Pandemia muda forma como as pessoas se exercitam

Profissionais e clientes tiveram que se adequar à nova realidade imposta pela covid-19

Reinventar é a palavra de ordem neste período totalmente novo que estamos vivendo. E isso vale para tudo. Seja honesto com você mesmo: qual foi a última vez em que, em nome da sua saúde, pensou em mudar ou readequar o jeito como pratica atividade física e encara o cuidado com o seu corpo e a sua mente?  

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O educador físico e personal trainer Pablo Seixas e sua aluna, a terapeuta Letícia Borges Taveira, de 35 anos, se adaptaram de uma forma bem criativa à realidade imposta pela pandemia. Especialista em treinamento desportivo e em prevenção e lesões e de doenças musculoesqueléticas, Seixas propôs para Letícia práticas ao ar livre para substituir a rotina de exercícios com aparelhos na academia.  

A equipe da AT Revista encontrou os dois na subida da Ilha Porchat, em São Vicente, e acompanhou uma dessas aulas. O convidativo cenário com sol, mar e o verde da natureza provou que dá para sair da caixinha sem desrespeitar os protocolos sanitários. A dupla usou o banquinho da praça, a mureta da praia e pranchas de stand up paddle como ferramentas para uma sequência diferenciada de movimentos. 

“Precisamos tomar todos os cuidados necessários para nos protegermos da covid-19, sem esquecermos de manter o nosso sistema imunológico fortalecido para reagirmos mais positivamente a um possível contágio. O treino externo é importante nesse momento, pois potencializa os ganhos da atividade física e mental”, explica o personal trainer, que já prezava por esse modelo antes.  

A pandemia, portanto, somente intensificou o objetivo do educador físico de conectar os alunos com a sensação de prazer nas atividades, afastando o conceito do esporte como uma obrigação, como algo extremamente exaustivo, sempre em ambientes fechados.  

Estímulo de fácil acesso 

Pablo Seixas faz parte do time de preparadores que insistem em mostrar que a atividade física pode ir muito além do que a maioria das pessoas imagina. “Tem gente que se identifica e se beneficia com o padrão de musculação na academia e está tudo bem. Mas não podemos deixar de experimentar novas formas de se movimentar. Proponho justamente esse desafio para os meus alunos”, observa.  

Para Seixas, os treinos que não ficam tão presos ao relógio e a metas severas, e que mesclam diferentes métodos e estímulos, são superválidos e importantes, ainda mais nos dias atuais. “Perdemos ferramentas grandiosas quando não fazemos experiências que estão ao nosso alcance, como se exercitar na ciclovia, na praia, no mar”, resume o personal trainer, que percebeu o aumento no número de adeptos do ciclismo, da corrida e da caminhada com a pandemia.  

Antídotos para a ansiedade 

Em tempos de coronavírus, que tal dar uma maneirada na cobrança por resultados mais expressivos no cronômetro, na balança e  

na fita métrica? Fazer uma trilha, caminhar na orla, acordar mais cedo para treinar e ver o sol nascer de um ponto diferente da cidade também são atividades físicas bacanas, que funcionam como poderosos antídotos contra a ansiedade decorrente da pandemia.  

Foi essa maleabilidade na escolha dos exercícios que pratica, aliada à integração com a natureza, o que permitiu a Letícia Borges vivenciar algo que já sabia enquanto terapeuta. Ela conta que fazia treinos ao ar livre no máximo uma ou duas vezes por mês. Com a covid-19, essa sua rotina mudou. Mesmo nos dias com chuva, as suas aulas são externas.  

“Eu tenho buscado cada vez mais a conexão com o natural. No meu trabalho, sempre falo da diferença que existe entre o normal, que é o que segue a norma, e o natural, que é aquilo que tem a ver com a nossa natureza. Esquecemos que fazemos parte da natureza. Quando nos exercitamos ao ar livre, fica mais fácil para lembrarmos disso. E esse contexto diferenciado acaba refletindo no nosso corpo e na nossa saúde como um todo”, aponta Letícia.  

Funcional, aula remota...  

Mesmo assim, há quem não quer abrir mão dos exercícios de força com aparelhos, só que ainda não se sente confortável para voltar a compartilhar espaços fechados, como o da academia. A boa notícia é que também existem alternativas interessantes para esse tipo de situação.  

Uma delas: recorrer aos exercícios funcionais, que já andavam em alta desde antes da pandemia e que consistem em utilizar o peso do próprio corpo para realizar séries de movimentos.  

Além disso, as aulas remotas vêm se popularizando cada vez mais. Pesquisa da Associação Brasileira de Franchising (ABF) para os segmentos de saúde, beleza e bem-estar mostra que os treinos prescritos pela web e outras estratégias digitais foram a arma de sobrevivência adotada por 89% das empresas do segmento fitness e esportivo durante a quarentena. 

Individuais ou coletivas, as aulas a distância também alcançaram um grupo de pessoas que, antes do período de isolamento social, não costumavam se exercitar, por não se identificarem com o ambiente da academia ou por sentirem que destoavam dos demais, em termos estéticos.  

Cau Saad, personal trainer paulistana e criadora do circuito funcional WorCAUt, aliou as duas coisas no que chamou de Cau Express. Trata-se de um programa de exercícios funcionais em que o professor treina remotamente junto com o aluno. Nele, a pessoa usa o que tem em casa: cadeira, sofá, cama, mesa... Até os livros ganham utilidade extra. 

E tudo é feito com muita atenção e calma para garantir que as posturas e os movimentos sejam realizados corretamente. Para quem preferir ou necessitar, o treino também pode contar com o acompanhamento presencial de um educador físico.  

“O meu método inclui um mix de estímulos, como peso do próprio corpo, elástico e outros itens para exercícios multifuncionais. Se a pessoa não tem nada em casa, eu crio alternativas e soluções com o que ela possui para adaptar o treino e conseguir os mesmos efeitos de resistência física, tonificação muscular, emagrecimento, melhora da postura e força”, explica Cau Saad.  

A cada aula, o aluno ainda deve indicar o seu nível de cansaço físico e mental, por meio de uma escala que vai de um a cinco. De acordo com as respostas, o professor ajusta as características e a intensidade do treino.  

Atenção aos riscos

É fato: a prática regular de atividade física associada a uma alimentação balanceada, à hidratação adequada e ao sono de qualidade melhora a respiração, a circulação e a parte hormonal. Sem falar que fortalece o sistema imunológico.  

Mas não basta escolher uma modalidade e se jogar nas aulas. Além de cumprir os protocolos sanitários contra a covid-19, é fundamental respeitar as limitações do seu organismo e não exagerar na dose. 

Segundo Rogério Neves, médico do esporte com especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Desportivo pela <QA0> 

Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), se a pessoa não realiza corretamente a atividade física, com o tempo terá um efeito adverso, em vez de colher os resultados desejados. E a piora da imunidade está nessa lista. 

“Observamos que a prática de exercícios em casa provocou um aumento no número de lesões, principalmente no caso de quem não conta com o suporte de um profissional da área. É importante frisar o seguinte aspecto: a pessoa que nunca fez nada não pode <QA0> 

insistir em exercícios para os quais ainda não está preparada”, alerta o médico Rogério Neves.  

Tem mais: independentemente de você estar habituado (ou não) a treinar, não pode deixar de “olhar para dentro”, para entender o que realmente sente e busca.  

“Os cuidados gerais não mudam, são os mesmos para todo mundo. Deve-se fazer exames e uma avaliação médica antes de começar ou recomeçar uma atividade física. A partir do objetivo – emagrecer, modelar o corpo, melhorar o condicionamento ou bater recordes pessoais – e do nível de saúde de cada um, é traçada uma estratégia segura e eficiente”, destaca Neves. 

O passo seguinte, vale reforçar, é providenciar o suporte de um profissional qualificado, que vai orientar sobre qual treino é mais indicado para o seu perfil. Seja ele indoor, ao ar livre ou uma combinação das duas propostas. 

 

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