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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

Depois do câncer de mama, Gilze Francisco ajuda mulheres com a mesma doença

Hoje, ela tem como missão cuidar no Instituto Neo Mama. O principal remédio é o amor

Gilze Francisco é responsável pelo Instituto Neo Mama, que já atendeu mais de 3 mil mulheres (Vanessa Rodrigues/AT)

Essa não foi a primeira vez que entrevistei Gilze Francisco, responsável pelo Instituto Neo Mama, de Santos, onde mais de 3 mil mulheres com câncer de mama já passaram em busca de ajuda. Mas dessa vez foi bem diferente: na primeira entrevista eu ainda não tinha tido câncer de mama (fui diagnosticada há 10 anos). A conversa fluiu diferente. “É tão legal ser entrevistada por quem sabe o que eu passei. Eu falo as coisas e você me entende (risos)”, disse ela. E no primeiro bate-papo, Gilze, que é enfermeira, me falou uma frase que lembrei no momento do meu diagnóstico. “Descobrir um câncer é como estar à beira de um precipício. Ou você se ‘estabaca’ no chão, ou aprende a voar”. E ela voou. Hoje ajuda mulheres em tratamento a sentir menos dor e fazer parte de uma grande família. “Aqui (no instituto) elas são recebidas por outras que tiveram a mesma doença, perderam a mama, os cabelos. Vomitaram, pensaram que iam morrer. Esse acolhimento tem uma carga muito diferente que qualquer atendimento médico de ponta. A gente se reconhece uma na outra. Como eu com você”.

COMEÇO Como nasceu o Neo Mama?

Ele nasceu na minha cabeça, quando eu ainda sofria com o tratamento da doença, há 20 anos. Em um dos dias mais difíceis, quando meu marido me perguntou o que eu queria, respondi que queria que mulher nenhuma sofresse daquele jeito de novo.

E, se sobrevivesse, ia ajudar quem eu pudesse. Este ano o instituto faz 18 anos de fundação e já atendeu mais de 3 mil mulheres como a gente. Aqui oferecemos fisioterapia, RPG, drenagem linfática, cinesioterapia, orientação jurídica, nutricional, ajuda para sexualidade, dança circular. Atendemos maridos e filhos também.

Como são essas mulheres?

99,9% das mulheres que vêm aqui com diagnóstico de câncer de mama não sabem dizer “não”. Você pode até dizer “sim” xingando, mas ainda está dizendo “sim”. É uma coisa que não é característica feminina. É da mulher que teve câncer de mama. Ela tem um perfil muito bem definido. É cuidadora, preocupada, aparentemente desencanada, que carrega o problema dos outros nas costas e tenta fazer disso algo leve, ou é extremamente instrospectiva, que se fecha para vida e ainda carrega esses mesmos problemas dos outros. É controladora, no sentido de resolver as coisas. Parece assim: ‘me dá que eu consigo. A dor é tua? Divide comigo que vai ficar mais leve, com certeza’. E a gente não percebe o quanto que isso sobrecarrega. Nós temos um lixo mental e a lixeira não é limpa todos os dias. Você só começa a perceber isso quando ela está transbordando. E aí você tem crises de choro, uma tristeza que não sabe de onde vem. Quando a gente começa a conversar com mulheres que, como nós, tiveram o câncer de mama, começa a perceber tanta coisa em comum... 

E não é só mental...

Não! Não é dizer que ela é depressiva. É uma lacuna da alma. É um reflexo do que a gente passou antes do câncer e durante o tratamento. Tem um start. Quando você pensa lá atrás, 10, 15 anos antes da doença, percebe o quanto aceitou coisas que não eram para serem aceitas. Aceitou pessoas na sua vida que não eram para estar com você, e começou a dizer “sim” para situações que, normalmente, você diria “não”. Isso aparece em todos os casos.

FORTE O emocional está associado à doença?

O componente emocional está sempre presente no diagnóstico. Isso só não é mais reconhecido porque, apesar de ter alguns estudos, ainda falta mais aprofundamento. Também acho que o mais complicado nesse sentido talvez seja atribuir mais uma culpa à mulher doente. O fato é que, se você tem uma propensão a ter câncer de mama, ele vai aparecer um dia. Se não aparecer, é porque você morreu antes. O que vai ativá-lo, efetivamente, ainda é um mistério. Eu realmente acredito que o câncer, para a maioria de nós sobreviventes, vem para mudar a vida da gente. 

Como assim?

É uma grande chance, um ponto de mutação mesmo. Para avisar que você tem que fazer alguma coisa por você, não mais pelos outros. Pare de fazer tanto pelos outros, mas faça por você. Não admita que alguém te invada e roube você de você mesma. O que acontece é que, se você foi tão permissiva e agora dá atenção às suas necessidades, o outro fica incomodado. É a intolerância com o mínimo. O mínimo que as pessoas transformam no máximo. Geralmente, ficamos intolerantes com aqueles que exageram reações. É normal acontecer isso. Você sabe o que é sentir dor de verdade. 

Só tem câncer quem pode?

O câncer só acontece para quem pode segurar o tranco. Não é toda mulher que aguentaria. Nesse sentido, acho que só tem câncer quem pode realmente. Quem tem câncer é uma pessoa forte. Ela também pode fazer mimimi, mas ela é forte. Ela é aquela que segura a barra, que pode até se mostrar frágil, mas aguentando.

DIAGNÓSTICO Como você descobriu o câncer?

Há 20 anos senti um caroço na mama, num domingo à noite. Até hoje tenho problema com domingos à noite, fico imprestável (risos). Eu sei das datas das quimioterapias e cirurgias. Naquela época, ninguém falava que tinha câncer. Quando eu falei, foi um auê, porque eu cuidava de todo mundo, todo mundo corria pra mim. A enfermeira da família. Sentei e expliquei para a minha filha de 11 anos o que ia acontecer. Meu caso era grave: mastectomia total, axilas 100% positivas. Não era hormonal, minha obesidade não tinha nada a ver com isso. Caso nenhum na família. Só não morri porque Deus me marcou pra ficar aqui, de alguma maneira (risos).

Talvez um prêmio para cuidar da vida de tantas outras mulheres?

Eu acho que sim. O que eu achava na internet era “sobrevida de cinco anos”. Eu tirava da tela e buscava mais. Eu ficava extremamente irritada. E pensei: qualquer mulher como eu, diagnosticada, que buscar informação, vai se aborrecer. Pedi para o meu marido montar um site, se eu saísse dessa. 

RECUPERAÇÃO Quando você percebeu que estava bem?

O câncer te dá uma rasteira, que você demora anos para se levantar. A verdade é que não ficamos bem quando o cabelo começa a crescer. As pessoas não imaginam os detalhes. Eu vivi aquele sofrimento intensamente, chorava que parecia que ia desidratar. Eu tinha pena de mim. É um tratamento muito envolvido em detalhes. Você acha que está tudo bem e, de repente, algo faz você reviver tudo aquilo. A gente se recupera, mas não esquece.

E as pessoas ao redor?

Algumas menosprezavam o que eu sentia, porque eu sempre fui muito engraçada, divertida. Desde pequena era a palhaça da turma e continuei assim quando cresci.

No hospital, imitava os médicos, bagunçava com todos. Mas eu fiquei bem mal na época do câncer. E, por ser assim, extrovertida, ouvi coisas injustas, coisas que você não diria nunca para alguém, mas você ouve. “Ai, você tem que ser forte, levar com leveza”. Não, eu tenho que me permitir ser frágil. Preciso de ajuda. Nem todo mundo percebe. A gente perde o pudor, tira a roupa no consultório, mostra cicatriz. A vida se sobrepõe a tudo isso. Transcendi toda a dor para valorizar a vida. Não é um passo largo. É alto. Às vezes você acha que não tem perna, mas tem. 

E quando acaba o tratamento?

Você acha que vai acontecer algo ruim. Tinha tanta gente em cima de mim e, de repente, você fica solta. Não me sentia liberta do tratamento. Me sentia ameaçada sem ele. Fica um fantasma. Uma sombra dupla para o resto da vida. O Dr. Vicente (Tarricone, mastologista) me falava: “Gilze, o pior do câncer está entre as orelhas. Cuida”. Morro de medo de quem acha que está curada logo depois da cirurgia. Não é assim. Queríamos nós que a conta fosse fácil assim, não é? Mas não é.

RECIPROCIDADE Como funciona o atendimento no instituto?

Aqui no Neo Mama todas sabem o que a outra está passando, o que está sentindo. A conversa flui diferente. A mulher chora pela perda da mama e quem a atende fala: “Eu também não tenho, olha. Estou viva”. É de igual para igual. Eu vejo mulheres que chegam, que estão com sintomas há tanto tempo... Eu me considero uma sortuda. A família, em geral, nem sabe. A pessoa esconde, por vergonha. Algumas mulheres são invisíveis até para a família. Todo mundo quer a comida dela, mas ninguém quer saber quanto tempo ela ficou com a barriga no fogão. Muitas chegam revoltadas pela doação. E chegam sozinhas. Maridos abandonam. Não conseguem lidar com a doença da mulher. Eu falo: “Sua mama dá pra reconstruir, o cérebro dele, não. Levanta a mão pro céu que é livramento”. 

Ela sente que a vida a traiu?

Sim, se sente traída em vários aspectos. Eu, por exemplo, nunca tive grandes ambições. Queria o básico para a minha vida: amor, dinheiro para pagar as contas, saúde. Sempre pensei pequeno, na realidade. E, de repente, lá está o câncer de mama, me roubando tudo. Ele descaracteriza a gente. A gente não se reconhece. O quevai ser de mim no futuro? É muito difícil a aceitação.

Como você sente quando uma dessas mulheres morre?

Meu lado enfermeira me ajuda muito. Mas sempre é muito difícil. Recentemente, perdi uma que era uma irmã pra mim. Aquela coisa de se entender pelo olhar. Cuidei dela o quanto deu. Ela teve o melhor tratamento que pôde ter. Ela estava no quarto, já tinham a colocado para dormir. Eu cheguei perto dela, que ia me pedir algo. Eu achava que era algo para comer, algum desejo, coisas assim. E ela sussurrou no meu ouvido: “Não morre”. Fiquei devastada, mas, apesar de entender o recado, um dia eu vou embora, não é? 

Ela sabia o que você representa...

Sim... Minha essência é ajudar, cuidar. Essa sou eu, literalmente. Eu acho que todo mundo deveria ser assim, não acho nada demais. Eu me desgasto? Claro que sim! Mas sei que é a minha missão

 

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