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Terça-feira

7 de Julho de 2020

Política não é jogo de destruição

Pesquisas da CNT mostraram avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro

Não me surpreenderam os dados da última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT). A avaliação negativa (ruim + péssimo) do presidente Jair Bolsonaro cresceu, passando de 31% em janeiro para 43,4% agora, predominando a reprovação quanto ao seu desempenho pessoal (55,4%). O pessimismo é grande: para 68,1% o emprego vai piorar nos próximos seis meses, o mesmo acontecendo com a saúde (52,3%) e com a educação (47,4%), enquanto a renda mensal deve diminuir na opinião de 46,7%.

Há, porém, um dado que impressiona. Trata-se da parcela que apoia o presidente: ela praticamente não se alterou neste ano, com pequena oscilação negativa de apenas 2,5 pontos percentuais. 32% dos entrevistados consideraram em maio o governo como ótimo ou bom, e um detalhe merece atenção: a avaliação “ótimo” cresceu, passando de 10% para 14%. É verdade que a “péssima” também disparou, indo de 22% para 32%, evidenciando a polarização criada, com mais gente criticando fortemente o presidente, mas sua base de apoio continua sólida e ainda mais entusiasmada.

A estratégia do presidente Jair Bolsonaro parece clara: manter, e fortalecer ainda mais, a parcela do eleitorado radical que continua firme a seu lado, de modo incondicional. Nada parece abalar esse contingente, disposto e pronto a justificar todas as atitudes e comportamentos do governo. Mesmo diante de evidências, como a recente crise desencadeada pelas justificativas e explicações dadas sobre a reunião ministerial que envolveu a saída do ministro Sérgio Moro, a base de apoio não se sensibiliza ou move.

Faço uma pergunta: será que um terço da população brasileira concorda inteiramente com as posições de ultradireita do presidente? Para responder a essa questão, é preciso talvez recorrer a elementos de psicologia social mais do que aspectos políticos e econômicos.

É indiscutível que profundas alterações aconteceram na sociedade nos últimos tempos, alterando valores e comportamentos. As pessoas passaram a não confiar nas formas tradicionais de representação – partidos, sindicatos, associações – e veem a política como espaço de corrupção e ineficiência. Por outro lado, prevalecem o interesse pessoal, a ascensão a qualquer preço, a desconfiança em relação a tudo e a todos. Não valem mais sonhos ou projetos de mudança, descartados como tolos, estúpidos ou inconsequentes, desaparecendo a solidariedade entre grupos e classes sociais, restrita agora, quando muito, a pessoas.

O resultado disso é o vale tudo. Inimigos são rapidamente identificados, e com eles não há contemplação ou paciência. Há indignação e revolta com políticos corruptos (todos, com poucas exceções, entre as quais o presidente), e o medo e a insegurança são substituídos pela raiva e pelo ódio. Os apoiadores estão cegos por esses sentimentos, e assim desaparecem a lógica, a razão, as evidências.

A política não é o jogo da destruição; ao contrário, é o espaço para discutir, negociar, buscar construir consensos. Infelizmente, esse não é o cenário atual, e as chances de mudá-lo são cada vez menores.

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