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Sexta-feira

3 de Abril de 2020

Pessoas devem construir pontes e se conectar umas com as outras

Páscoa convida a criar vínculos de aceitação, amizade e afeto em vez de barreiras de comunicação e desamor, que só afastam os outros

Quantos muros estão separando você das pessoas? Vários pensadores trazem à tona essa preocupação por constatarem que tanto familiares nos grupos de WhatsApp quanto governos poderosos estão criando muros (de ódio e separações) em vez de pontes (de afeto e tolerância). Conflitos em geral são alimentados por pré-conceitos, ignorância e falta de conhecimento sobre o outro, na visão do empreendedor social Antonio Pita, que escolheu dedicar seu trabalho, inteligência e tempo à construção de pontes. “Quando a gente se abre para ouvir o outro, reconhece valor naquela história, naquela matriz. Já estimular hostilidades, reivindicar pureza e segregações, ter visão binária das coisas (certo ou errado, direita ou esquerda...) são soluções testadas antes e que levaram o mundo ao terror sem limites”.

O coach empresarial e palestrante Armando Comitre Rigo lembra que, no clássico livro O Pequeno Príncipe, o francês Antoine de Saint-Exupéry já citava: “As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. A busca excessiva do ter, do status, por vezes traz a solidão de mãos dadas, segundo o coach, que sugere: “Embora seja mais fácil construir um muro, é necessário olhar além. Não se encontra qualquer caminho olhando para um muro, que por si só cobre a visão do horizonte. Uma ponte normalmente é sustentada por duas colunas: a da comunicação e a do amor, cantada por Chorão, saudoso vocalista da banda Charlie Brown Jr (Só o amor constrói pontes indestrutíveis). Pontes aproximam o que muros desuniram”, compara Armando. 

Para Tirley Alfonso, certificada em Comunicação Não Violenta pelo Conselho Nacional de Justiça, há duas atitudes que constroem verdadeiros muros entre as pessoas. São elas: “tirar conclusões” e “perceber o óbvio”. A falta de conversa e principalmente de empatia promovem ambientes hostis (virtuais ou presenciais) e conflitos perigosos entre amigos e inclusive entre nações. “Não ouvir as necessidades e sentimentos do outro faz com que as pessoas ajam somente em causa própria e afastem amigos, colegas de trabalho, parentes que estão ao seu redor”, alerta Tirley, que tem outras especializações como em Coaching Emocional e Comportamental, Hipnoterapia, Psicologia Positiva e Técnica de Liberação Emocional (EFT). Mas isso tem jeito.

A coach hipnoterapeuta recomenda beber na fonte de Marshall Rosenberg. Esse psicólogo norte-americano PH.D desenvolveu a Comunicação Não Violenta como um meio de construir pontes para (re)unir as pessoas nesta Páscoa e em todos os próximos dias do ano. Para isso, ensina quatro passos que levam a conversas francas e acordos com ganhos para ambos os lados, em qualquer âmbito e em qualquer contexto: 1. Observar sem julgar; 2. Identificar sentimentos; 3. Reconhecer e assumir os sentimentos; 4. Pedir (em vez de exigir). 

Fim da luta entre eu e o outro

Num mundo onde há cada vez mais polaridade de visões, opiniões e posições, onde o diferente muitas vezes se torna uma ameaça à própria existência e afirmação, é fácil sucumbir à ilusão da separação, na visão da artista Juliana Nascimento, que enxerga essa luta entre eu e o outro se manifestando em variados contextos: político, social, relacional, espiritual. O principal problema, segundo ela, é que, quando o confronto não está a serviço de uma coconstrução positiva, só gera ineficiência e perda no sistema, seja ele qual for.

“É hora de entender que o outro não é uma parte separada da nossa realidade. Ele é a nossa realidade, pois a interdependência faz parte do sistema. Se ampliamos nossa consciência, entendemos a relação entre todas as partes e a riqueza da diversidade, somos capazes de acolhê-las e cocriar o futuro que desejamos. Nunca se falou tanto de empatia, de se colocar no sapato do outro. Todos nós queremos viver num mundo mais feliz, com paz, justiça, e só vamos conseguir criando pontes, independentemente de cor, realidade social, origem, credo, visão. Se não nos reconhecermos na nossa humanidade, continuaremos perdidos na ilusão da separação”, avisa a artista, que deu uma guinada de 180 graus na vida este ano para ter uma atividade profissional mais ligada às emoções humanas. 

Juliana é fundadora da Ju.na, mãe da Lara e amante da expressão criativa infantil. “Tomei coragem e resolvi neste ano desembarcar do transatlântico de uma grande empresa e me jogar no bote do empreender artístico. Sabe aquela frase: ‘Vai, pula... Vai com medo mesmo’? Foi assim que encerrei um capítulo de quase 15 anos trabalhando no mundo corporativo para seguir meu coração e minha paixão. Com enorme alegria, amor e confiança no universo, me abro para o mundo querendo fazer pontes com o máximo de famílias por meio da Ju.Na, que nasceu inspirada no amor pela beleza, pureza e magia dos desenhos infantis. Dá dor vê-los fechados e guardados dentro de um armário...”

Juliana lembra que o desenho infantil representa a memória afetiva e criativa da criança, pois suas emoções, percepções, compreensão do mundo e imaginação estão lá expressas. Ressignificá-lo é uma linda forma de comungar isso tudo com seus pais, padrinhos, avós. Cada obra, que a artista valoriza ainda mais com técnica mista envolvendo recorte, colagem e pintura, reflete a beleza e individualidade da arte de cada criança. Atrás, ela escreve de próprio punho uma carta de amor e reverência àquela família. 

“Acredito muito no poder da rede, das conexões e do potencial de colocarmos o nosso talento a serviço no mundo. Então a quem sentir que quer fazer pontes comigo, estou à disposição! Ou simplesmente para enxergar magia nas artes de seus filhos, que vão muito além de rabiscos. Se isso acontecer, já terei cumprido a minha missão!”, diz a artista recém-empreendedora. 

Engajamento negro

“Quando me abri a conhecer o outro, pude fortalecer a minha identidade”, revela Antonio Pita, sócio da startup Diaspora.Black, que conecta anfitriões e viajantes interessados em vivenciar e valorizar a cultura negra, fomentando o engajamento. A proposta vem quebrar muros de racismo, como o apontado pela Universidade Harvard, ao descobrir que negros têm 16% menos chances de serem aceitos ou receberem hóspedes via plataforma de turismo de experiência. 

Em 2018, novos serviços foram incluídos na plataforma (agências de viagens, guias, roteiros, restaurantes e endereços culturais), que oferece descontos aos usuários cadastrados, o que promove a circulação econômica na comunidade negra. Entre os clientes, 84% são brasileiros e 16%, estrangeiros; sendo que 84% dos usuários são mulheres negras, de 25 a 34 anos. “A rede interativa permite o encontro, em lugares inspiradores, de pessoas com interesses e referências culturais comuns”, explica Antonio, cuja startup tem por meta atingir 10 mil usuários únicos.

Em Salvador, por exemplo, o viajante pode acompanhar de perto o Balé Folclórico da Bahia, além de uma missa na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a Festa de Iemanjá, interagindo em atividades religiosas e profanas. Na Chapada Diamantina, conhece o polo do garimpo baiano, onde se extraíam diamantes no Período Colonial; e, em Parati, no Rio de Janeiro, os ritmos vindos da África no Quilombo do Campinho. Além de oferecer hospedagens, roteiros turísticos e experiências culturais afrocentradas, a startup iniciará uma certificação destinada a hotéis, hostels e estabelecimentos com atendimento de excelência à comunidade negra.

Sem medos e crenças limitantes

Para criar pontes, um bom começo é refletir sobre qual é a sua missão de vida, como fez a cardiologista Melissa Nassif Cortez junto com a mãe, a angiologista Ione Nassif. A profissão que escolheram já dava a pista: “Cuidar de todos que chegam a nós, sendo coerentes e honrando nosso juramento. Por meio do nosso conhecimento, ajudá-los a enfrentar desafios, confortando-os quando necessário, fazendo com que se sintam capazes de melhorar a qualidade de vida”, detalha Melissa.

Nesse despertar da missão, mãe e filha enxergaram alguns muros, erguidos com os próprios medos e crenças limitantes, que precisavam derrubar o quanto antes. “Crescer profissionalmente, com o propósito de equilibrar mente, corpo e espírito, requer esse processo de autoconhecimento, perdão e reconexão que favorece tocar e transformar outras vidas. E assim nasceu a Nassif Angio e Cardio, em Praia Grande”, continua a filha, ponderando que diariamente criamos muros com nossas ideologias e debates, motivados principalmente pelo individualismo. “Muros que nos separam das pessoas vedam nossos olhos e nos mantêm em estado de desamor”, complementa Ione Nassif, concordando com Armando.

A festa da Páscoa

E por que tratar da criação de pontes, quebra de muros, neste domingo de Páscoa? “Importante celebração da igreja cristã em homenagem à ressurreição de Jesus Cristo, é momento de renovação, de repensarmos os nossos atos, de ressignificarmos nossas crenças e valores”, opina Melissa Nassif. 

Luiz Antônio Guimarães Cancello, psicólogo, músico, mestre em Educação e escritor, comenta refletindo sobre os fenômenos do tempo, que se desenrola de duas formas. Uma delas é baseada no calendário, marcado pelos meses e pelos dias de cada mês, e assim a sociedade percorre o ano de janeiro a dezembro. Outra é aquela das festas. “Começamos comemorando o Ano-Novo, depois temos o Carnaval, a Páscoa, os festejos juninos e julinos, a primavera, o Natal, e aí tudo recomeça. Neste infindável ciclo, as pessoas se encontram, comem, bebem, dançam, rezam, fazem pontes”. 

É verdade que, continuando a reflexão de Cancello, “no Carnaval, muita gente faz coisas que jamais faria em tempos normais, rompendo-se de muitas maneiras simbólicas a ordem estabelecida. Depois, vem um período de contrição e o mundo novamente se organiza, também com uma festa, mas agora de outra natureza. Em nossa sociedade ocidental, vivemos esse tempo arquetípico na Quaresma, que tem seu ápice na ressurreição de Cristo”. 

Como em todos os eventos apontados, hoje é uma data de encontros, de reunião das famílias, de visitar os amigos, de oferecer chocolate. “É uma ocasião em que celebramos principalmente as crianças, renovadoras do mundo, que procuram os ovos escondidos pelos adultos, aqueles que bagunçaram a ordem das coisas. Para além dos símbolos universais, é também a ocasião de encontrar o cunhado com quem tivemos algum desentendimento, ter paciência com a amiga da sogra que gosta de contar casos intermináveis e desinteressantes, pensar em comprar um ovo de chocolate para o filho daquele seu velho amigo que você prometeu visitar, mas nunca foi”, exemplifica o psicólogo.

Há quem diga “não ligar” para essas efemérides. “Sem dúvida, para alguns temperamentos introvertidos e retraídos, estar em reuniões cheias de gente barulhenta deve ser um tormento. Mas, para a maioria de nós, as datas comemorativas podem ser uma ótima ocasião para restabelecer pontes já combalidas. Se quisermos continuar a construir muros, que sejam apenas de chocolate”, finaliza o psicólogo.

Confira reportagem completa na edição deste domingo (21) de AT Revista.

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