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Terça-feira

17 de Setembro de 2019

Prática da escrita traz benefícios psicológicos e motores

Todos só têm a ganhar, pois isso faz utilizar mais redes e áreas cerebrais do que digitar. E assim fortalece diversas funções neurais

Eis uma atividade clássica e democrática, que pode trazer benefícios à coordenação motora, às emoções... De acordo com Beatriz Carunchio, neuropsicóloga com doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), envolve ainda funções neuropsicológicas como memória, aprendizagem, atenção, linguagem. E influencia até mesmo na compreensão do que temos em nós mesmos e da realidade em que vivemos. E mais: “a troca de bilhetes e cartas ajuda a criar e aprofundar laços afetivos fundamentais à saúde física e mental, em todas as idades”, continua ela, que integra o Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais da Universidade de São Paulo (USP).

A escrita à mão voltou à moda, sendo uma das características do mais recente livro vencedor do prêmio Jabuti, À Cidade, do cearense Mailson Furtado. Vários idosos, por exemplo, gostam dessa atividade por resgatarem costumes deixados de lado ao longo da vida. “No caso da terceira idade, trabalha funções neuropsicológicas, inclusive a memória, diminuindo o declínio cognitivo”, diz Beatriz.

E como incentivar uma geração que já nasceu digital, com tantas tecnologias e telas à disposição, a curtir utilizar lápis e caneta? Para a neuropsicóloga, “a primeira atitude é explicar. As crianças entendem! Quando escrevem à mão, usam áreas do cérebro ligadas à percepção, cognição e motricidade de forma combinada, e isso traz ganhos imensos para o desenvolvimento neuropsicológico. Também é importante que os adultos deem o exemplo. As crianças tendem a reproduzir comportamentos que observam em pessoas significativas”.

Beatriz comenta que, quando escrevemos digitando, não utilizamos certas funções, como a coordenação motora fina – afinal, basta apertar um comando ou encostar os dedos no touchscreen. “Com isso, inexiste o uso combinado de diferentes funções, modificando aspectos, como os ligados à aprendizagem (fluidez da linguagem e do pensamento)”.

Prazer caseiro

  • Dá para trazer a escrita para a realidade da família, pensando em atividades pelas quais pais e filhos se interessem:
  • Muitos gostam de ter um caderninho para fazer resumos e registrar opiniões, listas de filmes, livros, campeonatos esportivos...
  • A família pode organizar um fichário de receitas preferidas. Ou ter um caderno para que, toda noite, cada membro escreva uma coisa boa que ocorreu naquele dia.
  • Quem tem crianças pequenas pode resgatar o hábito de deixar bilhetinhos divertidos ou amorosos no travesseiro, com um membro da família fazendo isso a cada dia.
  • Crianças em fase de alfabetização gostam de brincar listando nomes de familiares e amigos, brinquedos, objetos, material escolar...
  • E que tal ter um diário? Grande parte dos adolescentes fica entusiasmada quando sugiro resgatar esse espaço só deles, para desabafar, refletir, sonhar, contar algo curioso ou fazer planos. Eles também gostam de agendas e planners, que ajudam ainda a se organizarem, planejarem e terem foco”, comenta Beatriz.

Lições matinais

A criadora do blog Desancorando, Maki De Mingo, apesar de focar no universo digital de produção de conteúdo, ama trabalhos manuais e escrever à mão: “É uma forma de desacelerar a mente e sair um pouco da frente das telas”. Ela se desafiou a escrever páginas matinais à mão e percebeu que:

  1. Ajuda a organizar os pensamentos. “Agente escreve tão mais rápido comum teclado, que parece que a mão não consegue acompanhar o que ocorre coma cabeça. Precisei respirar fundo algumas vezes e organizar as ideias a fim de priorizar. Porque é fácil a gente se perder nessa espiral de pensamentos e não saber o que pôr no papel primeiro”.
  2. É um ótimo exercício contra a ansiedade. “Precisei acalmar amente e deixar que cada pensamentos e apresentasse, para colocá-lo no papel. Sempre considerei a escrita (principalmente para o meu blog) uma terapia, mas, ao voltar a pôr a mão na caneta e a caneta no papel, é que percebi como isso é uma terapia de verdade”.
  3. Traz maior conhecimento de si mesmo. “Quando se escreve sem julgamentos ou filtros, aparecem coisas que você nem imaginava que estavam enterradas no seu íntimo. Pode ser assustador, mas é preferível ver isso como uma oportunidade de entender como você pensa e age. É uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, que me deu muitos insights”.
  4. Acima de tudo, Maki considera um treino para se observar e se entender usando as mãos de outra maneira: “Há horas em que sinto dor tentando alcançar a velocidade dos meus pensamentos com a escrita no papel. Na maior parte do tempo, é importante dar um passo atrás e acompanhar o ritmo das minhas mãos para descobrir o que há de interessante na minha cabeça”, finaliza a blogueira.