EDIÇÃO DIGITAL

Domingo

22 de Setembro de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Um estranho no ninho: ter ou não ter, eis a questão

Ter ou não ter um centroavante fixo, aquele com o perfil tradicional, que vive na área, pronto para marcar e ser artilheiro? Discussão está na rua e envolve diretamente o Santos

A questão é o nove de antigamente. Ter ou não ter um centroavante fixo, aquele com o perfil tradicional, que vive na área, pronto para marcar e ser artilheiro. Do tipo Serginho Chulapa ou Fred, do Cruzeiro, ou ainda Borja, do Palmeiras.

A discussão está na rua e envolve diretamente o Santos, que, a rigor, não tem um centroavante que viva intensamente a área. Para muitos, ao time falta esse jogador “matador”, para outros, não há necessidade. Pronto: está criada a polêmica.

Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, do Planejamento, da Agricultura (consta que, ao ser indicado para esse último, teria dito “olha que eu nunca plantei uma batata”), embaixador do Brasil na França, dentre outros cargos que ocupou, na condição de respeitado economista e responsável pelo milagre econômico que nunca ocorreu, afirmou: “Números não se agridem”.

Convenhamos, tem total razão. Voltando ao futebol, sem um homem fixo na área, no Campeonato Paulista, na primeira fase, o Santos fez 12 jogos e obteve 7 vitórias e dois empates e sofreu três derrotas. O time marcou 19 gols e levou 13, consolidando um saldo positivo de 6.

Nas quartas e semifinal, contra Red Bull Brasil e Corinthians, nos quatro confrontos, fez mais 4, totalizando 23 gols, em 16 partidas, e sofrendo 15. Sem contar a Copa do Brasil, só no último jogo, contra o Atlético Goianiense, foram mais 3.

Em tese, o tal centroavante não fez falta, pela classificação obtida com facilidade no Campeonato Paulista e, principalmente, pelas grandes performances táticas. Em todas, sem exceção, a ofensividade da equipe foi patente, entusiasmando até os adversários e críticos.

É verdade que foram muitos os sustos e momentos de tensão, como, por exemplo, na classificação contra o time de Goiânia. Mesmo vencendo por 2 a 0, resultado que garantia a vaga, o time continuou atacando “desesperadamente”, confirmando o DNA ofensivo e a filosofia do treinador. Se expôs de uma maneira absurda, levando duas bolas na trave e até exigindo um milagre do goleiro Éverson. Um gol e o jogo iria para a disputa de pênaltis.

Não faltou quem não o qualificasse de “louco”. Tratando-se de argentino, nenhuma novidade. Não podemos esquecer de Marcelo Bielsa, 63 anos, nascido em Rosário, conhecido como “El loco Bielsa”, outro adepto do futebol ofensivo, atualmente dirigindo o Leeds United, da Inglaterra.

Em realidade, pelo estilo de Jorge Sampaoli e pelos números, o centroavante tradicional não fez nenhuma falta. Na ótica do treinador, o futebol atual não comporta mais jogadores de funções fixas e limitadas, este esporte exige hoje movimentação constante e participação total, no melhor estilo holandês que encantou o mundo em 1974 e 1978.

Em seus últimos trabalhos, apenas no Sevilha, da Espanha, Sampaoli tinha em seu elenco um atacante de área permanente. Na seleção do Chile, com quem foi campeão da América, usava Alexis Sánchez e Vargas, na prática dois atacantes móveis, e em La U (Universidad de Chile) sempre utilizou tal expediente.

No Santos, hoje, quase todos têm a obrigação de marcar gols, independentemente da posição. Até Jean Mota virou artilheiro, além de Carlos Sánchez, uruguaio que de centroavante não tem nada. Há ainda o paraguaio Derlis González, que também vive grande fase técnica.

Sem contar Rodrygo, um jovem com um potencial incrível que, infelizmente, já foi vendido ao Real Madrid e pode deixar o clube em poucos meses. Talvez principalmente pela saída dessa grande revelação, o ideal é que a diretoria trabalhe e contrate mais um atacante, afinal, o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, se o Santos passar pelo Vasco, serão bem mais difíceis.

Pode até ser um com característica de centroavante, mas que seja moderno, caso contrário será um estranho no ninho de Sampaoli e equipe.

Na peça “A tragédia de Hamlet”, príncipe da Dinamarca, surgiu a famosa frase de William Shakespeare: “Ser ou não ter, eis a questão”.

No caso do Santos, podemos adaptar: “Ter ou não ter, eis a questão”.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.