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Pandemia estimula mulheres a optar pelo congelamento de óvulos
Alta chega a 50% em algumas clínicas, de acordo com especialistas
Por: Por Alcione Herzog  -  19/04/21  -  14:13
A pandemia, que tem ceifado tantas vidas, é a responsável pela tendência de nascimentos futuros   Foto: Reprodução/Adobe Stock

As clínicas especializadas em reprodução assistida registram um verdadeiro boom na quantidade de mulheres que optam por preservar a fertilidade congelando óvulos. Nos últimos dois meses, a alta chegou a 50%, de acordo com dados dos especialistas.


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A pandemia, que tem ceifado tantas vidas, é a responsável direta por essa tendência de garantir nascimentos no futuro próximo.


“Houve um aumento de 50% nos últimos dois meses na minha clínica, mas esse é um resultado que se repete no Brasil inteiro”, diz Condesmar Marcondes, médico que trouxe a técnica para o Brasil e que há 30 anos ajuda mulheres a realizar o sonho da maternidade.


Segundo ele, a comunidade médica especializada na área analisa fatores como maior tempo e acesso a informações sobre saúde como as principais causas para a corrida aos consultórios de reprodução humana. “Nesse período de crise sanitária, a saúde está em pauta todos os dias.


As mulheres têm ficado mais em casa, muitas trabalhando em home office e ouvindo dia e noite o debate sobre a importância de se manter saudável e pensar no futuro. Várias começaram a se perguntar: ‘Se estou bem, me preparando para ser vacinada, mas não quero filho no momento, que tal eu preservar a minha fertilidade agora que tenho tempo?’”, observa.


Sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRA) e do Núcleo Brasileiro de Embriologistas em Medicina Reprodutiva, Marcondes acredita que a tendência de crescimento no número de óvulos congelados continuará nos próximos meses.


“Há pessoas aproveitando o momento atual para aplicar toxina botulínica; outras, para fazer os tratamentos que estavam protelando por não conseguirem parar de trabalhar. Há aquelas que decidiram investir na saúde física e passaram a praticar ginástica pela internet. Enfim, as mulheres estão priorizando as suas metas de qualidade de vida e os seus sonhos”.


Avanço e planejamento


Pedro Monteleone, doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador técnico e científico do Centro de Reprodução Humana do Departamento de Ginecologia do Hospital das Clínicas (HC), conta que o aumento do planejamento familiar por meio do congelamento de gametas ou embriões já estava sendo observado mesmo antes da pandemia de covid-19, em função do avanço da técnica.


“Com o desenvolvimento do método de vitrificação, o congelamento passou a ser mais rápido, mais simples e com resultados excepcionalmente melhores em termos de qualidade”, explica Monteleone.


Para se ter uma ideia, antes do advento da vitrificação, as chances de se obter a recuperação de óvulos congelados eram de até 3%. Hoje, a taxa de sucesso fica entre 90% e 98%. “Dominamos completamente a técnica e sabemos que a evolução será contínua. Inclusive, estamos observando a diminuição na faixa etária das pacientes que nos procuram. Elas estão se antecipando, em vez de esperar a idade limite”, avalia o médico, que também é membro da SBRA.


Ele conta que a vitrificação surgiu devido à necessidade de preservar a fertilidade das mulheres com câncer, submetidas a tratamentos agressivos, como radioterapia e quimioterapia.


Há cerca de dez anos, os países passaram a criar os seus marcos jurídicos para ampliar o acesso ao método para as demais mulheres.


Incentivo corporativo


Grandes empresas, como Google, também oferecem para as suas funcionárias a possibilidade de custear o tratamento de estimulação ovariana e armazenamento de óvulos.


Atualmente, todo o processo não sai por menos de R$ 15 mil. E não se trata de uma bondade das corporações, já que o retorno em produtividade é muito maior quando as profissionais se livram das angústias causadas pelo impasse entre evoluir na carreira e ser mãe antes que o avanço da idade diminua drasticamente as possibilidades de dar à luz.


Conciliando sonhos


Tal dilema impulsionou a publicitária Anna Carolina Pessoa, de 40 anos, a começar a planejar, oito anos atrás, como seria a sua maternidade. Feliz da vida com as gêmeas Anna Luísa Pessoa e Olívia Pessoa, de 2 anos, ela conta que começou a fazer todos os exames para monitorar a sua saúde entre os 32 e os 33 anos.


Aos 34, congelou óvulos e, aos 37, conseguiu engravidar. Com 38 anos completos, já casada e estabilizada financeiramente, as suas duas meninas vieram ao mundo.


“Foi um trabalho realmente de planejamento, pois eu estava com miomas, endometriose. Entre os 34 e os 37 anos de idade fiz cirurgias para a retirada de três miomas.


Foi excelente ter realizado o congelamento, justamente porque, na época, eu estava jovem e os óvulos não tinham envelhecido”.


Anna queria ao menos um filho. No entanto, ao conversar com o médico, chegou à conclusão de que poderia fazer a tentativa com dois embriões. Como já tinha passado dos 35 anos, legalmente ela poderia tentar a gravidez em dose dupla. “Eu sabia que pelo menos um grudaria no meu útero e se desenvolveria. Na verdade, quis aumentar as minhas chances e acabei ganhando na loteria. Consegui completar a minha família com uma gestação só”.


A experiência de antecipar as providências para garantir a maternidade, ainda que tardia, foi positiva para a publicitária. Se Anna tivesse esperado mais, a qualidade dos seus embriões poderia não ser tão boa e, talvez, ela não teria o mesmo êxito.


“Esse pensamento no começo dos 30 anos faz muito sentido. A mulherada tem tantos sonhos e não é justo ter que anular um para concretizar o outro. Muitas querem terminar a faculdade, fazer pós-graduação, sair do aluguel, chegar até um determinado ponto da carreira. Eu também desejava ser mãe, mas não dava para isso acontecer aos 20 anos. Queria primeiro conhecer muitos lugares do mundo. Ter filhos era uma das várias caixinhas de sonhos que eu tinha e deu certo”, comemora.


Como acontece


Como tudo na vida, organizar as caixinhas de desejos na escala do tempo requer informações. Quando se trata de maternidade, é preciso ter em mente que após os 37 anos caem bastante as possibilidades de fertilidade feminina. Para Condesmar Marcondes, entre os 30 e os 35 é a idade de ouro para iniciar o processo de congelamento.


Todo esse procedimento é ambulatorial. A paciente toma uma medicação injetável durante dez dias para induzir a ovulação.


“A expectativa é que, com isso, ela fabrique entre dez e 15 óvulos. No dia em que eles estão maduros, são colhidos por via vaginal. Não há cirurgia. Tudo é feito na clínica”.


E para ocorrer a coleta, a mulher é sedada, como numa endoscopia. “Em cerca de dez minutos, nós colhemos os óvulos. A paciente vai para casa e eles ficam guardados em nitrogênio líquido, a uma temperatura de -196°C, por um, dois, cinco, dez ou mais anos”.


Aí, quando chega o momento de engravidar, é feita a fecundação com o sêmen, que pode ser do companheiro ou de um banco de sêmen – no caso de mulheres que decidem pela produção independente. “O médico fertiliza e, por dez dias, prepara a paciente com comprimidos. Depois, devolve o futuro neném para ela, em um procedimento também ambulatorial e simples”, completa Condesmar.


Rede de apoio


A nutricionista Regianne Maltez Vieira, de 38 anos, viveu a sua gravidez programada em plena pandemia, com mais tempo livre para curtir tudo com intensidade máxima. Quando ela chegou à clínica de reprodução assistida, em agosto de 2019, a ideia era fazer o congelamento, já que, até então, não tinha encontrado um parceiro ideal para dividir o projeto de ser mãe. E com o apoio dos pais, com quem ela mora, as coisas mudaram um pouco. Regianne se encheu de coragem e resolveu antecipar a gravidez, recorrendo ao banco de sêmen. Em outubro do mesmo ano, já estava grávida. A pequena Alícia nasceu em julho do ano passado, para a alegria da família inteira.


Sem saber o que lhe reserva o futuro, a nutricionista ainda optou por congelar outro embrião. “Por enquanto, não penso em dar um irmão para a minha filha, mas nunca se sabe como será o amanhã. Hoje, ela tem 9 meses e eu estou plenamente realizada”, afirma.


Para quem pensa em percorrer o mesmo caminho, Regianne lembra que é importante ter uma rede de apoio. “Foi a coisa mais maravilhosa que me aconteceu, mas tenho consciência de que a ajuda familiar tem sido fundamental para isso”.


Estrutura familiar


Existem outras questões a serem refletidas com a evolução das técnicas para postergar a maternidade após os 40 e os 50 anos. Algumas de ordem social, como enfatiza Pedro Monteleone.


Ele traz como exemplo o debate sobre a estrutura familiar do futuro. “A tendência é de haver um aumento no total de crianças que crescerão sem o contato com figuras muito importantes para o seu desenvolvimento: as avós e os avôs. Por isso, vale ponderar todos os fatores ao fazer o planejamento da melhor forma para os pais e para as crianças”, finaliza o médico.