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Domingo

20 de Outubro de 2019

Resgate do Aprender: das letras à alegria das descobertas em Cubatão

Projeto ensina pessoas de todas as idades desde o abecedário até como lidar com um smartphone

Dona Julieta Santos Neres, de 62 anos, sempre temia ficar sozinha no ponto de ônibus. Isso significava sufoco, afinal, ela precisava de ajuda para embarcar nos coletivos. Sem saber ler, dependia de quem se dispusesse a interpretar a sopa de letras que era o que as palavras significavam para ela. Isso até conhecer o projeto Resgate do Aprender. 

Lá, em uma sala no andar superior da Igreja Presbiteriana de Cubatão, dona Julieta conseguiu dar sentido ao alfabeto, escrever e ter uma vida nova.

O projeto nasceu em 2015 com o objetivo de alfabetizar gratuitamente outras Julietas, mas cresceu. Hoje, são nove cursos que incluem barbearia, elétrica, informática, violão e como usar um smartphone, relembrando a cada pequeno avanço dos alunos a importância da alegria atrelada ao ato de aprender.

“Eu sempre ficava dependendo de alguém. Hoje, eu me sinto mais independente. Sempre estou aqui, não falto. Em casa, até minha filha me ajuda. A minha vida mudou”, declara dona Julieta.

Começo

E tudo começou como uma história bem parecida com a dela. Móises Aredes estava em um ponto de ônibus, quando um senhor veio lhe pedir informações. “Percebi que, na verdade, ele não sabia ler. Eu sempre tive o desejo de poder fazer algo que ajudasse as pessoas e naquele momento eu decidi que colocaria isso em prática”.

Moisés, coordenador do projeto, foi pedir apoio na igreja que frequentava e saiu de lá com um sim e um local para tocar as atividades. “Ver quem chegou aqui sem saber escrever o próprio nome, recebendo uma folha e lendo texto em público não tem preço. É emocionante”.

E, assim, cheio de emoções, o projeto vai se renovando com histórias de superação, sonhos e liberdade de pegar esses ônibus da vida com destino à felicidade. Como Jocinália Maria de Jesus Cavalcante, de 61 anos, que está há três meses no Resgate do Aprender. 

“Sempre tive dificuldades para juntar as palavras. Mal sei escrever meu nome. Mas sei que dessa vez vou conseguir porque o projeto é muito bom e a professora é ótima. Quero ler a bíblia, pegar ônibus sozinha...”.

Família

Quando Moisés decidiu seguir o desejo de doar tempo em um trabalho voluntário, não exigiu o mesmo da família. Mas eles abraçaram o mesmo sonho. 

A filha Jéssica Santos Aredes, de 21 anos, por exemplo, foi ser voluntária também. Começou com aulas de alfabetização e, agora, ensina, principalmente aos mais velhos, como utilizar smartphones. E o que pode parecer simples para a geração de Jéssica, que dá a impressão de já ter nascido conectada às redes sociais, é um novo mundo para pessoas como Maria Adalgísia Gomes Costa, de 71 anos.

“Conversando com uma amiga, contei que comprei um celular e não sabia usar, só sabia atender e pronto. Ela me disse que tinha passado pela mesma situação, mas aprendeu a mexer aqui no projeto. Eu vim. Agora, eu gosto de ver o Facebook. É muito bom”.

Avanços vão além do conhecimento

Raquel dos Santos é uma das alunas mais antigas do projeto. Com 27 anos e deficiência intelectual, ela frequenta escola especial e conseguiu avanços na socialização e atividades motoras. 

“Mas era o sonho da minha mãe que a Raquel estudasse em uma escola regular. Ela já faleceu, mas viu minha irmã aqui. E a Raquel está desenvolvendo muito”, conta orgulhosa a irmã, Suelen dos Santos.

Parte desse avanço se deve à professora de Alfabetização do Resgate do Aprender, Celi Inês de Andrade Lopes. Membro da igreja, ela sempre quis fazer trabalho voluntário. “Quando soube do projeto, vi minha oportunidade”, conta. 

A área de Celi é Contabilidade, mas o trabalho no projeto despertou nela cada vez mais a vontade de ensinar. “A Raquel é atendida em uma escola especial que incentiva sociabilidade, atividades de coordenação, mas a família achava que ela poderia desenvolver mais a parte cognitiva. Como não sou formada na área, fui até a escola, conversei com a equipe para tentar entender como ajudá-la. E ela está progredindo”.

Raquel e a professora Celi, de Alfabetização, que sempre quis desenvolver algum trabalho voluntário (Vanessa Rodrigues/AT)

Sonho adormecido

E foi nesses esforços para ajudar os alunos que Celi decidiu dar um passo além e fazer Pedagogia. “Talvez fosse um sonho adormecido que acordou agora”.

E este processo de sonhos e despertar vai acontecendo com outras pessoas. Bruna Souza Vito Silva dá aulas de Informática e tem formação técnica na área. Mas assim como Celi, vai fazer Pedagogia. “Poder ensinar é transformador para eles e para nós. Mas não é uma tarefa simples. Por isso, quero estudar. No fim, eu me apaixonei por esse ofício”.

Oportunidades nascem e crescem

Todo processo de aprendizagem enriquece a alma, mas também pode garantir dinheiro no bolso e as contas em ordem. Diego Henrique Cardoso sabe disso. Ele, que trabalhava na indústria, viu o que aprendeu com a barbearia salvar o sustento da casa quando a crise financeira atingiu em cheio o país e ele foi mandado embora. 

A atividade paralela virou a principal fonte de renda. “Por isso, fiz vários cursos e fui me qualificar”. E ao perceber o quão importante isso foi em sua vida, decidiu procurar o antigo amigo Moisés e se oferecer para compartilhar o conhecimento que acumulou. “Propus treinar pessoas que depois pudessem dar aulas aqui no projeto” .

Flávio Magalhães foi aprendiz de Diego durante um ano inteiro. Depois, passou a ser instrutor. “Meus primeiros alunos se formaram este ano. Dois já estão ganhando dinheiro com isso. Outro, é um haitiano que chegou aqui em busca de uma oportunidade, agora tem essa formação. Eu me sinto emocionado, orgulhoso e agradecido pela oportunidade que tive”.

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Diego (de boné) conseguiu equilibrar as contas ao aprender o ofício (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)
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