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Domingo

9 de Agosto de 2020

Pandemia muda até geração de lixo

Caiu o volume do comum e aumentou o do reciclável, numa época em que a coleta seletiva foi afetada

Não é novidade que muitos hábitos e costumes foram mudados em escala planetária, por causa da covid-19. De uma série de impactos, Alfredo Cordella, professor da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e presidente da ONG Rede Cidadania, destaca que o consumo de bens e de serviços foi atingido em conteúdo e forma.

“Passamos a querer intensamente produtos associados à saúde e à busca de bem-estar (conteúdo); e a tecnologia, agindo como 'ponte', ampliou a comunicação desse desejo ao facilitar o acesso ao e-commerce e ao atendimento por delivery (forma)”. 

Um dos efeitos colaterais dessa mudança tem a ver com a geração de lixo: caiu o volume do comum e aumentou o do reciclável, numa época em que a coleta seletiva foi afetada. Segundo o professor, a pandemia está trazendo um aumento dramático no uso do plástico – não só em máscaras, luvas, frascos de desinfetantes e de álcool em gel, kits de testes, como também nos serviços de delivery, recipientes de refeições para viagens e embalagens de entrega, junto com copos e talheres descartáveis.

Vida hiper-higiênica x plásticos
“Essa situação de vida hiper-higiênica derrubou as iniciativas de combate ao 'plástico de uso único'. Um excesso de descartáveis com esse material se propagou e, em muitas cidades, as sacolas reutilizáveis foram combatidas por serem vistas como veículos de propagação do mal, a covid-19. Países que proibiam sacolas plásticas descartáveis na pré-pandemia, para reduzir o lixo plástico, recuaram. Agora, estão proibindo o uso de sacolas reutilizáveis”, conta o presidente da ONG criadora do movimento Ecofelicidade, que teve seu primeiro congresso em Santos no ano passado.

Conclusão: a quantidade dessa modalidade de lixo se multiplicou e os projetos de reciclagem de plástico deixaram de dar conta desse volume final gerado. “O exagerado descarte de plásticos trouxe impactos negativos mais severos em corpos d'água, no solo e, quando indevidamente incinerados, no ar”, alerta o estudioso, citando a seguir um lugar que está atento a isso. 

É Cingapura, cidade-estado que dá exemplo à sociedade por ter normas de higiene rígidas (na pré-pandemia, por exemplo, usar banheiro público sem acionar a descarga era motivo de multa ou até prisão).

“Pois bem, o programa de mestrado da Universidade Nacional de Cingapura tem procurado quantificar a gravidade desse problema. Em 5 de junho (Dia Mundial do Meio Ambiente), apresentou estudo mostrando que, em oito semanas de quarentena, seus 5,7 milhões de residentes geraram 1.334 toneladas adicionais de resíduos plásticos, só de embalagens para viagem”. 

O que pode ser feito?
O professor Cordella propõe quatro medidas:

1 - Conscientização para questões sociais e ambientais, especialmente dos hiperconsumidores, perfil que consome mais por motivações emocionais e busca de qualidade de vida e bem-estar, conforme retratou Gilles Lipovetsky em seu livro A Felicidade Paradoxal.

2 - Alternativas ao consumidor que faz seu pedido por delivery de não querer talheres descartáveis, de receber embalagens de papelão (sua celulose leva bem menos tempo para se decompor em relação aos polímeros do plástico comum) e, para os clientes fiéis, de optar por elementos retornáveis para desinfecção como vasilhames.

3 - Responsabilidade de setores da administração pública por acompanhar abusos e desperdícios.

4 - Trabalhos de educação para o meio ambiente, como é o caso do projeto Ecofelicidade, dissociando a forma equivocada de se tentar buscar felicidade no consumismo exagerado.

Uma dica final: em Santos, há coleta seletiva semanalmente. Cada dia passa em um bairro. É só separar os recicláveis e colocar na porta de casa quando o caminhão estiver na sua rua.

Para saber o dia correto da sua região, basta acessar o site https://www.santos.sp.gov.br/?q=hotsite/recicla-santos. 

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