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Sexta-feira

5 de Junho de 2020

Falta de atividades ou estímulos necessários podem prejudicar os pets

Tristeza profunda, que se parece com a depressão humana, é um sinal de alerta para tutores que se preocupam com seus bichinhos: está na hora de avaliar o ambiente em que eles vivem

É verdade. Seu bichinho de estimação pode ficar tão triste que parece estar com depressão. Mas o que o deixa assim é diferente do gatilho da doença em humanos, relacionado geralmente com muitos pensamentos aleatórios e tarefas. O pet fica assim exatamente por falta de atividades ou estímulos inadequados oferecidos. Vale a pena prestar mais atenção ao que ele gosta de fazer e não ao que as tendências apontam sobre brinquedos, atividades e outras situações.  

Luiza Cervenka, bióloga e veterinária especialista em comportamento animal, explica por que a depressão propriamente dita não pode ser diagnosticada nos animais. “Ela é uma doença multifatorial. No ser humano, a primeira coisa que se percebe é quando ele faz um discurso sobre si. Ele entende quem ele é e acredita que não está no local em que gostaria, ou não é alguém que gostaria, ou que gostaria de uma vida diferente da que está vivendo. Precisa ter uma noção de passado, de presente e de futuro. Isso não existe nos animais”.  

Quando se fala em depressão nos pets, é mais sobre o processo químico da coisa toda. “Ela se reflete em baixa de serotonina, que é o hormônio do bem-estar, de dopamina, neurotransmissor do prazer, e em alta de cortisol, o hormônio do estresse. A gente estabelece que o animal tem um estado de tristeza profunda. E, diferentemente do ser humano, que precisa corrigir esse deficit químico com remédios e terapia para os pets. Além dos remédios, tem algo muito importante: o enriquecimento ambiental”.  

E o que é isso? “É oferecer ferramentas para que esse animal possa exibir seus comportamentos naturais. Apesar de estarem dentro de casa, os pets continuam sendo cães, gatos, aves, roedores... É importante que a gente tenha o conhecimento e a consciência de que eles são de outras espécies com outras necessidades, para que a gente possa oferecer um ambiente adequado para eles”, alerta Luiza.  

Motivos

 As causas da tristeza profunda nos pets geralmente estão ligadas com mudanças bruscas na rotina: viagem ou morte do tutor ou até de outro animal com quem ele se relacionava, separação de um casal. Introdução de um novo membro na família (pet ou o nascimento de uma criança) também pode ser um gatilho.  

Entre os principais sinais estão inapetência e prostração. “O perigo de falar desses sintomas é que também estão relacionados com muitas outras doenças. Qualquer cachorro que estiver com dor vai diminuir a ingestão de alimento e água, ficará mais apático. A primeira coisa a fazer, quando perceber qualquer comportamento diferente, é leva-lo ao veterinário, para checar como está o animal clinicamente. Se todos os parâmetros estiverem normais, aí avalia-se a questão comportamental”, ressalta Luiza Cervenka.  

Felipe Chinen Gushi, veterinário especialista em acupuntura e fitoterapia, também coloca nesse conjunto de comportamentos isolamento, quando o animal evita contato físico, e automutilação de extremidades (patas e rabo). “O diagnóstico é feito pelo histórico que o tutor conta, o que fornece ao veterinário as ferramentas certas. Não há necessidade de exames específicos, mas é preciso o diagnóstico feito por um médico-veterinário, porque são sintomas bem variados”.  

Às vezes, a mudança de casa pode desencadear o problema. “O que parece simples para nós não é tão simples para o pet. As mudanças sempre causam desconforto ao animal, que já estava ambientado ao local em que vivia. Sair da zona de conforto pode causar medo aos bichinhos e uma série de doenças, inclusive ansiedade e depressão”, revela Luana Sartori, veterinária responsável pela Monello Select.  

O tratamento varia desde a mudança na forma de cuidar do pet, passando por terapias integrativas (acupuntura, reiki, florais de bach) até o uso de medicamentos antidepressivos. 

O que fazer

Esteja presente de verdade. O tutor precisa sempre estar atento ao comportamento do seu pet e dar carinho ao animal. Mostrar que se importa.  

Bora passear. Faça caminhadas. Passeios e a socialização podem diminuir os níveis de cortisol. O protocolo não é igual para todos os animais, deve ser individualizado.  

 Hora da brincadeira. Brinque mais (tanto cães quanto gatos gostam e necessitam disso). O estímulo deve ser feito assim que o pet nasce. 

Mas não é um brinquedo de que você goste ou ache fofinho. Precisa ser interessante para o pet. Enriqueça o ambiente para que o animal tenha atividade suficiente, de acordo com sua necessidade. Gatos, por exemplo, precisam de lugares para se esconder ou subir.  

Deixe tudo limpo. O ambiente em que o animal vive deve ser limpo diariamente e, claro, protegido da chuva. É importante que os bichinhos aproveitem o sol, mas com cuidado para evitar o câncer de pele, especialmente nos gatinhos brancos.  

 Um reforço e tanto. O veterinário pode entrar com o que chamamos de nutracêuticos, que são bases, como ômega 3, ômega 6, melatonina. Afinal, elas podem facilitar a criação de serotonina e dopamina pelo próprio corpo. Hoje, não existem serotonina e dopamina prontas.  

Caça ao tesouro. Não ofereça o alimento no pote. O bichinho gosta de procurar o alimento, caçar a sua comida. Pode ser dentro de garrafa PET, dentro de rolo de papel higiênico, em caixas, comedouros lentos, brinquedos que soltam a ração aos poucos. Hoje, existe uma infinidade de possibilidades. Introduza coisas que sejam de interesse do animal, estímulos que facilitem a execução de comportamentos naturais. Pesquise sobre o seu pet. 

Que cheiro bom! Enriqueça a vida do pet com estímulos olfativos. Passeios onde ele possa se comunicar com os outros cães, não necessariamente encontrando-os, mas com cheiros que ele identifique, como de urina de outros animais nas calçadas... No caso de gatos que não saem de casa, você pode trazer um pano com o cheiro de outro animal, graminha, hortaliças. Vale lembrar que o olfato é o principal sentido deles 

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