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Terça-feira

18 de Junho de 2019

Roberto Debski

Roberto Debski mora em Santos, é médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e psicólogo formado pela Universidade Católica de Santos. É especialista em acupuntura e homeopatia pela Associação Médica Brasileira, pós graduado em Atenção Primária à Saúde e tem diversas formações em Práticas Integrativas e Complementares, Meditação, Constelações Familiares Sistêmicas, EMDR e Coaching. Com foco na saúde física, mental e Qualidade de Vida, estimula a mudança no comportamento, no estilo de vida e na consciência, a fim de melhorar os resultados dos tratamentos clínicos, dos relacionamentos interpessoais e do bem estar.

Para separar é preciso mais amor do que para casar

Essa frase é atribuída a Bert Hellinger, 93, filósofo e terapeuta, criador das Constelações Familiares, um estudioso que nos legou um aporte inovador e efetivo para entendermos a natureza humana, os relacionamentos familiares e interpessoais, e as dinâmicas inconscientes que envolvem as todas as relações.

Através de seus estudos e das constelações familiares, Hellinger ampliou nosso entendimento sobre a visão sistêmica, demonstrando que somos influenciados pelas histórias vivenciadas por nossos antepassados, nos identificando e até mesmo repetindo seus dramas, comportamentos e dificuldades, teoria que vem sendo comprovada pela psicologia, pelos estudos sobre a herança transgeracional dos traumas e por pesquisas na área da epigenética, dentre outros estudos em abordagens translacionais.

Esses estudos comprovam cada vez mais o efeito transformador que advém das experiências de vida, mostrando como as nossas decisões, escolhas e  atitudes são interligadas, decorrem e ao mesmo tempo interferem com as histórias de outros que vieram antes de nós e virão a seguir em nosso sistema familiar, uma verdadeira teia de relacionamentos interconectados e interdependentes entre as gerações, conforme nos ensina a teoria dos sistemas.

Retornando o tema do artigo, a questão da separação de um casal com filhos nunca é algo que ocorre sem deixar alguma consequência, por mais cuidadosa e conscientemente tenha sido feita, impactando tanto para os pais, na verdade para o casal, quanto para os filhos.

Não é tema desse artigo, porém é útil lembrar que também uma separação traz componentes transgeracionais que podem explicando padrões disfuncionais, revelando dificuldades nos relacionamentos afetivos de casais em gerações anteriores. 

Aqui há ressalvas que fazem a diferença em como essa família, principalmente a criança, será impactada com o processo da separação.

Quem se separa, quando a separação é saudável, é o casal, não os pais.

Os pais permanecem sempre unidos em nós, já que somos constituídos por ambos, em nível celular, genético, afetivo, em nossos corações. 

Possuímos um imprint das experiências de vida de ambos, mãe e pai, e também daqueles que vieram antes na família, dentro de nós.

Um casal que se une saudavelmente, inicia uma parceria, projetos de casal, e também continuam com seus projetos pessoais, olham um para o outro e ambos para a Vida, compartilham e multiplicam o amor, vivem a sexualidade, aprofundam continuamente seus vínculos.

Acredito que os casais são bem intencionados, e não casam para se separar, porém, durante a vida, por vezes, uma pessoa do casal, que caminha em paralelo, lado a lado, muda seu trajeto, por percepções diferentes, buscas, mudanças pessoais, acontecimentos inesperados, enquanto o outro continua em seu caminho original e não acompanha seu parceiro na mudança. 

Um simples desvio de fração de grau de uma linha paralela, metáfora que pode ser aplicada a um casal, ao longo do tempo, pode se transformar imperceptivelmente em um abismo intransponível. Quando perceberem, poderá ser tarde.

Há várias outras questões envolvidas, como a convivência e participação dos pais separados com os filhos, pensão, guarda compartilhada, visitas, férias, relação existente entre os próprios pais separados, mudanças na rotina, alteração no padrão de vida dentre outras.

São temas delicados que podem ser abordados de maneira mais ou menos suave ou conflituosa dependendo da consciência destes pais.

O pior cenário possível é a alienação parental de qualquer lado, o que afeta um filho muitas vezes por toda a vida, e o melhor é quando os pais se separam, mas mantém um convívio amistoso e colaborativo, priorizando os filhos numa parceria voltada para que esses sejam o menos possível afetados pela situação estressante da separação.

Muitas vezes a separação acarreta mágoa, raiva, ressentimentos, e um ou ambos pais usam os filhos para tentar atingir o cônjuge, falando mal a respeito do outro, dificultando sua vida e consequentemente do filho, afastando o filho da mãe ou do pai, proibindo visitas ou a participação na vida do filho, a conhecida alienação parental inclusive através de mentiras como suposto abuso sexual que não aconteceu ou queixas de maus tratos. 

As consequências são sempre prejudiciais, em vários níveis, para este filho. Certamente há casos onde o abuso ou os maus tratos realmente acontecem, e nesses casos atitudes firmes e até judiciais devem ser tomadas.

Costumam ocorrer, nas dinâmicas doentias de separação, doloridos processos judiciais, nos quais geralmente ninguém sai ganhando e todos sofrem, principalmente os filhos, se não agora, em algum momento futuro. Os filhos necessitam de ambos, pai e mãe, e também de suas famílias para terem referências saudáveis na vida.

Na primeira infância a presença da mãe é o primeiro amor, um amor que é semelhante, protetor e cuidadoso. O bebê sente que ele e a mãe são um só. Essa é a “função materna”, e o pai também deve exercer essa função junto à mãe.

A seguir os filhos necessitam do amor e da vivência do pai que os guiará e mostrará o mundo, o amor ao diferente, impulsionará a se lançarem para a vida, para a aventura. Essa é a “função paterna”.

Funções materna e paterna são polaridades, ambas necessárias para a Vida!

Como vemos, não há como prescindir de ambas qualidades de amor, ambas funções saudáveis, materna e paterna, pois sem elas carências afetivas ou problemas comportamentais podem surgir. 

Em casos onde os pais não possam exercer essas funções, outras pessoas na família poderão fazê-lo.

Se não há bom relacionamento entre os pais e filhos, recuperar esta relação deve ser a prioridade.

Já que a separação foi inevitável, deve-se passar a mensagem para os filhos, e agir de acordo, mostrando que quem se separou foi o casal, marido e mulher, porém os pais permanecem sendo pais, amarão e cuidarão deles apesar desta nova situação, e os filhos não são culpados ou tem nada a ver com as causas da separação, ideia que muitas vezes a criança carrega silenciosamente.

Os filhos devem sentir que continuam sendo amados por estes pais, e tendo um lugar em seu convívio, seu coração, atenção e cuidado.

Quando os pais tiverem novas uniões, devem cuidar para que os filhos da antiga relação sejam incluídos, especialmente se mais filhos nascerem destas novas relações.

Não deve haver diferença no cuidado e atenção, priorizando os novos filhos, e os novos parceiros devem ter o cuidado de aceitar e se relacionar bem com os filhos da antiga relação de seus cônjuges.

A visita dos filhos no lar daqueles pais com quem não costumam ficar deve ser motivo de alegria e união, e o acolhimento deve ser prioridade para que se sintam sempre bem neste novo convívio.

Sempre ocorrerá uma necessidade de adaptação deste filho e também dos pais, à rotina a qual não estão habituados, e ele deve estar ciente que em cada lar ele encontrará particularidades que devem ser seguidas.

Elas servirão para enriquecimento de seu repertório emocional e de vida, e não como opressão e tristeza.

O pai (ou mãe) e seu novo parceiro, que recebem este filho também necessitarão adaptar-se e experimentarão mudanças em sua rotina, mas a essência das relações deve ser sempre o amor e o cuidado, e quando há boa vontade, apesar das dificuldades, se pode superar qualquer limitação que apareça.

Dr. Roberto Debski
Médico e psicólogo
Facilitador em Constelações Sistêmicas

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