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Sexta-feira

3 de Abril de 2020

Como perceber que o medo se transformou em fobia

É importante tomar medidas de precaução contra vários perigos, como o de ser assaltado ou mesmo de pegar coronavírus. Só não vale exagerar

Desde que se confirmou o primeiro caso de coronavírus no Brasil, a luz amarela do medo acendeu. A ponto de pessoas quererem ir ao hospital pedir para fazer o teste porque espirraram.Mas o Ministério da Saúde já esclareceu que, sem apresentar os sintomas (tosse seca, cansaço e febre são bens comuns) ou ter contato com alguém infectado, o exame ainda não é indicado.

“A minha primeira vontade foi comprar um estoque de máscaras e de álcool em gel, só que sei que é exagero da minha parte. Ficamos mexidos, porque essa ou qualquer outra doença séria nos lembra da fragilidade da vida, ainda mais quando há registro de mortes. 

A minha filha, mais pragmática, me alertou para não ver tudo o que sinto a partir de agora como sintoma. E eu prometi não ‘viajar na onda do medo”, conta a aeromoça aposentada Solange Caruso.

O medo é uma resposta normal do organismo quando percebemos que existe um perigo real ou mesmo imaginário, mas com potencial de se tornar real. De acordo com Caio Antero Pinheiro, psiquiatra da rede de clínicas populares Cia. da Consulta, “ele nos ajuda a tomar medidas de precaução e, assim, preservar a nossa integridade. Vira fobia se for um medo exagerado de algo específico, como altura, locais fechados e até de entrar no mar e ser engolido pelas ondas”.

A fobia gera sintomas fortes, como sensação de desespero ou de perda de controle, coração acelerado, boca seca, tremores, crença de morte iminente etc. 

De forma que você não consegue reagir àquela situação de uma maneira adequada, acrescenta o psiquiatra. Geralmente a fobia leva ao desenvolvimento de ‘comportamentos de esquiva’, o que significa querer evitar de todas as formas expor-se ao que causa tal medo desesperador e tentar nem pensar nesse agente que só traz sofrimento.

O que mais indica que o medo está passando dos limites? “Ele se torna ‘exagerado’ a partir do momento em que nos atrapalha para desempenhar funções cotidianas ou, então, nos limita em atividades que deveríamos realizar sem dificuldades”, responde Caio Pinheiro.

No caso do coronavírus, por exemplo, devemos seguir as recomendações que vão sendo atualizadas conforme os estudos avançam e os casos são identidicados. 

“Precauções como lavar bem as mãos e usar máscara se estiver tossindo são medidas de proteção proporcionais à nossa realidade”, orienta o médico. Mas nada de querer fazer estoque de alimentos ou papel higiênico. Isso acaba prejudicando a coletividade.

Quando procurar ajuda profissional

Ao sentir um medo bem forte, normalmente deve-se analisar o grau de angústia que ele causa e o prejuízo que existe em evitar o potencial risco.

“Se a pessoa consegue se manter ativa, funcional (trabalhando ou estudando de maneira adequada) e produtiva, continua fazendo seus contatos sociais e não percebe grande angústia relacionada ao sentimento de medo, não se indica tratamento. Porém, quem está muito ansioso, sente-se tenso e com dificuldade de relaxar ou dormir, evita locais ou situações específicas, muitas vezes, já desenvolveu um transtorno de ansiedade e deve buscar ajuda”, esclarece Pinheiro.

Há de se aprender a conviver  com certos perigos, seja o de pegar uma infecção, o de precisar abandonar o carro uma rua que alaga por causa da chuva intensa... “Sempre foi assim e não existe vida sem risco. Podemos sofrer acidentes, ser vítimas de violência, adoecer, perder entes queridos etc.

Afinal, nós não podemos controlar tudo”, opina o psiquiatra, que cita, a seguir, alguns métodos terapêuticos utilizados para enfrentamento do medo:

Técnicas de terapia cognitivo-comportamental

Elas ajudam a identificar o risco real, trazendo à tona as sensações e preocupações associadas ao agente amedrontador. Assim, contribuem para lidar de jeito gradua e progressivo com aquilo.

Dessensibilização. Ao se expor aos poucos ao agente causador do medo, você entende que “está tudo bem”. Isso pode gerar um reforço positivo, uma sensação de “vitória”.

Participar de grupos de apoio

Neles, você encontra pessoas com temores semelhantes e discute formas de lidar com eles. Essa identificação ajuda cada um a processar seus sentimentos e a criar repertório para encarar situações geradoras de medo.

Um freio nas impulsividades

A psicóloga e pedagoga Raquel Reis, que tem dois mestrados (nas áreas de Recursos Humanos e Saúde, sendo especialista em tratamentos de depressão), complementa que, além de normal, sentir medo é útil por colocar um freio em certas impulsividades e até imprudências. “Pode ajudar a evitar acidentes e mais uma série de consequências ruins ou que colocariam a vida em risco. Somente em excesso pode se tornar fobia, e uma forma de controlar é refletir claramente sobre os próprios medos”.

Raquel sugere perguntas para se fazer: o que eu temo exatamente? Por quê? Como estou me expondo ao risco? Qual é a gravidade disso para minha vida? O que preciso fazer para me proteger? Com base nessas respostas, você vai se municiar de informações confiáveis, que poderão aliviar o medo. Afinal, é comum as pessoas não fazerem essa pesquisa interna e começarem a travar, o que pode virar fobia.

“Travar é não fazer nada além de só se lamentar, alarmar familiares, ficar lendo tudo sobre aquilo... É como se você bombardeasse a mente com a mesma informação muitas e muitas vezes. E assim vai ‘neurotizando’”, avisa a psicóloga, lembrando que a partir do momento em que você sabe quais riscos corre de fato e o que está ao seu alcance para evitá-los aumentam as chances de ficar só no patamar do medo, sem mudar para o da fobia.

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