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Sexta-feira

3 de Julho de 2020

Automedicação: ainda mais perigosa durante o isolamento

Com medo de ir ao médico, as pessoas têm tomado muitos remédios por conta própria

Uma prática nada recomendada tem aumentado durante a pandemia da covid-19: a automedicação.  Com medo de ir a hospitais e médicos, as pessoas têm tomado cada vez mais remédios por conta própria. O que pode ser extremamente perigoso. No ano passado, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) divulgou uma pesquisa que apontava que mais de 75% dos brasileiros tinham o hábito de se automedicar.  

Embora ainda não existam números oficiais sobre o que está acontecendo durante o período de isolamento social, especialistas alertam que a superutilização de remédios pode ser muito perigosa. E por diversas razões.   

Alerta máximo

O homeopata Roberto Debski lista exemplos importantes do que pode acontecer quando se ingere um comprimido sem saber, de fato, qual é a sua indicação correta. “Ele pode tratar somente os sintomas e encobrir a causa ou a doença verdadeira. Pode estar sendo usada uma dose ou um medicamento que seja prejudicial à pessoa. Aquilo pode ser contraindicado causando mais agravos à saúde, trazer efeito colateral e até a falsa sensação de segurança de estar se tratando quando não se está”.   

Claro que existem remédios que podem ser usados com moderação e sem prescrição. “Mas é preciso deixar claro que condenamos a automedicação. Há remédios praticamente isentos de algum efeito mais grave, só que, mesmo assim, deve-se ter atenção, especialmente as pessoas com alergias a certas substâncias. O indivíduo precisa ter consciência disso. Por exemplo, você sente uma dor de cabeça. Se for hipertenso, não é qualquer coisa que pode tomar. O mesmo ocorre com o ácido acetilsalicílico, que, se for utilizado em excesso, pode gerar sangramentos no estômago, principalmente em idosos”, explica o clínico geral e emergencista da Unimed, José Andrade Grillo Filho.  

Aliás, falando em dores, o médico afirma que elas são, na verdade, uma bênção. “A dor mostra que existe alguma coisa que não está bem no organismo. Por isso, ficar de olho nos sintomas é importante antes de usar qualquer remédio, ainda que você esteja acostumado. Claro que para uma dor de cabeça, uma cólica intestinal ou abdominal, as pessoas já sabem qual medicamento utilizar. Mas sempre sem exagero e observando a evolução do que está sentindo”.  

O médico alerta: “O paracetamol, que é um remédio hoje de larga escala, pode causar um tipo de hepatite. Tem gente que usa antibiótico para gripe, o que é um absurdo”.  

Nesse sentido, a telemedicina pode ser uma aliada importante para reduzir a automedicação. “Ela evita idas desnecessárias ao pronto-socorro. Acho que, no pós-pandemia, será uma grande arma para a medicina, até como uma forma de não sobrecarregar o sistema de saúde”.  

Dois lados

José Andrade Grillo Filho diz que é notória a diminuição no número de pacientes nos prontos-atendimentos. E que isso tem dois efeitos. O primeiro é positivo, uma vez que as pessoas deixam de procurar socorro imediato por coisas que podem esperar. “Tinha gente que vinha de madrugada com uma ferida no pé que tinha há três meses ou que teve duas dores de barriga e saía correndo. Isso não há mais”.  

Por outro lado, pode mascarar problemas mais sérios de saúde.  “A pessoa sente uma dor no peito e atribui a um processo muscular, uma alteração de estômago, sem ter comido nada, ou até a gases. Esse sintoma pode ser de infarto, então, temos que pesar o que está ocorrendo antes de tomar decisão”.  

Quanto ao uso de substâncias para a prevenção do novo coronavírus, o clínico geral é enfático: “Nós, médicos, temos até dificuldade para propor um tratamento para a covid-19. Existem vários trabalhos, muitos não são conclusivos, há bastante discussão sobre o tipo de abordagem terapêutica que se faz nesse processo, porque, inclusive, é uma doença que tem algumas fases. Portanto, a automedicação para os sintomas da covid-19 não é indicada”, conclui. 

 

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