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Sexta-feira

18 de Outubro de 2019

Especialista em PNL aponta crenças limitantes para a felicidade e o sucesso

A psicanalista Ciça Jorge indica táticas para você ser mais feliz e bem-sucedido

Muitas vezes, somos os nossos piores inimigos, pois, antes de alguém duvidar do nosso potencial, somos os primeiros a questionar isso e acabamos limitando o que temos capacidade de fazer ou não. Responsável pelo núcleo do Litoral Paulista do Instituto Nacional de Excelência Humana (INEXH), a psicanalista e master practitioner – maior graduação em Programação Neurolinguística (PNL) – Ciça Jorge mostra, a seguir, como ter um maior autoconhecimento faz diferença nas nossas vidas. No bate-papo, ela fala de outras pegadinhas que existem no processo de se tornar uma pessoa melhor e das falhas comuns na hora de liderar uma equipe. Ainda ensina como encarar o desemprego de um modo menos doloroso e mais produtivo.

FOCO

O que é fundamental na Programação Neurolinguística?

A PNL é uma ferramenta que ajuda a melhorar a comunicação e o relacionamento com você mesmo e com os outros. Por exemplo, normalmente a gente fala tudo o que não deseja: não quero chegar tarde em determinado lugar, não quero engordar etc. Mas não expressa qual é exatamente a nossa vontade. Se eu digo para você: não pense no elefante rosa de bolinhas azuis. O que acontece? Você vai pensar no elefante. Então, o ideal é falar o que se deseja de fato: quero chegar cedo em tal lugar, quero emagrecer e assim por diante. Pois, se dizemos o que é positivo, já estamos nos programando para que aquilo ocorra e gastamos menos energia.

Que outra atitude nos ajuda a ter sucesso?

A gente sempre pode aprender com quem é bem-sucedido no relacionamento, na carreira, na vida. Se levamos em conta o que a pessoa faz para ter resultados bacanas, quais são as crenças, os pensamentos e as atitudes dela, podemos nos programar com base nisso para obtermos bom desempenho. Imagine que, na sua empresa, há um vendedor top. Você tem duas opções: pode ficar com raiva e inveja daquele colega ou sentar com ele e conversar para entender o que dá para aprender com as ações dele para melhorar o seu rendimento. Também costumo atender atletas e o raciocínio é igual. Se você faz o mesmo que alguém de excelência, a tendência é alcançar bons resultados.

Como é esse seu trabalho com esportistas?

Todo atleta tem que desenvolver a sua parte emocional, porque é algo que vai diferenciá-lo dos demais. Não adianta o esportista ser perfeito tecnicamente e ter um comportamento explosivo, agressivo. Se ele não usar a sua energia de forma correta, não estiver equilibrado emocionalmente e não acreditar nele mesmo, pode explodir em campo, em quadra ou durante uma entrevista.

Que atleta é um bom exemplo nesse sentido?

O Ayrton Senna trabalhava muito a parte mental e emocional com PNL. O Bernardinho é outro baita exemplo. Ele foi um dos técnicos brasileiros pioneiros a utilizar a Programação Neurolinguística. Certa vez, num torneio internacional, a seleção de vôlei chegou perto do jogo e não teve tempo suficiente para fazer um treino físico. O Bernardinho, então, passou um treino mental: todos fecharam os olhos e visualizaram o que fariam na partida. Isso é fantástico para qualquer atleta.

Os esportistas lidam bastante com a superação de limites. O que podemos aprender com eles?

Os limites geralmente estão na nossa cabeça; na maioria das vezes, somos nós que os criamos. Veja o meu caso. Sou maratonista e pratico crossfit. Posso dizer para mim mesma que não consigo pegar muito peso, sem nem tentar ou me preparar para aquilo, e vou acabar acreditando nesse suposto limite. O nosso diálogo interno faz toda a diferença no dia a dia. Dentro de nós, há sempre aquela voz que fica falando coisas boas e outra que diz que não somos capazes de algo, que aquilo não vai dar certo. Se controlamos essa conversa interior e ouvimos o nosso lado mais positivo, isso contribui para um bom desempenho. Para ajudar, ainda tem gente que acha: eu nasci assim, vou morrer assim. Vamos adquirindo comportamentos com o tempo, a partir dos significados que damos para os fatos que vivemos, o que gera emoções de tristeza, alegria, rancor etc. E em cima disso, construímos nossas crenças do que somos capazes ou não. Tem quem ache que não merece receber carinho, um bom salário... Só que podemos mudar esse nosso sistema de crenças, os significados que atribuímos para as coisas, a maneira como encaramos as situações e nos tornarmos seres humanos melhores.

FLEXIBILIDADE

Essas são as chamadas crenças limitantes?

Exatamente. Há gente que, após dois, três namoros ruins, começa a pensar que tem dedo podre e cria filtros para repetir o padrão de se envolver com pessoas que não são legais. Ou ainda: por ter sido traído ou ter parentes que sofreram por causa da infidelidade do parceiro, generaliza aquele contexto e passa a achar que nenhum homem ou que nenhuma mulher presta. Uma crença limitante comum é a de que dinheiro é sujo. O simples fato de falar para a criança lavar as mãos depois de mexer em cédulas e moedas fica no inconsciente e, no futuro, pode fazer com que ela se transforme em alguém que se limita a ganhar pouco dinheiro, apenas o suficiente, afinal, lá no fundo, considera dinheiro algo sujo. Também sugiro refletir sobre como nossos pais lidam com as finanças, os seus relacionamentos etc. Porque, normalmente, ou a gente imita o padrão comportamental deles, ou faz o oposto, com a justificativa, em alguns casos, de que quer uma vida diferente. 

Que outro tipo de crença limitante é recorrente?

Acreditar que, porque vários familiares morreram de câncer, o mesmo vai acontecer com você. Tem mais: às vezes, pode haver um fundo psicológico na alergia. Tanto é que, se fizermos a experiência de pedir para a pessoa fechar os olhos e imaginar que está numa casa há muito tempo fechada e cheia de pó, ela vai começar a sentir o nariz coçar e tossir. Ao ampliar seu autoconhecimento, você tem como fazer mudanças no seu comportamento. Todos nós possuímos pontos fracos e fortes. Há duas maneiras de evoluirmos: destacarmos o que temos de melhor e eliminarmos os nossos pontos fracos.

Mas tem gente que tenta mudar e desiste logo na primeira dificuldade ou no primeiro resultado negativo.

É muito mais fácil desistir, concorda? Basta ver que todo mundo quer emagrecer, mas nem todo mundo quer fazer atividade física ou dieta. O que ocorre em um monte de situações? A pessoa se matricula na academia, vai por uma semana, depois não vai mais. Ou fica dizendo que vai começar um regime na próxima segunda-feira e fica adiando aquilo indefinidamente, por causa de festinhas etc. Em qualquer coisa na vida, se você não tem um objetivo bem formulado, um propósito firme, o padrão comportamental, na maioria dos casos, é parar no meio do caminho.

Sem falar que algumas pessoas repetem a mesma atitude esperando resultados diferentes.

Isso é tão comum! É fato: se você quer um resultado diferente, precisa fazer algo diferente, ter flexibilidade nas ações. E se você vai por um caminho e aquilo não dá certo, não desista, tente outro caminho e quantos mais forem necessários para alcançar o seu objetivo. Aliás, essa é uma das características das pessoas de sucesso. Algo que acho muito bacana é caminhar sozinho, tirar um momento para ficar apenas com você e cuidar um pouquinho de si.

Qual é o reflexo disso?

Imagine que você tem um obstáculo, um problema e não consegue resolvê-lo. Se ficar martelando aquilo sem parar, talvez não enxergue alternativas naquela hora. Mas, se der uma saída para relaxar ou caminhar e ficar sem pensar na situação, de repente surge uma estratégia na cabeça. É o nosso inconsciente em ação.

CARREIRA O desemprego atinge uma parcela significativa da população. Como as pessoas devem encarar tal situação?

Essa também é uma questão de crença. Tem gente que acha que o seu mundo acabou porque perdeu o emprego ou que é culpa do governo, do chefe, da empresa, da economia brasileira e fica aguardando que algo ocorra para modificar aquilo. Não podemos esquecer que há pessoas que crescem durante a crise, pois elas não ficam paradas e não ficam colocando a culpa no outro ou em algo. Ainda existem profissionais que dizem que não vão se sujeitar a aceitar cargo inferior ao que ocupava antes, mesmo passando por necessidades. Qual é o problema de começar do zero de novo? O importante é voltar ao mercado, pois, se você tem capacidade, é uma questão de tempo até crescer de novo.

Quais são as falhas mais comuns quando falamos de liderança?

Uma delas é a pessoa não querer servir o outro. O bom líder é aquele que sabe lidar com conflitos e que procura, primeiro, conhecer a si mesmo, porque só assim vai conseguir enxergar problemas e ações desalinhadas nos membros da equipe. E é preciso, no mínimo, respeitar o outro quando ele pensa diferente da gente, para melhorar o relacionamento. Se, um dia, alguém chega meio quieto, que tal perguntar se aconteceu algo, se a pessoa precisa de ajuda? É muito bacana conhecer melhor os colaboradores, pois, para vários líderes, falta a parte humana, cuidar de quem trabalha com ele. Se alguém, de repente, não está feliz na função que exerce, não existe outro cargo com o qual se identifique mais? Afinal, apenas fazemos algo com excelência se gostamos daquilo.

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