Igor Cosso fala do seu engajamento, após se assumir gay, e do retorno de Salve-se Quem Puder

Ator também se experimenta como diretor e roteirista. Ele lançou série de filmes de terror em inglês para a web

Desde que se mudou de Belo Horizonte (MG) para o Rio de Janeiro, Igor Cosso começou a trilhar um caminho de intensa transformação pessoal e profissional. E o ano passado foi um divisor de águas na vida do ator. Além de brilhar na novela global Salve-se Quem Puder, o mineiro de 29 anos aproveitou o isolamento social para escrever e rodar em casa o seu primeiro roteiro em inglês. Esse curta de terror, chamado The Article, foi desenvolvido para o IGTV e o YouTube e deu tão certo que acabou rendendo mais dois filmes – a terceira parte da história, inclusive, será rodada fora do Brasil.

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O ano de 2020 também foi superespecial para Igor por outro motivo: em junho, ele assumiu que é gay e a repercussão disso não só tornou Igor uma espécie de porta-voz das causas LGBTI+ como mostrou que mais do que nunca deve investir na produção de espetáculos e séries com essa temática.

Na entrevista a seguir, o ator fala, entre outros assuntos, de como foi o retorno das gravações da novela Salve-se Quem Puder, que, em breve, terá os seus novos capítulos exibidos na faixa das 19 horas da TV Tribuna/ Globo.

NOVELA Como foi voltar a gravar Salve-se Quem Puder?

A Globo está sendo extremamente rigorosa nos protocolos adotados, o que deixou todo mundo tranquilo e se sentindo muito seguro. Pois, no primeiro dia de gravação, a gente estava meio assustado e pisando em ovos, por ter de voltar a trabalhar em plena pandemia. Algo que ajudou bastante foi ver que a nossa segurança está em primeiro lugar. Para você ter ideia, as pessoas não podem se aproximar ou se tocar de jeito nenhum dentro da Globo, ninguém que não seja da equipe tem acesso aos locais de gravação. Antes da pandemia, o elenco ficava junto no camarim, passando texto ou conversando. Agora, nos encontramos só no estúdio, ensaiamos com a máscara e a tiramos apenas na hora de rodar a cena. Na sequência, cada um vai direto para o seu camarim, não se pode ficar nas áreas comuns da emissora. É um outro clima, mas todo mundo focou em conseguir terminar a novela. As coisas andaram bem.

Houve muitas mudanças nas estruturas das cenas?

Sim. As tomadas com aglomeração, que são as festas e externas, foram adaptadas para dentro do estúdio, com poucas pessoas. Quanto às cenas com toque de mão ou beijo, a grande maioria acabou sendo modificada, de modo que houve contato físico só em casos de real necessidade. Para fazer as poucas sequências de beijo que sobraram no roteiro, os atores envolvidos tiveram de ficar em quarentena.

A novela vai voltar a ser exibida em breve. Por que houve uma janela tão grande, já que vocês voltaram a gravar em agosto e terminaram tudo em dezembro?

A Globo deu esse espaço de tempo, porque trabalhou com a hipótese de que alguém do elenco, da produção, da direção ou da equipe técnica poderia pegar covid durante as gravações, o que, de fato, ocorreu e acabou impactando no cronograma da segunda temporada da novela – que é como estamos chamando esse retorno, que terá menos capítulos do que o previsto. Eu mesmo contraí o coronavírus e precisei ficar 21 dias afastado.

Antes da pandemia, os atores costumavam aguardar horas até gravar suas cenas. Com a covid-19, essa espera, por acaso, aumentou?

O tempo de espera não aumentou por um motivo: a quantidade de cenas rodadas por dia caiu pela metade, justamente porque demora para cumprir todos os protocolos. Portanto, para o elenco, acabou dando na mesma. Mas preciso dizer que não é à toa que a Globo é referência em teledramaturgia. Impressiona como a produção das novelas é extremamente organizada e se adapta a tudo.

O que vai acontecer com o Junior, seu personagem, nos novos capítulos de Salve-se Quem Puder?

Ele acha que a irmã frequenta as aulas de balé, só que, na verdade, a Bia (Valentina Bulc) faz ginástica escondido. O Junior também nem imagina que ela tem um problema de coração. Apenas posso dizer que esse será o tema central do Junior na segunda temporada da novela.

FAMÍLIA Identifica-se com ele?

O Junior é muito família, ele cuida e se preocupa bastante com a mãe e a irmã. Me identifico demais com isso. Também tenho uma relação muito próxima e forte com a minha família. Eu e a minha irmã, por exemplo, somos grudados.

Foi difícil deixar a família em Belo Horizonte para trabalhar no Rio?

Demais! Na época, eu estava com 17 para 18 anos, não tinha entrado na faculdade de Economia e já fazia teatro em BH. Certo dia, vi o anúncio de curso de dramaturgia de um mês no Rio e me inscrevi. Quando cheguei na cidade, descobri que era a maior furada e resolvi que ia voltar no dia seguinte para Belo Horizonte. Mas, antes, fui visitar o curso da Casa de Cultura Laura Alvim, por indicação de um ator que conheci por meio de um amigo, e me apaixonei. Foi lá que fiz os meus melhores amigos e onde consegui a oportunidade de participar de Malhação, em 2011, quando um produtor de elenco foi acompanhar as aulas. Meus pais sofreram com a distância até mais do que eu. Fui o primeiro filho a sair de casa. Meu pai quase entrou em depressão. Durante um ano, ele ia toda noite para o meu quarto, chorava e ficava sem dormir, de tão preocupado que estava comigo.

TRAJETÓRIA O trabalho em Malhação fez toda a diferença na sua carreira, não é mesmo?

Sem dúvida. Eu gravei por uma semana e, a princípio, ia ser apenas isso. Só que, 15 dias depois, recebi ligação dizendo que o meu trabalho havia tido uma aprovação muito boa e que meu personagem ia continuar na trama, até o final da temporada. Foi o meu primeiro emprego de carteira assinada, aprendi demais.

Com o tempo, você também começou a se experimentar como produtor e roteirista. O que despertou essa vontade?

Após fazer Malhação, entendi que deveria investir na minha formação e fui cursar a faculdade de Teatro. Nas aulas, a gente era estimulado a escrever os próprios espetáculos. Comecei a participar de festivais de esquetes do País inteiro com os meus textos. Em 2013, ganhei um festival importante do Rio. Isso serviu como estímulo para buscar um curso de roteiro, para me aperfeiçoar. Aí, como a Lua Blanco tinha acabado de sair da novela Rebelde e estava com um público enorme, a convidei para fazer um espetáculo que eu ia escrever e produzir. Rodamos o Brasil em turnê com a peça Primeiro Sinal. Depois escrevi outro espetáculo – A Ponte Golden Gate – que encenei no Rio e com o qual ganhei prêmio. De um tempo para cá, comecei a escrever e produzir mais para o audiovisual e para o YouTube.

O que está achando da experiência?

Na quarentena, escrevi o meu primeiro roteiro em inglês, do curta de terror The Article, que rodei em casa. E como um dos cursos que fiz foi em Los Angeles (EUA, em 2017), resolvi convidar amigos atores que tenho por lá para participar do projeto, a distância. O The Article está no IGTV e YouTube. O retorno dele foi surpreendente, tanto que eu, que amo filme de terror, fiz e liberei o The Article 2 na sequência. Já concluí o roteiro do The Article 3, mas estou esperando um pouco para viabilizá-lo. Tudo depende de como a pandemia vai ficar, pois pretendo filmar fora do Brasil. Eu acredito muito que o ator tem que ser um empreendedor. No ano passado, aliás, iniciei a faculdade de Administração, para me capacitar ainda mais nesse sentido. Tenho bastante vontade de produzir obras com temática LGBTI+, para ajudar a naturalizar o amor que eu sinto por outro homem. Acho que a dramaturgia é pouco explorada no Instagram, quero investir nisso. Estou preparando série para o IGTV sobre os apps de encontro LGBTI+.

PRECONCEITO No começo da pandemia, você assumiu que é gay. Foi algo planejado?

Isso foi resultado de mais de dez anos de amadurecimento pessoal. Quando me mudei para o Rio aos 17 anos, tive os meus primeiros relacionamentos com outros caras e as coisas fluíram de forma muito natural. Nunca fui de me limitar. Mas, quando comecei na televisão, entendi que devia esconder isso, por ver que outros atores gays não se assumiam por medo de ficar sem trabalho. Com o tempo, pus na balança o que era mais importante para mim e notei que sentia falta de levar uma vida plena, sendo verdadeiramente eu nas redes sociais e em qualquer lugar em que estivesse. Antes, eu escondia os meus namorados, não os levava para eventos de novela ou trabalho. Também me sentia desconfortável por ter de responder, a jornalistas, qual o tipo de mulher que curtia. No ano passado, no início de Salve-se Quem Puder, decidi que, em algum momento, tornaria público que sou gay. Só que isso aconteceu de uma maneira que eu não esperava. Em junho, postei no Instagram imagem de uma obra de arte de dois homens se beijando, em homenagem ao Mês do Orgulho LGBTI+, e as pessoas acharam que era uma foto minha. Teve gente que me xingou, que falou que aquilo era nojento. Como comecei a perder um monte de seguidores, resolvi publicar uma foto minha, com meu namorado (o advogado Heron Leal).

Qual foi a resposta a essa imagem?

Foi incrível como algumas pessoas passaram a me seguir, formando uma corrente de carinho e apoio. Em 24 horas, ganhei mais de 100 mil seguidores, sendo que havia perdido cerca de 4 mil. Além disso, ainda não tinha conversado sobre o assunto com a minha avó e ela falou coisas lindas. Também virei uma espécie de confidente, recebi milhares de mensagens de gente com medo de se assumir.

Você e o Heron estão juntos há quanto tempo?

Vamos fazer dois anos. Eu nunca o escondi totalmente. No Instagram, postava algumas fotos nossas, principalmente das viagens que fizemos, só que não dizia quem ele era. Depois que abri que sou gay, pensei: “Por que não fiz isso antes? Tudo ficou tão mais fácil, tranquilo e bom!” O curioso é que, no dia em que publiquei as fatídicas fotos, o Heron estava com a família em um lugar em que o celular não pegava e, quando o sinal do telefone voltou, à meia-noite, tudo já havia ocorrido e a cara dele estava estampada nos sites de notícia. Foi uma loucura para o Heron, acabei o expondo demais. Mas ele vem lidando muito bem com isso. Aliás, o Heron dança desde novo e os vídeos dele tiveram repercussão enorme. Acabou sendo algo positivo para todo mundo. É o que disse na minha participação no TEDx: na vida, a gente apenas muda as coisas tendo um ato de coragem, e eu tive o meu.

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