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Quarta-feira

23 de Outubro de 2019

De Santos para o mundo: Christian Wolther fala do app 'Zen'

O empresário é CEO e cofundador do app de saúde e bem-estar criado na Cidade que, além de liderar o segmento no Brasil, tem usuários em 150 países

Aos poucos, começam a surgir em Santos startups de sucesso. Uma delas é o 'Zen', aplicativo de Android e iOS com conteúdos diversificados para aumentar a qualidade de vida de seus usuários, que encabeça o segmento no Brasil, e já foi baixado por mais de 3 milhões de pessoas, em cerca de 150 países.

CEO e um dos criadores da plataforma, o empreendedor santista-dinamarquês Christian Wolthers, mais conhecido como Crica, conta, a seguir, o que foi necessário para consolidar o app. Na entrevista, o empresário de 33 anos, que também foi sócio do Bikkini Barista – balada que bombou no Centro Histórico de Santos –, ainda dá conselhos para quem sonha em ter o próprio negócio e afirma que a Cidade reúne as condições necessárias para montar uma startup de sucesso.

Antes de se dedicar ao aplicativo Zen, você abriu e coadministrou a balada Bikkini Barista. O que o levou a trocar de área?

Sempre fui fascinado pelo mundo da internet, do mobile e das startups. Em 2011, conheci o publicitário Matheus Benatti. Ele já entendia bastante da web e começamos a conversar sobre as possibilidades que existiam na área. A princípio, trabalhei com o Matheus paralelamente ao Bikkini, em uma empresa que abrimos de produção de conteúdo para a rede.

Aí, em 2014, já tínhamos mudado de negócio e, por essa segunda empresa, que era focada em produtos digitais, lançamos nosso primeiro curso on-line. Ainda programamos outros 50 até 2015. Como a companhia pegou corpo, acabei ficando full time nela, na função de CEO.

Com o tempo, eu e o Matheus percebemos que queríamos ir para um novo lugar: deixar os cursos on-line para desenvolver um aplicativo que ajudasse a melhorar a vida das pessoas e pudesse se tornar global. Então, encubamos a MoveNext, empresa dos desenvolvedores de mobile Diego Santos e Matheus Veloza.

De quem foi a ideia para o Zen?

Foi da Juliana Goes, influenciadora digital e minha mulher. Por estar numa jornada de transformação pessoal, ter feito vários cursos de autoconhecimento e passado um período na Índia, onde meditou muito, ela sugeriu que fizéssemos um app de frases motivacionais.

A partir disso, eu, ela e os outros três cofundadores do Zen (Matheus Benatti, Diego Santos e Matheus Veloza) afinamos a proposta do projeto – de ser uma plataforma que reúne conteúdos variados para melhorar a qualidade de vida dos usuários. Iniciamos o desenvolvimento do aplicativo em meados de 2015 e o disponibilizamos em março de 2016, para Android e iOS.

Logo de cara, o Zen ganhou um baita destaque na App Store nacional. Um mês e meio depois do lançamento, mesmo que naquela época o aplicativo tivesse apenas conteúdos em português, ele começou a fazer sucesso ao redor da América Latina. Isso deixou claro que estava na hora de preparar o app para ser global. Assim, incluímos conteúdos em inglês e espanhol.

Qual foi o resultado dessa ampliação da plataforma?

No fim do primeiro semestre de 2016, o Zen apareceu na lista dos melhores aplicativos da América Latina inteira. Por causa disso, a gente foi convidado para fazer palestra sobre a nossa história no escritório da Apple em Cupertino, na Califórnia (EUA).

Lá, tivemos acesso a um monte de investidores e fechamos com a Science, incubadora do Michael Jones, um dos executivos de Los Angeles que mais apostam em startups e ex-CEO do Myspace. Nos dois anos seguintes (2017 e 2018), a Science ajudou a acelerar o nosso processo de crescimento e o aplicativo ganhou maior projeção fora da América Latina.

O ano passado, em particular, foi muito especial para nós, pois atingimos o faturamento de US$ 1 milhão, o que deu margem para investimentos ainda mais agressivos. Hoje, o Zen também conta com conteúdos em alemão e, no próximo semestre, vai incorporar o russo.

Atualmente, a plataforma tem mais de 250 mil usuários ativos, espalhados por cerca de 150 países, e já bateu mais de 3 milhões de downloads. Nosso principal mercado é o Brasil, onde lideramos o segmento de apps de saúde e bem-estar. Na sequência, vêm os Estados Unidos em segundo lugar e o México, em terceiro. A meta agora é tornar o Zen líder do seu segmento na América Latina.

O aplicativo mudou muito de 2016 para cá?

O Zen começou mais com meditações guiadas e, hoje, reúne cursos de alimentação, conteúdos sobre medicina indiana, para dormir melhor, parar de fumar, programas para melhorar o desempenho em atividades esportivas...

Ou seja, nosso foco é abrir alguma porta para o usuário ter mais saúde, bem-estar e equilíbrio. E queremos ampliar cada vez mais nosso acervo – parte dele gratuito –, porque sabemos que o caminho da felicidade não é igual para todo mundo. No momento, trabalhamos com mais de 50 produtores de conteúdo distribuídos pelo globo, que vão de nutricionistas e psicólogos a terapeutas holísticos.

Os usuários costumam mandar mensagens sobre o efeito do app na vida deles?

Sim, e isso é o mais gratificante no nosso trabalho. Tem gente que usa o aplicativo durante tratamentos pesados, como o de câncer, ou para combater a ansiedade e o estresse. Um relato bem bacana foi o de um senhor de 60 anos do estado norte-americano de Ohio. O Zen foi o primeiro app que ele baixou na vida e está contribuindo para aumentar a qualidade do sono dele.

Por acaso, o app também fez com que você revisse os seus hábitos?

Totalmente! Sou uma pessoa bem mais saudável do que há três anos. Antes de me aprofundar na meditação e passar a testar os conteúdos do Zen, eu pesava 105 quilos, não dormia direito, vivia ansioso e preocupado. Hoje, sou vegano, tenho uma filha, participo de provas de corrida e esbanjo bem-estar, além de maior autoconhecimento. O curioso é que todos os 11 profissionais que trabalham no Zen tiveram seu estilo de vida transformado pela plataforma, cada um de um jeito diferente.

Cogita levar a sede da empresa de Santos para a Capital?

Por mais que a maioria das startups brasileiras esteja concentrada em polos como os de São Paulo e Belo Horizonte (Minas Gerais), o escritório do Zen não vai sair de Santos. A nossa equipe se orgulha de, como brincamos internamente, ter ido daqui para o mundo.

Fora isso, Santos tem tudo a ver com a nossa proposta, pois é o tipo de lugar ideal para quem busca mais qualidade de vida. Eu amo a Cidade. Cresci na Dinamarca e me mudei para cá por escolha, não por necessidade. Acho que Santos é uma das melhores cidades do mundo para se montar uma startup. Como nesse mercado você vive sob pressão, a natureza local é uma ótima válvula de escape. Eu gosto de correr na praia e beber água de coco para me sentir melhor.

Está na Cidade há quanto tempo?

Minha família é dinamarquesa, mas há bastante tempo mantém laço com Santos, por causa do meu avô, que veio trabalhar com café na Cidade após a Segunda Guerra Mundial, e do meu tio, que fundou aqui a corretora de café Wolthers & Associates. Eu nasci em Santos e, com 4 anos, fui embora para a Dinamarca. Sempre soube que o meu caminho estaria atrelado ao Brasil.

Em 2006, retornei para cá para estagiar, durante um ano, na empresa da família. De volta à Dinamarca, frequentei a escola de negócios e um bacharelado para seguir carreira diplomática. Acabei trancando esses cursos, porque, em 2009, a convite do meu primo, vim de novo para Santos para abrir o Bikkini Barista e, desde então, não deixei mais a Cidade. 

O mercado santista de startups é promissor?

O ecossistema local ainda não está evoluído, começou a engrenar para valer no ano passado, graças a pessoas que estão bem engajadas nessa causa e a iniciativas muito legais, como a primeira edição local do Startup Weekend, que aconteceu no início do mês – esse programa global da Techstars e do Google busca orientar empreendedores.

Em Santos, destaco a aceleradora Spacemoon, o hub de tecnologia Zero Treze Innovation Space, a incubadora Lab4D e a Comissão de Startups e Inovação da OAB Santos, que promove palestras e eventos para fomentar esse ecossistema. Entre as startups que estão nascendo na Cidade, duas se tornaram bem grandes: NetFoods e Grão de Gente. E existe um potencial para ser explorado no Porto. 

Quais são os seus conselhos para quem pretende montar uma startup?

Há um ano e meio, faço monitoria voluntária para quem está começando a empreender dentro e de fora do País, pois já estive nessa posição e, por sorte, tive acesso a pessoas altamente qualificadas que me ajudaram a acelerar os negócios e errar menos.

Meu primeiro conselho, portanto, é se conectar a ambientes e profissionais com perfil empreendedor. Também vale buscar referências na imprensa e na internet, para entender melhor como funciona o negócio. Afinal, qualquer startup geralmente nasce com o propósito de resolver algum tipo de problema.

O que vem a seguir?

Existem diversos modelos que podem ser aplicados até se alcançar o resultado desejado. O que não pode faltar nessa jornada é muito empenho. E mais: busque parceiros que complementem as suas habilidades. Se você, por exemplo, não saber fazer design, traga para a equipe alguém com esse perfil.

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