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Quarta-feira

17 de Julho de 2019

Programa mostra como aderir à moda sustentável

A apresentadora e consultora Chiara Gadaleta mergulhou de cabeça na questão da sustentabilidade. A seguir, ela nos convida a repensar nossos hábitos

Chiara Gadaleta tem uma história e tanto. Apaixonada por moda, ela começou como modelo, se tornou estilista, consultora e ainda criou a própria marca. 

Mas a sua preocupação com as questões ambientais falou mais alto, levando-a a criar, em 2008, o ECOERA, movimento que procura conscientizar não só as empresas de moda, beleza e design como seus parceiros e clientes sobre a importância de agir de modo mais sustentável. Em paralelo a isso, Chiara, que nasceu na Itália, comanda o Menos É Demais, programa do Discovery Home & Health que está em sua segunda temporada, exibida todo domingo às 18 horas, no qual ajuda várias famílias a consumirem roupas e produtos de forma mais consciente. “Também trabalho com aldeias indígenas, para promover a valorização de sua arte”, observa a simpática apresentadora e consultora de sustentabilidade, de 48 anos. Na entrevista, ela relembra sua trajetória, dá informações surpreendentes sobre o impacto da indústria da moda na natureza e orienta como administrar nossos armários e nossos hábitos de consumo de uma maneira mais sustentável.

ENGAJAMENTO Está satisfeita com os resultados do Menos É Demais?

Sim. A primeira temporada do programa já me trouxe um aprendizado muito grande. A segunda, agora, também está sendo bem bacana, porque permite melhorar alguns pontos e mergulhar um pouco mais no histórico de cada família que visitamos. Com o tempo, você percebe que o consumo exagerado – seja de roupas, jogos etc – geralmente está associado a uma questão emocional. Para isso, é preciso levar em conta vários aspectos. Acho tocante e transformador fazer a pessoa repensar seus hábitos. Para que tenho tanta maquiagem? Por que compro diversos sapatos se uso sempre os mesmos? O problema não é ter, por exemplo, um monte de panelas e, sim, não utilizá-las. O consumo consciente se tornou um tema extremamente atual e que deve ser debatido com urgência.

Não é de hoje que você ajuda a fomentar essa consciência.

Trabalho há quase 27 anos com moda, sou ‘dinossáurica’ no mercado (risos). Há 11 anos, tive uma espécie de chamado. Na época, apresentava um programa no GNT e me dei conta de que a moda convencional não fazia mais sentido para mim. Foi assim que criei o movimento ECOERA. Nele, a gente bate muito na importância de entender que a responsabilidade pelo consumo é compartilhada pela cadeia inteira: por quem fornece matéria-prima, por quem desenha e fabrica a mercadoria, por quem a distribui e por quem a adquire. Se cada um fizer a sua parte, todo mundo vai sair ganhando, inclusive o meio ambiente. Mas, até há pouco tempo, a gente não se preocupava com o que acontecia com os produtos quando a sua vida útil acabava. Isso é assunto sério, pois os aterros e lixões geram um impacto ambiental gigantesco. Eu quero consumir moda de maneira consciente: saber que estou comprando algo que apoia uma marca local, que estimula a economia nacional e que é feito de material reciclável, que afeta menos o planeta.

O que exatamente mudou a sua opinião sobre a moda convencional?

Foi todo um processo. Eu nasci na Itália, meus avós passaram pela guerra. Quando comecei a trabalhar como modelo, fui morar em Paris (França). Sempre tive acesso à inquietação da área criativa e tudo que estava pronto me agradava pouco. Como queria algo que, normalmente, não estava pronto, era difícil comprar de forma desenfreada. Depois de modelo, fui estilista, diretora criativa de muitas marcas brasileiras, consultora. Enfim, conheci bem o mercado. Aí, me tornei empresária e tive a minha própria marca, que se chamava Tarantula, de 2006 a 2008. Nela, usava tecidos que garimpei ao longo dos anos de modelo. Eu os aproveitava ao máximo. Tanto é que o que sobrava deles virava almofada, roupa de criança, lingerie... Mesmo assim, restinhos de tecido se acumulavam no chão do ateliê, e me fizeram pensar: se sou uma empresa pequenininha e gero descarte desse jeito, imagina a indústria. Isso começou a tirar o meu sono, sabe?

Aconteceu o que a seguir?

Uma pergunta passou a me acompanhar: se a moda é um reflexo dos nossos tempos, como ninguém fala de questões como as ambientais? Comecei a ficar brava com o mercado. Tudo bem, a moda é a minha paixão, a área que me acolheu, me formou e me permitiu criar dois filhos. Porém, ela, que sempre foi representativa para mim, de repente perdeu o foco, ficou atrasada. Como tenho espírito de fazer e empreender, resolvi ir atrás da moda que realmente refletisse os nossos tempos. Fiz um trabalho de imersão durante dois anos e meio. Uma associação de calçados me contratou para viajar o Brasil inteiro para conhecer os seus biomas, a sua natureza, e integrar o saber do manual, do artesanal. Tive a chance de ver a questão do consumo consciente, das mudanças climáticas e da sustentabilidade evoluir de tal modo que passou de bandeira levantada por um grupo para um assunto urgente, que todo mundo quer e precisa discutir. O próprio ECOERA, que fundei em 2008, tomou corpo de lá para cá.

Como está o movimento?

Hoje, ele agrega três frentes: o Programa ECOERA, uma consultoria que atua nas empresas de moda, beleza e design abrindo suas agendas para discutir boas práticas e entregando ferramentas para mudanças nos seus negócios; o Portal ECOERA, plataforma que dissemina conteúdo para aproximar a sustentabilidade do dia a dia das pessoas; e o Prêmio ECOERA, que, desde 2015, aponta as empresas que estão se esforçando para diminuir seus impactos ambientais. Não foi fácil chegar aonde estou, a gente teve que quebrar alguns paradigmas.

PESQUISA O que mais a chocou nesse tempo todo?

Existe um problema no mercado brasileiro de moda: ele não está acostumado a investir em pesquisa, em metodologia científica, para levantar dados sobre os seus impactos ambientais. Estima-se, por exemplo, que o Bom Retiro (bairro de São Paulo que é famoso polo de confecções) descarta por dia mais de 15 toneladas de resíduo têxtil sem destinação correta. O que é enorme! Mas, tirando isso, a gente carece de números confiáveis. Os que você encontra na internet nem sempre têm sua procedência informada; muitos dados que acabam sendo usados são importados dos Estados Unidos ou da Europa, ou seja, de realidades diferentes da nossa. No ECOERA, portanto, decidimos começar a realizar levantamentos desse tipo. As empresas estão nos contratando para fazer pesquisas que permitam traçar metas de redução de gasto de água, de energia, de geração de resíduos.

Que números vale divulgar?

Nosso primeiro levantamento mostra que uma calça jeans consome 5.196 litros de água durante sua vida útil – desde o plantio do algodão até o despacho do consumidor final. Convido as pessoas a darem uma olhada na plataforma que lançamos: A Moda pela Água (amodapelaagua.com.br), pela qual convocamos as empresas do mercado para falar sobre esse recurso tão importante e finito. Afinal, por ano, a indústria da moda consome 80 bilhões de metros cúbicos de água.

Como podemos melhorar esse dado relacionado ao jeans?

É fato: a gente lava demais as roupas. Poderíamos usá-las um pouco mais antes disso, repetir o mesmo jeans em diferentes looks. E seria legal desenvolvermos um olhar mais atento para quais marcas consomem menos água.

As pessoas ainda têm a ideia de que a roupa sustentável é feia ou cara demais?

Infelizmente, ainda não passamos desse ponto. Diria que estamos conversando sobre ele, porque não é todo mundo que consegue comprar, por exemplo, uma bolsa vegana da Stella McCartney. Por isso é importante grandes magazines estarem preocupados em entender os seus impactos ambientais e tentarem encontrar possibilidades para diminuir ou compensar aquilo. Mas a gente também precisa estar ciente de que esse processo de mudança vai exigir um tempo de pesquisa, os efeitos não serão imediatos. O fundamental é cada um cumprir o seu papel. Então, por que não comprar um produto de material reaproveitado ou uma bolsa de crochê feita por uma comunidade de artesãos?

ARMÁRIO O que mais as pessoas podem fazer em prol do consumo consciente?

Sugiro ter mais curiosidade na hora das compras. Observe a etiqueta da roupa e veja se consegue descobrir quem a produziu, onde e como isso aconteceu e com que material. Essas são perguntas do consumo consciente. Elas nos empoderam, fazem refletir a respeito. Tem mais: por que será que uma roupa está tão barata? O segundo momento é garimpar o que você tem no armário. Seja paciente com o que vai encontrar lá, pois o que compramos diz muito sobre a gente. Procure fazer uma limpeza geral. Dê, doe o que não usa mais ou organize uma feira de troca com os amigos. Você também pode promover um bazar ou vender as peças na internet, para ganhar um dinheiro com aquilo. E não se limite ao quarto. Analise armários e gavetas de outros cômodos: da cozinha, da sala...

Quais são as dicas para resistir à tentação do consumismo?

Sempre vale se questionar: preciso do produto que quero comprar? Ele vai funcionar direito com o que já tenho em casa? Estou indo na onda da tendência? Quero agradar a mim ou aos outros? Através dessa autoanálise, aumentamos o nosso autoconhecimento e o nosso senso crítico para, a partir daí, observarmos outras questões da sustentabilidade.