política mais ajudou ou atrapalhou sua carreira literária?


As duas coisas. A militância, em certo sentido, dava a tônica nos romances, o que prejudicava sua literatura. Ao mesmo tempo, a militância o manteve muito ligado aos leitores e às grandes questões brasileiras, e isso o fez ter desde sempre uma dimensão pública muito grande, com sua obra e atuação. A militância era indissociável de sua literatura, no princípio. Depois, passou a fazer uma literatura que, não sendo militante, nunca deixou de ser política.


Qual a relevância do autor para as futuras gerações?


É interessante notar como ele continua a atrair novos leitores, de todas as idades. Tenho constatado isso conforme me procuram para comentar da biografia.


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