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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

'Coronavírus que circula no país veio da Itália', diz líder do time que sequenciou genoma do vírus

Biomédica Jaqueline de Jesus ainda fala das mutações do causador da Covid-19 e da falta de apoio à Ciência

Pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Universidade de São Paulo (USP), pós-doutoranda dessa instituição pública de ensino e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a biomédica Jaqueline Goes de Jesus ganhou projeção nacional ao liderar, junto com a professora Ester Sabino, diretora do IMT, a equipe que sequenciou o genoma do coronavírus no Brasil, no tempo recorde de 48 horas – enquanto, ao redor do mundo, os cientistas costumam demorar, em média, duas semanas.

Na entrevista a seguir, a baiana de 30 anos explica como isso foi possível, faz importantes observações sobre o coronavírus e chama atenção para o descaso e para a falta de incentivo que a maioria dos pesquisadores enfrenta diariamente no país.

TECNOLOGIA Os outros países levaram, em média, duas semanas para sequenciar o genoma do coronavírus. Como vocês conseguiram fazer isso em 48 horas?

Um dos motivos é uma plataforma desenvolvida por uma startup britânica, tecnologia que começamos a utilizar em 2016, para o sequenciamento do genoma do zika vírus. Depois, analisamos o vírus da febre amarela e descobrimos que o surto que aconteceu no país em 2017 não foi por causa de uma cepa (grupo de vírus descendentes) que circulava em Minas Gerais, como se imaginava, e sim por causa de uma cepa da região amazônica, que acabou se dispersando para o Sudeste.

Ao longo desses quatro anos, ainda investimos na otimização dos protocolos que adotamos, dando preferência aos que são mais novos e rápidos. A nossa equipe também se aprimorou tecnicamente. Eu e uma colega, por exemplo, fomos à Inglaterra para nos especializarmos na tecnologia que usamos.

Quantas pessoas fazem parte da equipe?

Temos uma média de 13 pessoas atuando no nosso laboratório na USP e trabalhamos em parceria com um grupo da Universidade de Oxford (da Inglaterra) – no início, também contamos com o auxílio de pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz. A gente fala todo dia por videoconferência ou no grupo do WhatsApp com o pessoal de Oxford.

É como se fosse uma única equipe, dividida em locais diferentes. Fazemos a parte laboratorial no Brasil e começamos o trabalho de análise e estatística, que é finalizado na Inglaterra.

PRESSÃO A rotina de vocês deve estar bem puxada.

Já tínhamos um ritmo pesado, pois nossos projetos envolvem uma grande quantidade de sequenciamentos de genomas de vários vírus. Com a pandemia de coronavírus, o nível de pressão que o nosso grupo vive apenas aumentou. Temos trabalhado incansavelmente, praticamente todos os dias. Chegamos por volta das 8, 9 horas ao laboratório e saímos, muitas vezes, de madrugada.

Há duas semanas, começamos a dar uma maneirada nessa intensidade, por conta do nosso cansaço. Se consigo dormir quatro horas por noite, eu já agradeço a Deus.

Algum dos pesquisadores trabalha remotamente?

Nossa equipe se encontra de certa forma reduzida. Apenas continua frequentando o laboratório quem mora bem próximo ou quem pode vir de carro próprio. Portanto, seis pesquisadores estão trabalhando presencialmente e o resto do grupo atua remotamente.

'Não tenho carteira assinada', diz a cientista sobre profissão não regulamentada (Foto: Almir R Ferreira)

ORIGEM O sequenciamento do genoma do coronavírus abre quais possibilidades para o enfrentamento da pandemia?

Basicamente, sequenciar o genoma do vírus significa conhecer como ele está estruturado e entender como as suas proteínas se formam, se elas estão mais ou menos funcionais, devido a mutações. De modo geral, os vírus mutam bastante. Boa parte das pessoas costuma relacionar mutação com alguma aberração, mas, biologicamente falando, elas são ocorrências completamente naturais.

Nós, humanos, mutamos muito, mas temos um mecanismo de reparo que consegue reaver a situação, impedindo que a gente sofra mudanças drásticas no nosso genoma, na nossa estrutura. O vírus não tem um sistema de reparo. Se, no ambiente em que ele está circulando, existem condições que propiciam a perpetuação da mutação que sofreu, ela passa a fazer parte do seu genoma.

Hoje, temos focado no estudo dessas mutações do coronavírus (de duas a três por mês), pois elas nos ajudam a compreender de onde ele veio, qual a diferença ou similaridade do vírus que circula no Brasil com o de outro país que também publicou a sequência do seu coronavírus.

Por causa disso, conseguimos traçar a rota do coronavírus até o Brasil: o vírus que circula por aqui entrou por São Paulo, foi trazido por uma pessoa que viajou para a Itália. E há evidências de que o coronavírus italiano provavelmente se originou do da Alemanha ou da Inglaterra.

Como a gente trabalha com análise por comparação, sempre que um novo genoma é incluído no banco de dados internacional, temos de refazer todas as nossas análises. Dependendo do caso, pode acontecer uma mudança significativa no que se acreditava e, assim, vamos contando melhor a história do vírus.

O coronavírus não é um vírus que surgiu agora. Além do atual (SARS-CoV-2), quantos outros realmente preocuparam os cientistas?

Outros dois provocaram infecções importantes e geraram epidemias: o primeiro SARS-CoV, que causou a síndrome respiratória aguda na Ásia e matou muita gente no continente em 2002, mas, felizmente, não se espalhou para outras áreas do planeta; e o MERS-CoV, que provocou a síndrome respiratória aguda no Oriente Médio em 2012 e ficou contido nessa região, com registro de mortes também.

Quanto aos outros coronavírus que existem, muitos nós já pegamos. Eles causam gripes leves – em uma semana, normalmente a pessoa já está curada. O que acontece? Como nós ficamos várias vezes gripados na vida, não costumamos ir ao hospital ou ao posto de saúde pedir exame para identificar o vírus que desencadeia a doença. Sendo que cada gripe é causada por um vírus diferente.

O que mais vale destacar com relação ao SARS-CoV-2?

Ele tem baixa letalidade e alta transmissibilidade comparado ao primeiro SARS-CoV e ao MERS-CoV. O que significa? Como o primeiro SARS-CoV e o MERS-CoV são mais letais e debilitam mais, a pessoa não consegue sair de casa e, por isso, a transmissão dos dois vírus acaba ficando mais contida.

No caso do SARS-CoV-2, é diferente: os quadros costumam ser mais leves e as pessoas geralmente têm condição de sair de casa enquanto estão doentes, daí a importância do isolamento social para barrar a transmissão da doença. Ainda é preciso levar em conta o seguinte: uma parte considerável da população é assintomática. Ou seja, eu posso ter o novo coronavírus no organismo, mas por estar saudável não percebo que infecto os outros.

Estima-se que cada pessoa que carrega o vírus infecta outras três e assim por diante, gerando uma progressão geométrica muito forte e rápida, que, se não for controlada, pode provocar um colapso no sistema de saúde. Igual aconteceu na Itália, em que um monte de gente, principalmente idosa, foi mandada de volta para casa e morreu, pois os hospitais não tinham como atender todo mundo.

Enquanto não há uma vacina para a Covid-19, existe a possibilidade de ocorrer uma segunda e até uma terceira onda, em que quem ficou isolado em casa venha a se infectar lá na frente.

Já há estudos que tentam explicar como surgiu o SARS-CoV-2?

Sim. Algumas pesquisas publicadas mostram fortes evidências de que esse vírus já circula há anos nos morcegos. Só que as queimadas na Ásia e na Austrália acabaram estressando bem esses animais e esse contexto teria favorecido a mutação do vírus, de modo que conseguisse saltar para a espécie humana.

Outro animal que também está sendo considerado como uma origem do novo coronavírus é o pangolim, que não existe no Brasil, mas é comum na Ásia. E principalmente na China, as pessoas têm o hábito de comer animais silvestres.

Ao lado de Jaqueline, Ester Sabino, diretora do IMT, que também liderou o grupo (Foto: Almir R Ferreira)

INCENTIVO O Brasil é bem-visto no meio científico?

Todos os insumos que usamos nos nossos laboratórios são importados, principalmente dos Estados Unidos, da Alemanha e do Canadá. Isso dificulta o desenvolvimento da Ciência no Brasil, porque é o tipo de trabalho que sai caro e, para ajudar, não existe uma legislação que isente os insumos laboratoriais de impostos.

Mas o país possui grandes cientistas, e os nossos pesquisadores costumam ser respeitados mundo afora, pois conseguem solucionar os problemas internos de forma criativa, desenvolvendo habilidades que eles não têm lá fora.

Faltam incentivo e reconhecimento dentro do próprio País?

Bastante! Não posso reclamar da minha trajetória, porque sempre trabalhei em grupos envolvidos com estudos importantes para a época, como HIV, chikungunya, dengue, zika, febre amarela e, agora, coronavírus. E esses projetos acabam obtendo mais recursos.

Só que eles são uma exceção. A regra costuma ser a seguinte: haver falta de dinheiro e de insumos nos laboratórios e as pesquisas demorarem mais do que deveriam. Também faltam recursos humanos. As pessoas que trabalham nos laboratórios geralmente não têm remuneração compatível com as funções que exercem.

Além disso, a Ciência sofreu cortes significativos nos últimos dois anos. Vários estudantes que começaram carreira científica no mestrado não puderam dar sequência no doutorado e viram suas trajetórias interrompidas, tendo de abandonar o papel de cientista, já que falta financiamento para se realizar pesquisas.

E hoje, chegamos ao ponto em que a sociedade exige da gente respostas que não vêm do dia para a noite. A Ciência no Brasil está dois, três anos atrasada.

A situação devia ser bem diferente.

A profissão do cientista não é regulamentada no país. Então, quem trabalha com Ciência, na realidade, é um profissional da área da Saúde que resolveu se dedicar à pesquisa como docente de uma universidade ou membro de um instituto que faz única e exclusivamente pesquisa – há poucos do tipo no Brasil, entre eles Fiocruz, Butantan e D'Or.

São Paulo é o estado que tem mais investimentos em pesquisa, respondendo por mais de 50% da produção científica nacional. Mas, tirando os professores e os líderes de projetos, os demais pesquisadores normalmente são bolsistas. No meio desses cientistas há de estudantes de iniciação científica a pós-doutorandos como eu.

Não possuo carteira assinada, logo não tenho direitos trabalhistas como férias e 13º salário. Quando o projeto de pesquisa de que o cientista participa acaba, ele precisa buscar vaga em outro estudo para continuar tendo uma remuneração enquanto não tira seu mestrado, doutorado...

Por isso, muitos pesquisadores acabam mudando de país. Se você parar para analisar, verá que a maioria dos estudantes da academia não possui independência financeira e é sustentada pelos pais ou por algum dos seus familiares. Estou formada há dez anos e apenas agora consegui renda razoavelmente compatível com o meu custo de vida.

RACISMO Existe preconceito na comunidade científica?

Sim, mas ele acontece de uma forma velada, porque as pessoas são mais polidas. Se você não estiver bem atento, não percebe que é discriminado em pequenos atos ou em um comentário aparentemente bobo. Já fui bem marginalizada em grupos de pesquisa, inclusive por não compartilhar do mesmo padrão de vida de alguns colegas.

Precisei ganhar projeção nacional para certas pessoas começarem a sorrir para mim, a dar bom dia ou falar comigo. O que deveria fazer parte da rotina de cordialidade. Tenho os pés no chão, não me deixo deslumbrar.

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