Sergio Marone experimenta novos caminhos na carreira e se engaja em causas ambientais

Beirando os 40 anos, o ator e apresentador detalha seus hábitos supersaudáveis. E fala da fama internacional, com trabalhos no Chile, nos EUA e na Espanha

“Eu batalho bastante, corro muito atrás das minhas coisas, elas geralmente não acontecem com tanta facilidade”, confidencia Sergio Marone, durante o bate-papo de quase uma hora, ao analisar a forma como se reinventou ao longo dos 20 anos de carreira. Polivalente, o paulistano de 39 anos despontou como ator, mas, com o tempo, também abraçou a oportunidade de se testar como apresentador, inclusive fora do País.

E não parou por aí. Começou a produzir peças e filmes e, agora, durante a pandemia, lançou no seu canal do YouTube o Só Coisas Boas, programa em que procura reunir apenas informações positivas para ajudar a levantar o astral das pessoas. Sem falar que já tem em vista diversas ações de ativismo ambiental – há cerca de 15 anos, Sergio se envolve em causas pela preservação da natureza.

Na entrevista a seguir, ele fala ainda de seu jeito tranquilo e independente de ser e do seu próximo filme, Jesus Kid. "Uma das minhas primeiras e grandes fãs, a Aline Brasilino é de Santos. Ela já foi até presidente do meu fã-clube", comenta.

OPORTUNIDADE Como surgiu a ideia para o Só Coisas Boas?

Sempre quis assistir a um programa que trouxesse apenas informações positivas. Agora, durante a pandemia, me deparei com o Some Good News, do ator norte-americano John Krasinski, e pensei por que não me inspirar nele para fazer algo parecido aqui no Brasil, no meu canal do YouTube. O momento atual é propício para isso, pois as pessoas mais do que nunca precisam lembrar que as coisas boas continuam acontecendo.

Que fatos positivos mais o motivam?

São os que têm a ver com solidariedade e regeneração da natureza. Impressiona como o meio ambiente começou a se recuperar neste tempo em que o mundo praticamente fechou para balanço, interrompendo as principais atividades exploratórias e poluidoras, para se tentar conter a transmissão do novo coronavírus. Ficou nítido que a natureza não precisa da gente; nós que precisamos dela.

Também faz muito bem ver como estamos resgatando a humanidade, a empatia. Afinal, antes da covid-19, estávamos vivendo um momento de contaminação da desumanidade. Devemos aproveitar a pandemia como uma oportunidade para evoluir como seres humanos e passar a cuidar melhor do planeta.

Pelo jeito, é bem otimista.

Eu me esforço para ser. Mas vou te falar que a pandemia é o meu último momento de esperança. Se a gente não sair dela transformado, com a sociedade valorizando mais a biodiversidade do que o lucro, vou perder totalmente a minha esperança na humanidade.

Você, certa vez, declarou que gosta de ter momentos de solitude. Isso ajudou a encarar melhor a quarentena?

Acredito que sim. Eu sou bem tranquilo e sempre fui uma pessoa bastante independente, que convive bem consigo mesma. É claro que, às vezes, sinto saudade da família e dos amigos, mas consigo me ocupar muito bem. Tenho o privilégio de morar na Gávea, lugar do Rio de Janeiro em que acordo e, todo dia, vejo a mata tropical da Tijuca. Não dá para ficar deprimido com isso.

Sem falar que a natureza me religa à minha essência, ela me renova, dá energia. E a minha casa é cheia de livros. Você precisa tomar cuidado para não tropeçar nas pilhas que ficam no chão, na escada... Além de ler, curto ficar assistindo a filmes, séries e navegando na internet. Eu sou de sair pouco, prefiro receber os amigos em casa.

ATIVISMO O que despertou a sua consciência ambiental?

Como um bom aquariano, sempre fui um cara muito humanitário. Há uns 15 anos, tive o meu primeiro envolvimento mais sério com as questões ambientais. Na época, eu já seguia o movimento Xingu Vivo no Twitter e, por ficar chocado com os posts da ONG e com a falta de envolvimento das pessoas perante tudo o que era apresentado, tive a ideia de montar o movimento Gota D’Água.

Chamei, então, 17 colegas de trabalho, gente de peso como Murilo Benício, Juliana Paes, Ingrid Guimarães e Marcos Palmeira, para falar sobre a hidrelétrica de Belo Monte, que afeta o Rio Xingu, e pedir a abertura da caixa-preta da produção de energia no Brasil. Porque não dá para entender como o País ainda não investe pesado na energia solar, já que a energia elétrica não é tão limpa como parece.

Ficou satisfeito com o resultado do Gota D’Água?

Conseguimos 1 milhão de assinaturas contra Belo Monte no prazo recorde de uma semana. Fomos ao Palácio do Planalto, em Brasília, encontrar três ministros da Dilma (Rousseff), mas a obra da hidrelétrica acabou acontecendo, pois, como ouvimos da boca de um dos ministros, já havia muito dinheiro envolvido naquilo.

Depois disso, como procurou conduzir essa sua faceta de ativista?

Fiz alguns vídeos para promover ações voltadas ao meio ambiente, como o Pare de Chupar, que levanta a reflexão sobre o consumo de plástico descartável no dia a dia e pede para as pessoas pararem de usar canudos de plástico. Esse vídeo viralizou e contou com o suporte de vários colegas de trabalho também.

Fora isso, já fiz talk virtual sobre questões ambientais, falei em congresso de lixo zero em Brasília e trato direto nas minhas redes sociais de sustentabilidade; pelo menos uma vez por semana, abordo o tema.

Estou sempre envolvido com algo ligado ao meio ambiente. O que, na minha opinião, é um dos principais dilemas da humanidade. A gente precisa fazer com que as pessoas entendam o quanto a natureza está relacionada com a nossa saúde. O Mateus Solano fala uma coisa maravilhosa: não adianta o governo fazer campanha contra a dengue, dizendo para a população não deixar água parada no vaso da planta, se não há saneamento básico suficiente.

Moro no Rio de Janeiro e a cidade fede, as bacias hidrográficas estão nojentas. Eu, o Mateus, biólogos e outras pessoas conhecidas que têm afinidade com a temática ambiental fazemos parte de um grupo que se chama Mudar para Preservar. Todo dia, trocamos ideia sobre ações para reverter isso.

Ainda tem horta em casa?

Estou com um jardim suspenso e já fiz umas plantaçõezinhas na varanda. Tenho tentado recuperar a minha árvore de laranja, porque, como viajo muito, é difícil para manter as plantas. No início do ano, por exemplo, fiquei dois meses nos Estados Unidos para estudar. Gosto de dar uma reciclada no meu conhecimento; frequentei o curso de uma das principais coaches norte-americanas de atuação.

Enfim, tentei fazer a minha casa o mais sustentável possível. O piso é de madeira de demolição, tenho composteira doméstica, o sofá e as cortinas estão comigo há, pelo menos, 15 anos. A gente precisa repensar o consumo, comprar o que realmente é necessário, com a consciência de que está adquirindo algo de uma empresa responsável.

Outra coisa: o momento atual é bom, inclusive, para as pessoas repensarem quem elas seguem nas redes sociais e o quanto esses influenciadores mudam a nossa vida para melhor.

Nas redes sociais, você mostra como a sua alimentação é supersaudável e natural. Isso, por acaso, ficou ainda mais latente com o seu engajamento nas questões ambientais?

Essa minha consciência das causas ambientais talvez tenha feito com que eu ficasse mais chato com relação ao consumo de alimentos orgânicos. Mas, de modo geral, sempre me preocupei com o físico e com o que como, pois não tenho uma genética tão favorável, que ajude a manter o tipo de corpo que o meu trabalho pede. Na adolescência, eu fui obeso. E ainda mais agora, que estou beirando os 40 anos, não posso mais vacilar (risos). Apesar de eu ter um espírito jovem e gostar de atividade física – treino de quatro a cinco vezes por semana –, já sinto uma diferença grande no organismo.

Tem o sonho de, de repente, criar um projeto ambiental?

Tenho algumas vontades, como montar uma fundação e produzir um programa de TV aberta focado nas questões ambientais. Algumas dessas minhas ideias de movimentos e eventos – ligados, por exemplo, à mudança dos hábitos de consumo e ao upcycling (reutilização de produtos) – já estão formatadas, precisam apenas serem comercializadas para poderem virar realidade.

Aqui no Brasil é assim: você tem de fazer várias coisas ao mesmo tempo, pois demora para os projetos acontecerem. Para ter uma noção, estou produzindo há sete anos o longa Jesus Kid, que é baseado no livro do Lourenço Mutarelli, e as filmagens só ocorreram no ano passado.

MÚLTIPLO O filme já tem data para ser lançado?

Ele está praticamente pronto, só que vamos esperar para ver como será a volta do cinema e dos festivais para fechar a data de estreia. Jesus Kid é uma comédia gostosa, ácida, crítica, para a família toda.

Chegou a ter outras experiências como produtor?

Sim, no cinema e no teatro. Mas, na maioria dos projetos, fui produtor associado. Teve filme independente que produzi não ganhando nada, por acreditar no roteiro. No caso do Jesus Kid, comprei os direitos do Lourenço Mutarelli e escolhi o Aly Muritiba para dirigir. Admiro o trabalho dele demais. O Aly já foi premiado em vários festivais e dirigiu séries como Carcereiros. Eu o descobri num festival de filmes brasileiros que uma amiga organiza em Los Angeles (EUA), o Hollywood Brazilian Film Festival.

Você também tem investido, de um tempo para cá, na carreira de apresentador. Como fica o ator em meio a isso tudo?

Ele continua pronto para entrar em cena. O que acontece é que não gosto de fazer qualquer papel só para dizer que estou trabalhando. Quero contar boas histórias, dar vida a personagens relevantes. Sou muito realizado como ator. Inclusive, estou no elenco de Jesus Kid.

Na televisão, mesmo antes de fazer protagonista, tive personagens ótimos e significativos, como nas novelas Paraíso Tropical e O Clone. Alguns dos recordes de audiência de Caras & Bocas se deveram às cenas do meu personagem, o Nicholas, com a Milena (Sheron Menezes).

O próprio Ramsés, de Os Dez Mandamentos, me trouxe fama internacional de um jeito que jamais poderia imaginar. Nós viajamos a América Latina inteira para promover o filme e a novela, também fomos para Portugal e Angola. Por onde passávamos, as pessoas nos recebiam como popstars. Foi algo louco.

E essa projeção fez com que fosse chamado para apresentar um programa no Chile.

Exatamente. Fui um dos apresentadores de um festival de inverno chileno. Aí, recebi o convite para comandar um reality show no país. Cheguei a gravar o piloto, mas não consegui continuar no projeto, devido à incompatibilidade de agendas – eu estava escalado para uma novela no Brasil.

Fora do País, ainda fiz um filme bíblico em espanhol. Foi uma produção norte-americana, rodada na Espanha. Sabe, eu batalho bastante, corro muito atrás das minhas coisas, elas geralmente não acontecem com tanta facilidade, em especial no cinema e como apresentador.

Acho que nunca perdi a cabeça nos altos e baixos que tive nestes 20 anos de carreira, por contar com o suporte da minha família e com a educação que ela me deu.

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