De olho no futuro: Diretora aborda os desafios da educação

Diretora do Colégio Stella Maris fala de bullying, engajamento social e de outros desafios da educação

Uma das instituições de ensino mais tradicionais da região, o Colégio Stella Maris faz 95 anos na quinta-feira (28). Parte da Rede Alix, mantida pela Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho, o Stella Maris tem, desde o ano passado, a irmã Lindaci Torres dos Santos como diretora.

Natural de Santo Augusto, cidade do Rio Grande do Sul, a religiosa de 60 anos dedica sua vida à educação. Em entrevista, ela defende o engajamento social dos alunos desde cedo e mostra o quanto é importante os pais participarem ao máximo da rotina acadêmica dos filhos. Entre outros assuntos, ainda indica formas de conter o bullying, dentro e fora do ambiente virtual, e relembra fatos curiosos da história do colégio santista. 

Quais são os desafios atuais da educação?

Eles são muitos e mudaram completamente com o passar do tempo. Antes, o aluno quase não interagia, ficava mais calado. Hoje, ele se posiciona e contribui demais para a aula ser dinâmica. Ou seja, participa ativamente do seu processo de formação. E isso é bastante desafiador para nós, educadores. O professor precisa ter maior preparo, estar sempre atualizado, senão não consegue acompanhar o ritmo da turma. Acho bom quando o aluno questiona algo, porque, assim, cria-se um respaldo para que ele desenvolva ideias. Também acredito que a escola não pode mais ficar alheia ao mundo que existe além dos seus muros. É preciso colocar os alunos para refletirem sobre a realidade que os cerca e fazerem parte da sociedade, que requer modificações.

Essa abordagem deve ser feita a partir de que idade?

A conscientização tem que começar desde cedo, pois, quando tomamos posse daquilo que nos pertence enquanto cidadãos, vamos lutar por aquilo. Um dos desafios da educação atual é formar uma juventude que tenha valores que realmente possam fazer a diferença na sociedade, não apenas encher a cabeça de conhecimento de Matemática, Geografia, Física, Química, História etc. Nós, por exemplo, procuramos vincular a escola a projetos sociais, principalmente por meio da Associação dos Ex-Alunos do Colégio Stella Maris, que mantém a Creche Madre Alix, para crianças de até 3 anos; o Centro de Convivência Santa Rita, para crianças de 6, 7 anos que já vão para a escola; e o Centro Profissionalizante Santo Antônio, que forma jovens aprendizes para o mercado de trabalho. Costumamos promover campanhas mais com foco nessas unidades, e há as iniciativas que partem dos próprios educadores. Para citar um desses projetos: a professora de Literatura do Ensino Médio levou a turma para contar histórias no Centro de Convivência Santa Rita e em um asilo. Nós instigamos os alunos para que deem sua parcela de contribuição com a sociedade.

Eles surpreendem com ideias e iniciativas?

Com certeza. Desde pequenos, eles se mostram preocupados especialmente com os mais carentes e pedem para ajudar, propõem campanhas. Tentamos fazer com que as famílias participem desse processo, porque, se não há uma parceria entre a família e a escola, tudo fica mais difícil.

De um tempo para cá, alguns pais delegam para o colégio praticamente toda a responsabilidade da educação do filho. Como se deve administrar esse tipo de situação? 

A família tem que ensinar os princípios, os valores básicos, e a escola deve contribuir com a formação desse cidadão. Mas o que você colocou é uma realidade: há famílias que acabam delegando todas as responsabilidades para o colégio. Eu não via isso quando comecei a trabalhar com educação, só que, hoje, existe toda uma problemática nas relações, também há os conflitos entre alunos e professores. Por que, antes, isso não se fazia tão presente? Acredito que havia uma maior preocupação por parte das famílias de educar, ensinar a dizer bom dia, muito obrigado, por favor, com licença. Sem falar de mostrar a importância do respeito. É terrível um estudante maltratar o professor.

Escutei relatos de que, dependendo do colégio, tem aluno que chega a dizer para o professor: “Eu estou te pagando”. 

Isso existe. Acho que a escola, além de focar no estudante, precisa se preocupar também com os pais, fazer com que participem da partilha do saber e frequentem o ambiente do colégio, pois ninguém conhece tudo, juntos nós criamos vínculos e vamos nos formando no dia a dia. Ao acolher a família, você cria uma espécie de fidelidade. No Stella Maris, por exemplo, temos alunos que são a terceira geração da família que estuda aqui. A acolhida da escola requer estar presente até nos momentos difíceis que os estudantes e seus parentes enfrentam. Penso assim: não me tornei gestora de ensino para ficar inacessível, a porta da minha sala está sempre aberta e os alunos me procuram com frequência. A educação tem um fio condutor que passa pela justiça, pela liberdade, pela solidariedade. Portanto, se eu prego a solidariedade, preciso ser solidária com os problemas dos estudantes. A preocupação é formar um ser humano pensante e autônomo, capaz de buscar saídas para as situações e que saiba conviver com o diferente.

Como deve ser a inclusão dos alunos com necessidades especiais?

Aceitamos estudantes com Down, autismo, enfim, com todas as síndromes possíveis e imaginárias. Isso também tem a ver com a acolhida que eu citei anteriormente. Uma psicopedagoga acompanha de perto esse aluno e, na sala de aula, além do professor, ele tem um mediador, que fica sentado do seu lado para dar suporte na parte acadêmica e facilitar a interação com o resto da turma, porque, se você coloca esse estudante em uma sala separada, estará excluindo-o.

De que maneira a tecnologia pode ser usada a favor da educação?

Sabendo utilizá-la corretamente, ela se mostra uma aliada importante no processo de ensino. Com isso em mente, temos uma sala com lousa digital e as demais contam com data show. Os professores também trabalham com muitas aulas on-line. Agora, o celular é um desafio e tanto. Todas as salas têm um depósito para os alunos guardarem seus aparelhos durante a aula, enquanto não são necessários, pois usamos o celular em algumas atividades. Começamos a aproveitar o smartphone já no quarto ano do Ensino Fundamental I, mostrando como se faz uma pesquisa na internet, como identificar os sites que são realmente confiáveis.

O incidente em Suzano alerta sobre o efeito do bullying dentro e fora da web. Qual o melhor modo de trabalhar essa questão? 

O bullying é algo preocupante, que deve ser acompanhado de perto, com muito carinho. Quando percebemos qualquer movimento suspeito ou os alunos nos trazem um caso, imediatamente o corpo docente entra em ação, para identificar o mais rápido possível a origem e o porquê daquilo. Em cima disso, realizamos um trabalho para que o respeito realmente passe a existir, estimulando a consideração pelo outro. Quando a situação vaza e é conhecida pela turma toda, a medida educativa é feita com a classe inteira; caso contrário, priorizamos os envolvidos naquele contexto. O bullying não é motivado só pela cor dos olhos, da pele ou por uma peculiaridade física, também ocorre por conta de comportamentos da pessoa. Graças a Deus, temos conseguido sanar os problemas detectados. Rapidamente notificamos e envolvemos a família, pois o trabalho de conscientização deve se dar dentro e fora do colégio, para que o estudante entenda que deve respeitar o outro onde quer que esteja.

Existe alguma medida preventiva?

Algo que ajuda bastante são as assembleias bimestrais que fazemos em cada turma. Nelas, os alunos colocam as dificuldades que estão enfrentando e eles mesmos apontam soluções. Depois de um tempo, nós sentamos com os estudantes para verificar se as ações propostas têm surtido efeito. As aulas de Filosofia também auxiliam no combate ao bullying, porque trabalham valores. As turmas se mostram bem receptivas a essa disciplina.

Em uma sociedade tão múltipla como a atual, é desafiador manter o ensino religioso na grade curricular?

Sim. Mas o que é princípio evangélico ou católico vale para qualquer ser humano. As aulas são pautadas por esses conceitos, e há tanto alguns trabalhos quanto celebrações ecumênicas. Por mais que ofereçamos a preparação para a primeira eucaristia, deixamos os alunos que possuem crenças diferentes livres para apenas assistirem ao que está sendo apresentado. E mais: nas avaliações que os estudantes fazem, a cada semestre, dos professores, o de religião é um dos mais queridos. Inclusive, o professor de ensino religioso me dá o feedback de que, nas aulas, os alunos se abrem, se põem a falar de problemas deles, algumas conversas são bem profundas e sérias. Entre eles existe o acordo de que ali é um espaço para esse tipo de abordagem. 

Confira entrevista completa na edição deste domingo (24) da AT Revista.

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