Dor nas costas, causas e o que fazer: É possível aliviar as lombalgias e evitar remédios

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população mundial sentiu ou sentirá desconfortos na região lombar ou na cervical pelo menos em algum momento da vida

Atire o primeiro analgésico quem nunca teve dores nas costas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população mundial sentiu ou sentirá desconfortos na região lombar ou na cervical pelo menos em algum momento da vida.

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No Brasil, as lombalgias são a segunda maior causa de visitas de pacientes aos consultórios médicos, perdendo apenas para a dor de cabeça. No mundo do trabalho, os dados são ainda mais preocupantes. Trata-se do principal motivo de afastamento médico entre funcionários, de acordo com estudo da empresa Gesto, especializada em corretagem de planos de saúde.

O levantamento, que leva em conta a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e o Anuário Estatístico da Previdência Social, aponta que 11,5% dos atestados médicos analisados citavam dores nas costas, no ano de 2018.

A tendência é o cenário piorar. Além do aumento da expectativa de vida a cada ano e das transformações tecnológicas da vida moderna, impactarão nas próximas estatísticas sobre lombalgias os efeitos da crise sanitária no dia a dia.

“A luta contra a Covid-19 provocou maior distanciamento social e, infelizmente, estimulou ainda mais o sedentarismo”, avalia o

presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), Alexandre Fogaça.

O ortopedista e traumatologista Felipe de Moraes Pomar também sente o maior ritmo na prevalência de problemas nas costas não ocasionados por traumas, mas, sim, por hábitos, posturas e atividades laborais inadequadas. “Entendo que a pandemia restringiu a prática de atividades físicas para muitos e aprofundou o imobilismo para quem já era sedentário”, explica o especialista em cirurgia da coluna vertebral e membro da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC).

Além disso, muitos profissionais passaram a trabalhar em sistema de home office, de forma adaptada e sem as condições ergonômicas ideais.

Distantes das escolas, crianças e adolescentes que já faziam menos atividades ao ar livre do que as gerações anteriores se viram ainda mais entretidos em celulares, tablets, computadores e videogames. O ensino híbrido tem tudo para reforçar uma educação ainda mais mediada pelas telas .

Serão os jovens de hoje os adultos com colunas travadas de amanhã? Depende das escolhas de estilo de vida, responde a educadora física Karina Atanes. “Uma coisa é certa, o ser humano não foi feito para ficar muito tempo imóvel. Precisamos do movimento, do alongamento, do trabalho de flexibilidade e de fortalecimento muscular, em especial na região abdominal, que dá toda a sustentação para a coluna”, diz a professora de pilates.

Para o ortopedista Felipe Pomar, não tem meio termo: quem quer evitar dor e problemas mais sérios na região das costas precisa encarar alguns grupos de exercícios como um compromisso ao longo de toda a vida. Ele se refere a atividades para a parte músculo esquelética que ninguém gosta muito de fazer. “Musculação com aparelhos, exercícios funcionais e pilates são exemplos. Mas precisam ser feitos com constância e regularidade, além de acompanhamento profissional. Fazer a atividade física preferida focando só no lazer e na perda de peso é importante, mas só isso não basta para se livrar das lombalgias e demais dores irradiadas, chamadas vulgarmente de dores ciáticas”, complementa.

O processo é justamente o inverso. Exatamente para poder fazer o que se gosta com qualidade, segurança e por muitos anos, é necessário cuidar bem dos músculos que protegem todo o complexo cervical desde cedo.

“Tudo bem não abrir mão daquele futebol de fim de semana, da aula de dança, do surfe ou da corrida. Só entenda: a boa execução de todas estas modalidades também depende da atenção dada ao fortalecimento muscular. E importante frisar que quanto mais avançada a idade, maior a importância de trabalhar regularmente os músculos”, diz Pomar.

O corretor de seguros Flávio Cheida Mota aprendeu a lição a duras penas. Prestes a completar 70 anos ele recomeçou a treinar três vezes por semana com o personal trainer Pablo Campos. A programação de exercícios tem objetivo de fortalecer toda a base muscular ligada à coluna.

Os problemas e dores crônicas que o atormentavam por décadas acabaram. “Em oito meses de prática, posso dizer que sou um outro homem”, resume Mota.

Ele relata que a cada cinco anos recebia na coluna injeções de potentes analgésicos, aplicadas em procedimentos cirúrgicos. “Não preciso mais delas. Até cometi uma ousadia: comprei uma bicicleta e agora dou minhas pedaladas, coisa que adoro. Ganhei qualidade de vida e vi que trabalhar os músculos é divertido. A gente fica cada vez mais satisfeito com o resultado”.

Outro exemplo de sucesso na batalha contra o sofrimento físico nas costas é a história da auxiliar de cozinha Alessandra Bertolete Marques. Trinta anos mais jovem do que Flávio, ela perdeu as contas de quantas vezes ficou com a coluna travada.

A profissão exige ficar em pé por um tempo considerável, todos os dias. O jeito foi contra-atacar com uma combinação de pilates e exercícios de força cinco vezes por semana. A educadora física Karina personalizou as aulas e diversificou o cenário dos treinos. “Praticamos em casa, na piscina e ao ar livre. Além de nunca mais ter dor, estou comendo e dormindo muito melhor”, diz Alessandra.

Diagnóstico

Alexandre Fogaça alerta para a importância do diagnóstico correto. Nem sempre as crises têm origens ortopédicas, mas o profissional da ortopedia está preparado para identificar possíveis causas, por meio de exclusões.

A análise é feita com avaliações clínicas, como palpação e manobras físicas, complementadas por exames como Raio X e ressonância. “A história do paciente também é importante. Descartadas possíveis fraturas, problemas ósseos ou inflamações e lesões musculares, o próximo passo é ampliar a investigação”.

Quando surgem hipóteses e indicações para consultas com outros especialistas, os ortopedistas chamam o diagnóstico de “diferencial”. “Muitas vezes a região lombar sente reflexos de problemas ginecológicos ou urológicos. Problemas renais, infamações nas vias urinárias, endometriose, enfermidades intestinais e patologias intra-abdominais podem simular um problema músculo esquelético e confundir o paciente”, explica o médico Felipe Pomar.

Ainda é tempo de mudar o estilo de vida para não virar refém dos anti-inflamatórios e analgésicos. Veja as dicas dos especialistas:

1. Evite posições viciosas no trabalho e em casa. Nada de cadeiras inadequadas. É preciso garantir encosto para coluna e manter os pés no chão, com joelhos em ângulo de 90 graus. Cuidado com a altura da mesa. Os cotovelos tem que estar na altura do teclado do computador.

2. Mantenha-se em atividade física, no mínimo três vezes por semana, mesclando fortalecimento muscular constante e bem orientado com outros exercícios de sua preferência. Lembre: é mais importante ter músculos saudáveis do que ter peso e medidas determinadas pelos padrões estéticos.

3. Ao tentar perder peso, faça de forma gradual para não perder massa muscular. O mais importante não é o que diz a balança e, sim, a proporção entre massa magra e gordura.

4. Ao ter dor, relate ao ortopedista se há antecedentes de fatores psicológicos e laborais estressantes ou, ainda, se existe antecedente de lesão mecânica ou história de trauma (com ou sem fratura). Em todos estes casos orientações específicas e mudanças de hábitos serão prescritas pelo profissional.

5. Em crises agudas procure um serviço de pronto-atendimento e não espere a consulta com o ortopedista.

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