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Terça-feira

11 de Agosto de 2020

Resenha Esportiva

Espaço mantido pelos jornalistas Heitor Ornelas, Régis Querino e Bruno Gutierrez. O trio traz informações e comentários sobre o Santos Futebol Clube e tudo mais que acontece no mundo do futebol.

Sampaoli deve muito ao Santos. E a Santos

Se o argentino recolocou o Alvinegro em evidência, também deve ao clube e à Cidade a sua ressurreição no futebol

O que era encanto virou melancolia. Dois dias após atropelar o campeão brasileiro, com um show de bola na Vila Belmiro sobre os comandados de Jorge Jesus, Santos e Jorge Sampaoli deram fim a uma relação tão intensa quanto conturbada.

Se o Santos e os santistas devem agradecer a Sampaoli por recolocar o clube em evidência, jogando o futebol que o tornou famoso mundialmente, o argentino também deve ao Alvinegro, aos torcedores e à Cidade odes eternas de amor.

Foi aqui que o competente (e contestado) técnico renasceu para o futebol, após ter sido jogado às cordas na Copa da Rússia, no ano passado. Quando foi enquadrado em um levante, liderado por Messi, na seleção argentina. Em pleno Mundial.

Com a imagem arranhada, Sampaoli encontrou em Santos um porto seguro para reconstruir a sua carreira. Um ano depois, ovacionado pela torcida, sai de cena quase que pela porta dos fundos. Em meio a uma guerra de versões e acusações sobre o rompimento do casamento.

Apoio incondicional

Em um ano de altos e baixos do time, os torcedores assimilaram os tropeços do comandante, sempre enérgico (e por vezes turrão em suas concepções, como na insistência em escalar três zagueiros). Tudo em busca do perfeccionismo. O amor ao balón deu liga com uma torcida acostumada ao futebol bem jogado.

Se a troca de afagos entre técnico e torcedores foi comum ao longo da temporada, a metralhadora giratória do argentino sempre apontou para o presidente José Carlos Peres. Com seu estilo por  vezes amador de comandar, o cartola deu munição aos ataques do treinador.

E então, o 2020 que se desenhava como um período de colheita do bom trabalho realizado este ano virou pó. Desgastado com a perspectiva de não ter um time competitivo e assediado por Palmeiras e Racing, Sampaoli colocou Peres na parede. Ou R$ 100 milhões em reforços ou nada!

E aqui o argentino perdeu a razão. Fez o que mais criticava no presidente: blefou. Forçou a barra, para sair de boa com a torcida que tanto o idolatrou. Como se dissesse: “Eu quero ser campeão, mas ele (presidente) não quer me dar o que quero”.

Se Sampaoli tem motivos de sobra para ter bronca do dirigente, também precisa reconhecer que muitos dos seus pedidos foram atendidos em 2019. Ou Everson, Felipe Aguilar, Soteldo, Cueva e Uribe, só para citar alguns, não vieram com o aval do treinador?

Sampaoli esquece (ou lhe convém esquecer) que também foi responsável por um fracasso retumbante este ano, na vexatória eliminação na primeira fase da Copa Sul-Americana. Para o desconhecido River Plate do Uruguai.

Ele talvez não lembre que as goleadas sofridas durante o ano e mais uma queda, desta vez para o mediano time do Atlético-MG na Copa do Brasil, não o derrubaram. Raríssimos clubes brasileiros o manteriam no cargo com tal histórico ao longo de pouco mais de um semestre de trabalho.

Despedida indigesta

Como todo trabalhador, Sampaoli tem o direito de desenvolver a sua atividade profissional onde bem entender. Se há um contrato em vigor e previsão de multa, que a pague e vá ser feliz. Se o período da multa expirou, o caminho está livre. Neste aspecto, a Justiça dará o seu veredicto à  guerra de versões.

Depois de dizer várias vezes, nas últimas semanas, que Santos foi um dos lugares em que mais se sentiu feliz em sua vida (voltou a repetir a fala em carta divulgada nesta quarta, 11), Sampaoli poderia simplificar a sua saída. Em coletiva, anunciaria a sua decisão, lamentando a impossibilidade de continuar. E sairia aplaudido pelos torcedores.

A sua postura para abandonar o navio, no entanto, foi de confronto. Aproveitando-se da fragilidade do presidente, que não goza de prestígio junto à maioria dos santistas, o técnico preferiu o embate.

E sujou a sua imagem, assim como quando deixou o Sevilla, da Espanha, na mão para assumir a Argentina. Como também já havia saído mal da seleção chilena para comandar o time espanhol.

O futuro do argentino, segundo jornalistas da mídia paulistana vêm dizendo há dias, será no Allianz Parque. Curioso que vários destes, no início do ano, zombavam de Sampaoli após as goleadas sofridas pelo Santos no Paulistão. E sempre previam um prazo (furado) para a saída do treinador da Vila Belmiro.

Valorizado e curtindo férias no Rio de Janeiro, Sampaoli pode se dar ao luxo de ouvir propostas. E até de esperar a decisão de Jorge Jesus, que só vai definir a sua permanência no Flamengo após o Mundial de Clubes.

Que o futuro lhe reserva um contrato mais polpudo e um clube com mais poderio financeiro, não há dúvida. O respaldo que teve durante a temporada na Baixada Santista, no entanto, é tão incerto quanto a certeza de que, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar do mundo, os Meninos da Árvore, seus “amigos mais leais”, como ele mesmo disse,  não estarão ao seu lado para lhe amparar.

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