Delivery alavanca retomada do consumo em todo o Brasil

Juntou a fome com a vontade de vender... De um lado, clientes querendo comprar por meio do delivery; de outro, empresários precisando voltar a lucrar, em tempos de pandemia

Fazer as compras do mês pelo aplicativo do supermercado e receber em casa? Normal. Pedir pelo telefone meias e demais peças de roupa de lojas e receber em casa? Idem. Só não é normal, mas aconteceu em Goiás durante a pandemia: um bebê de um ano e dois meses fez sua estreia nesse tipo de compra. De posse do celular da mãe, desbloqueado, sobre a cama, clicou num aplicativo de entregas. A família só descobriu quando o entregador trouxe o pedido: cinco bandejas de jiló.

O distanciamento social imposto para evitar a propagação de covid-19 forçou tanto as pessoas quanto estabelecimentos anteriormente offline a utilizar aplicativos de entrega, para manterem algo importante a ambos os lados: comprar e vender. O delivery foi a saída para 72% dos negócios (sendo que 25% desses lançaram o serviço durante a pandemia) segundo pesquisa do Sebrae em parceria com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

O que mais vimos nos últimos meses foram consumidores e empresários se adaptando a essa alternativa já usada faz anos pelas pizzarias, por exemplo. E não só de alimentação, mas de variada gama de segmentos. 

Gustavo Machado, consultor e professor de Futurismo, Inovação e Empreendedorismo, avalia que a pandemia trouxe disrupção ao mercado inteiro. E, como toda virada de chave abrupta, envolveu adaptação e mudança de cultura das empresas e dos clientes.
“Muitas pessoas que não estavam habituadas ao serviço de delivery estranharam no início, mas pouco a pouco foram se habituando”, diz ele, acrescentando que elas se importam com estes aspectos:

Bom custo-benefício
Preço, que já era fator importante no processo de decisão, tornou-se ainda mais crítico em meio à pandemia e seus efeitos sobre a economia.

Cuidados com a saúde
Higienização é prioridade por causa da transmissão do coronavírus. E a busca por alimentos saudáveis tem feito crescer o mercado de entrega de produtos orgânicos por pequenos produtores.

Embalagens adequadas
Com tampas antivazamento e que possam ir ao forno, por exemplo. “Há ainda preocupação com os materiais sob o ponto de vista da sustentabilidade”, completa Gustavo.

Tempo e modo de entrega
Ninguém gosta de ficar esperando comida com fome. Em contrapartida, um número cada vez maior de pessoas tem se preocupado com o meio de transporte dos entregadores, privilegiando modais não poluentes como bicicletas. “E muitos têm se sensibilizado com as condições de trabalho e os riscos que esses profissionais enfrentam”, avisa o consultor.

A pandemia acelerou o aumento da adoção de serviços de delivery, sendo um modelo de vendas que deverá ser ampliado a outros setores da economia. “Obviamente que, em um primeiro momento pós-pandemia, há uma demanda reprimida por sair de casa e ir a restaurantes e lojas, mas que com o tempo será cada vez mais substituída pela praticidade do delivery”, opina Gustavo. Até porque todos só se sentirão seguros para circular nas ruas quando houver vacina.

Interessante saber que, embora os EUA sejam um mercado consumidor muito maior do que o encontrado na América Latina, a demanda dos EUA por entrega em domicílio é superada pela Argentina, pelo Brasil e Colômbia, com a entrega em domicílio representando uma parcela maior das vendas totais de serviços de alimentação nesses países, segundo a Euromonitor International, provedor global de pesquisas de mercado.

Como impulsionadores, “a dinâmica atual, que envolve fatores socioeconômicos e a pandemia de coronavírus, combinada com uma forte cultura gastronômica”, afirma Rocío Guzmán, analista na Euromonitor International. Mas tem um detalhe: “Consumidores são fiéis a restaurantes específicos, mas não a aplicativos específicos. Acordos exclusivos com restaurantes locais ou redes populares são fundamentais para a fidelização dos aplicativos”, explica David Mackinson, gerente de pesquisa na Euromonitor International.

Aumento de confiança
A líder global em dados, insights e consultoria Kantar também foi estudar os novos hábitos e vê a covid-19 como um catalisador para mudanças na forma como as pessoas compram hoje e após a crise. “Estimamos que a pandemia tenha feito o comércio digital avançar de três a quatro anos em apenas três meses. De cerveja a hambúrgueres, de medicamentos a cosméticos, novos consumidores estão entrando no mundo do e-commerce”, diz Luciana Piedemonte, líder de brand strategy e commerce na Kantar Insights, afirmando que isso levou a um crescimento da confiança em pedidos online, dos e-pagamentos e da conveniência durante a crise.

“A última onda do Barômetro Covid-19 (realizada entre 18 e 22 de junho com 500 brasileiros), nossa principal pesquisa sobre o tema, revelou que 44% aumentaram suas compras via e-commerce em relação ao mês anterior. Especificamente sobre delivery, 47% compraram mais por telefone utilizando o serviço de entrega e 48% usaram mais algum delivery de comida via app; já 45% elevaram os pedidos de refeições para retirada no local”, conta Luciana. Importante: 61% vão manter a maioria dos novos hábitos adquiridos na quarentena. Essa constatação é ainda mais forte entre as mulheres e pessoas com filhos.

Luciana observa que o uso de delivery via aplicativo e as compras por telefone cresceram porque, de um lado, os consumidores precisavam se adaptar a uma realidade de quarentena; de outro, os negócios não podiam perder clientes e nem ficar sem uma receita mínima. Quem antes só utilizava canais de vendas físicos foi forçado a desenvolver rapidamente novos modelos, aproveitando as mídias sociais, ferramentas como WhatsApp e Instagram, e entregando em domicílio.

“A necessidade de inovação nunca foi tão relevante... As empresas precisam estar atentas a esses novos hábitos para acompanhá-los com novas soluções, produtos e serviços”, afirma Valkiria Garré, CEO de Insights da Kantar Brasil. Ainda mais que, mesmo com o fim da quarentena, 74% dos brasileiros dizem que continuarão evitando aglomerações, o que pode favorecer quem trabalha com delirery.

Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meireles, “o consumidor e o microempresário estão saindo da covid-19 muito mais digitalizados”. Sua conclusão se baseia em pesquisa própria realizada em abril com 1131 brasileiros de 72 cidades, mostrando crescimento de 30% nas compras por meio de aplicativos de delivery. E mais: 49% pretendem ampliar esse hábito após o fim do distanciamento social. Entre os itens, destaque para aquisição de produtos para pets, medicamentos, itens de higiene pessoal, material de limpeza e, claro, tanto pratos ou lanches prontos quanto alimentos para preparar refeições em casa.

 

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