Ronco, acorda a pessoa ao lado e desperta doenças

Mas há tratamentos eficazes para solucionar o problema

Quando falamos em prova de amor, pensamos logo em flores, um café na cama caprichado ou uma declaração romântica em público. Poucos lembram de uma prova de amor que, segundo estudos das melhores universidades, está entre as maiores do mundo: dormir ao lado de alguém que ronca.

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De acordo com uma pesquisa realizada pela British Lung Foundation, uma em cada três pessoas perde o equivalente a 23 dias de sono por ano graças ao ronco do parceiro ou parceira.

Outro estudo, feito com 500 pessoas pela One Poll, mostrou que a sinfonia noturna do parceiro prejudica 30% das relações sexuais e 46,4% dos homens sentem vergonha por roncar. Além disso, um em cada cinco voluntários de ambos os sexos relataram que o barulho afeta a vida íntima do casal e quase um terço, entre 45 e 54 anos, admitiu que o distúrbio arruinou o sexo no relacionamento.

Há estudos que relacionam o problema como um dos fatores mais causadores de divórcios, atrás apenas de traição e problemas financeiros. É o que apontou um artigo de uma pesquisadora da Universidade da Califórnia-Berkeley, publicado em 2013, e tendo como amostra apenas os americanos.

A autônoma Rita dos Santos, de 50 anos, está no grupo das mulheres que provam que o amor supera tudo, até mesmo as indesejadas melodias noturnas dos companheiros. Ela nunca pensou em se separar por causa disso e tenta levar a situação com leveza. Porém, até hoje utiliza algumas estratégias para tentar conviver melhor com o problema. “Com o tempo, percebi que o ronco é mais alto quando ele tem um dia difícil ou quando fica ansioso por algum problema. Tento então pegar no sono antes. Tem dias que o barulho é muito alto e eu acordo várias vezes. Dou umas cutucadas pra que ele mude de posição. Também já gravei e mostrei no dia seguinte. Ele quase não acreditou na altura do ruído”.

Britadeira, trator, turbina de avião, serra elétrica, motor de ônibus. Os apelidos são muitos para quem sofre desse mal. Ainda há muito a ser estudado, mas uma coisa parece ser consenso entre os especialistas da medicina do sono: embora muitas vezes tratado como piada, o assunto é sério. O psiquiatra e professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), Kalil Duailibi, diz que os roncos dos maridos é a maior causa de insônia de mulheres.

“A pessoa que dorme mal tem três a quatro vezes maior risco de ter ansiedade e depressão. Fora as alterações cognitivas no outro dia. Isso afeta a memória, a atenção e o desempenho nas funções”, explica.

Roncar não atrapalha apenas de quem está ao lado. O próprio roncador é vítima. Sem perceber, tem diversos micro-despertares que interferem na qualidade do sono e nas funções essenciais do repouso, que é manter em ordem o Sistema Glinfático.

Esse sistema é similar ao Sistema Linfático presente no resto do corpo, responsável pela remoção de líquidos e toxinas dos espaços entre as células.

“O cérebro também apresenta um sistema de limpeza, de eliminação de toxinas e ele é ativado durante o estágio mais profundo do sono, o sono REM. As outras fases repousam muito mais musculatura. Principalmente as pessoas que trabalham diretamente com o intelecto precisam ter um bom sono REM”, enfatiza Duailibi.

A apneia do sono pode ser uma bomba-relógio especialmente em pacientes obesos e com histórico de problemas cardíacos ou com diabetes. “Dependendo da gravidade, a longo prazo a doença pode gerar mais chances de infarto agudo do miocárdio, arritmia, acidente vascular cerebral e alterações metabólicas, como resistência à insulina e chances de desenvolver diabetes tipo 2”, alerta Danilo Sguillar, médico otorrinolaringologista, médico do sono e diretor da Associação Brasileira de Medicina do Sono.

E como saber quando o ronco é crônico a ponto de ser classificado como apneia obstrutiva do sono?

Existem alguns sinais de alerta, diz a médica neurologista e especialista em medicina do sono do Hospital Casa de Saúde Guarujá, Thaís Cano. “É preocupante quando o ronco vier associado com sintomas como sono não reparador, sonolência excessiva diurna, relato de pausas respiratórias presenciadas, descenso noturno insatisfatório, acordar com sensação de asfixia, entre outros”.

O pneumologista e especialista em medicina do sono, Gunther Kissman, explica que roncar é sinal de alguma alteração impedindo o correto fluxo de ar na via aérea.

“O ar, ao sair ou entrar dos pulmões, passa pela laringe, na garganta. Se a pessoa tem um estreitamento da via aérea ou um edema naquele local, isso pode gerar um turbilhonamento e as estruturas que estão em volta do pescoço vibram. Isso desencadeia o ronco e pode ser também um indicativo de que a pessoa tem apneia”.

Segundo o especialista, nem todo mundo que tem apneia tem ronco, assim como e nem todo mundo que ronca tem apneia, embora seja bastante comum a associação entre os dois fatores. “A apneia acontece quando tem um fluxo muito diminuído ou uma parada de fluxo aéreo durante a noite. Percebe-se um esforço para respirar, parece que a pessoa está lutando para puxar e liberar o ar. Ela estica o tórax, o abdome e se movimenta durante a noite. O sono é mais agitado”.

O diagnóstico de apneia do sono ocorre por meio de um exame chamado polissonografia. São colocados vários sensores e o paciente dorme com eles. Na manhã seguinte, esses sensores são retirados e levados para análise. Com os dados coletados são qualificadas e quantificadas as alterações. “A polissonografia acusa se trata-se de ronco comum, apneia, movimento de pernas, bruxismo, arritmia cardíaca, entre outros. Estipula também a intensidade dessas alterações”, detalha.

Segundo Kissman, a indicação do melhor tratamento depende da intensidade dos problemas registrados. No caso da apneia do sono, até 5 eventos por hora é aceitável. Numa faixa de 5 a 15 é apneia leve. Entre 15 e 30, a apneia passa a moderada. Acima de 30 eventos por hora é classificada como grave. Para cada faixa existem propostas de tratamentos diferentes.

Basicamente existem três frentes principais. Uma comum a todas elas é perder peso para reduzir intensidade do ronco ou da apneia. Dependendo do tipo e da frequência detectada, são indicados dispositivos intraorais, que podem ser feitos sob medida e por um dentista habilitado. Esses dispositivos são encaixados nas arcadas superior e inferior e jogam a mandíbula um pouco mais para frente, facilitando o fluxo aéreo.

Danilo Sguillar, médico otorrinolaringologista, lembra também de terapias como a fonoterapia, que atuam no fortalecimento da musculatura do pescoço, língua e palato mole. “É preciso investigar ainda possibilidade de outras doenças como refluxo, rinite e evitar medicações que causam um relaxamento muscular intenso, como os ansiolíticos e outros medicamentos indutores do sono, além do álcool”.

Existem ainda as correções cirúrgicas para casos como desvios de septo, adenoides e amigdalas aumentadas.

Uma outra opção bastante difundida já há algum tempo é o uso de aparelhos de pressão positiva, os chamados CPAPS ou BIPAPS. Eles capturam o ar que está no ambiente, entregam o ar com uma pressão um pouco maior para pessoa, por meio de um tipo de máscara. Com isso, a via aérea fica um pouco mais aberta. Se o aparelho estiver bem regulado, o paciente não vai ter ronco e a apneia é controlada.

“O Brasil é um dos três maiores centros de pesquisa sobre alterações do sono no mundo. Um grande estudo feito aqui mostrou que na população adulta na cidade de São Paulo mais de 40% das pessoas tinham alguma queixa relacionada ao sono, em 2010. Notou-se que quase 33%, ou seja, um em cada três paulistanos adultos tinham algum grau de apneia do sono”, diz o pneumologista.

O cirurgião buco maxilo-facial Marcelo Fardin, mestre em Cirurgia de Cabeça e Pescoço e estomatologista, explica a importância de distinguir os tipos de roncos. Segundo ele, são dois: o primeiro é ronco social ou primário, que incomoda, mas não gera distúrbio de oxigenação. O segundo é o ronco com apneia, o ronco obstrutivo.

“O social pode ser tratado com o otorrinolaringologista e envolve a buco-faringotomia, ligada ao palato, úvula, amigdalas, correção de septo, turbinectomia e outras. Esses procedimentos podem melhorar, em alguns casos, também a apneia leve”.

Já as apneias em graus mais elevados de intensidade podem demandar cirurgias mais invasivas, de acordo com as classes de oclusão identificadas. Explicando de

forma simples, pense na mandíbula como uma caixa e na maxila como uma tampa. Quando a caixinha é menor do que a tampa, a oclusão é de classe 2. Quando a tampa é menor do que a caixa a oclusão é de classe 3 ou prognatismo.

De acordo com Fardin, o paciente prognata, quando tem prognatismo por atresia da maxila, tem apneia também. O mais comum, no entanto, é a classe 2.

“Tem aparelhos de reposicionamento mandibular que jogam a mandíbula para frente, mas causam distúrbios naquela articulação ao longo do tempo, como luxação anterior de disco, reabsorção de cabeça de mandíbula, entre outras. Nos pacientes que tem atresia da maxila indica-se cirurgia de avanço maxilar para tratar via aérea superior. Para o paciente de classe 2 está indicado o avanço mandibular para tratar a via aérea inferior. Isso não exclui a

buco-faringotomia. A análise do otorrino é primordial, assim como exames de imagem e a polissonografia”.

Sem contraindicações

Luciano Drager, médico cardiologista, especialista em sono e vice-presidente da Associação Brasileira do Sono, reforça que quase dois terços dos brasileiros adultos sofrem com noites mal dormidas, o que pode significar a presença de um ou mais distúrbios de sono. “Neste contexto, a apneia se destaca, pois acomete cerca de 1/3 da população adulta brasileira e, apesar de sua alta prevalência, segue sub-diagnosticada”.

Algumas dicas para roncadores no início do processo de entender a dimensão do problema podem ser adotadas mesmo antes das investigações mais profundas.

O clínico geral e psicólogo Roberto Debski frisa os hábitos mais saudáveis de vida. “Sedentarismo, tabagismo, abuso de álcool e refluxo estão associados ao problema direta ou indiretamente. Atividades físicas e mudanças no padrão alimentar bem orientadas podem ser aliados importantes no tratamento ou até a solução”, aconselha.

“No longo prazo, os pacientes que negligenciam a situação podem ter problemas cognitivos, metabólicos e cardiovasculares. O tratamento, apesar de complexo e multidisciplinar, é altamente possível. Além de ser necessário incluir na rotina a boa alimentação (principalmente em casos de obesidade) e a atividade física”, completa Drager.

Outras medidas comportamentais, como dormir em decúbito lateral, elevar a cabeceira da cama em aproximadamente 15 graus e evitar ingestão de bebidas alcoólicas são bem-vindas, lembra Thaís Cano.

Para aqueles ou aquelas que literalmente ainda não acordaram para o problema, o parceiro ou parceira é geralmente é o portador da má notícia. “Nessa hora, a abordagem deve ser sem tom acusatório ou de crítica, mas muito sincera. Quando há amor de verdade não é isso que vai gerar briga. O ronco pode ser a gota d’água, o gatilho para uma separação, mas só em casos onde a crise conjugal já existe”, finaliza o psicólogo Roberto Debski.

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