EDIÇÃO DIGITAL

Domingo

25 de Agosto de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Um pedido ao cético amigo

Um grande amigo jornalista, antes mesmo do término da estratégica e feliz partida do Palmeiras contra o Santos, que venceu por 4 a 0, no Pacaembu, mandou uma mensagem provocativa

Um grande amigo jornalista, da melhor estirpe, tanto pessoal como profissional, antes mesmo do término da estratégica e feliz partida do Palmeiras contra o Santos, que venceu por 4 a 0, no Pacaembu, mandou uma mensagem provocativa, aliás, como faz comumente sobre os mais variados assuntos. Ele mandou pelo WhatsApp: “Professor Pardal ferrou o Santos, era para ser de 6”.

De pronto, respondemos: “...Não entendemos a escalação”. E ainda perguntamos se Rodrigo estava machucado, única justificativa para deixá-lo no banco, pelo talento raro e personalidade, apesar de jovem. Meu velho parceiro de jornalismo exerceu novamente sua veia provocativa: “Vai inventar assim na Argentina...”. Ponderamos que Jorge Sampaoli, ao definir o time e o plano tático, deve ter tentado surpreender o Palmeiras, como fez com o Grêmio, em Porto Alegre, na primeira rodada do Campeonato Brasileiro.

Por fim, antes do tradicional “boa noite”, arrematou: “Ainda não me convenceu”. Nós concluímos que, independentemente do resultado, o trabalho não pode ser invalidado. Aliás, esperamos que os dirigentes mantenham o pouco bom senso que têm demonstrado e apoiem o treinador. Pela filosofia de Sampaoli, não foi a primeira e nem será a última goleada. Seu “DNA” é ofensivo.

Não estamos entre aqueles que julgam um trabalho por uma curta sequência de resultados, positivos ou negativos. O futebol, mais até que outros esportes, exige tempo, paciência e profissionalismo. Os grandes centros europeus, como Inglaterra, Alemanha, Espanha e até a França, são um bom exemplo. Mudança de técnico em meio de temporada dificilmente ocorre, observa-se apenas em casos extremos. Nem mesmo uma eliminação precoce de uma Liga dos Campeões derruba treinador.

Pelo contrário, a preocupação maior é assimilar a experiência e investir na melhoria da qualidade técnica do elenco. Poucos são os clubes que iniciam as competições sem o grupo completo, até pela imposição de limites das chamadas “janelas de contratação”.

No Brasil, infelizmente, acontece o contrário, praticamente não há prazo para contratações. E, na maioria das vezes, elas ocorrem de “afogadilho”, quase na base do desespero e em razão de eventuais resultados de momento. Nessa linha, a possibilidade de erro é bem maior, até por falta de opções.

A contratação de Cuevas pelo Santos é um bom exemplo, assim como a atual movimentação para viabilizar a vinda de um centroavante, pelo menos como opção tática em determinadas partidas. Na Vila Belmiro, fala-se em Uribe, do Flamengo, Marinho, do Grêmio, e até Ricardo Oliveira, cuja saída foi mais um erro da atual diretoria. A exceção desse último, os dois nem na reserva estão sendo aproveitados por seus clubes.

Sem dúvida, Jorge Sampaoli cometeu graves equívocos no jogo desse último sábado. Tanto na escalação como no aspecto tático. É preciso lembrar, porém, que o adversário é o atual campeão brasileiro, tem um elenco milionário e de grande qualidade e, por fim, desenvolve um trabalho desde o ano passado.

O Santos, ao contrário, tem um elenco limitado em termos numéricos e, em alguns setores, carece de melhor qualidade técnica. A análise do trabalho de Jorge Sampaoli tem que passar obrigatoriamente por esse contexto. Sem contar a instabilidade administrativa, com suspeitas de toda ordem, rejeição de contas da diretoria e ameaças veladas de novos pedidos de impeachment.

A essa diretoria damos apenas o crédito de ousar na contratação do treinador. Há, ainda que veladamente, certo preconceito no Brasil contra técnicos estrangeiros. É uma pena, a troca de experiências é muito importante. Escolas e estilos diferentes são fundamentais para a oxigenação do nosso futebol, que há muito entrou em processo de decadência.

Não foi por acaso que o técnico Tite, da seleção brasileira, convidou Jorge Sampaoli para uma palestra e troca de ideias com treinadores brasileiros na sede da CBF. Se não observasse méritos no trabalho do profissional argentino, jamais o chamaria a um encontro tão importante.

Ao cético amigo de tantas jornadas, pedimos um pouco mais de paciência. E que reconheça que o Santos, assim como muitos outros clubes da Séria A do Campeonato Brasileiro, tem suas limitações.

P.S.: Jamais haverá unanimidade em torno de uma convocação para a seleção brasileira. Sempre ocorrerão críticas e divergências, quadro absolutamente normal, afinal, todos nós temos um pouco de “técnico e de médico”. Porém, preterir Dedé, do Cruzeiro, em favor de Thiago Silva demonstra até falta de isenção.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.