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Segunda-feira

21 de Outubro de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

God save the king, Pelé

Apesar de não vivermos um sistema monárquico, nós temos a nossa majestade; e ela tem nos pregado algumas “peças”

De pronto, a intenção é apenas saudar o nosso Rei. Sim, apesar de não vivermos um sistema monárquico, ainda que aventureiros continuem tentando restabelecer a monarquia no Brasil, nós temos a nossa majestade. E ela tem nos pregado algumas “peças”.

E não apenas no Brasil. Talvez por sua dimensão, não escolhe lugar e nem hora. Nos assusta e ponto final. A última foi em Paris, mas já “aprontou até nos Estados Unidos”. O curioso é que foi na capital francesa que ele foi eleito o “Atleta do Século XX”.

Nosso Rei Pelé está internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em razão de uma forte infecção urinária. Talvez tenha até que se submeter a uma pequena cirurgia, para retirada de um cálculo renal. Aparentemente, um caso simples, até de rotina, conforme nossos parcos conhecimentos médicos.

Que bom! Um Rei não tem direito de provocar tensões de tempos em tempos nos seus súditos. E mais: que drible logo esse problema, não estamos dispostos a viver a base de boletins médicos. Pelo menos continua bem-humorado, já avisou Jorge Sampaoli que não poderá jogar domingo.

Particularmente, como profissional e amigo, tive inúmeras passagens com o Rei Pelé. Aliás, eu e grandes profissionais como Eduardo Silva e José Carlos Gomes, dentre outros. Um dia contaremos tudo.

Foram muitas as entrevistas, conversas, no Brasil e no exterior, encontros festivos e até um grande jogo de tênis na sua casa em Acapulco. Foi um dia maravilhoso, uma partida de duplas: Franz Beckenbauer e eu e Pelé e Simone Calves, minha mulher, na época ainda jogadora profissional.

É lógico que vencemos, por dois sets a zero, afinal, o Kaiser jogava bem, eu fazia o trivial e a estratégia foi perfeita: bola no rei e rede, como manda a boa tática duplista. Desculpem, por mais absurdo que possa parecer, dos quatro Pelé era o mais fraco. Tinha um bom forehand e muito preparo físico, mas tais atributos, para quem joga e conhece um pouco esse esporte, não são suficientes para garantir uma vitória no tênis.

Quem duvidar é só pesquisar as páginas de A Tribuna. Lá está uma grande matéria sobre o “verdadeiro jogo real”. Um Rei, um imperador e dois súditos e admiradores fiéis. Depois teve churrasco e muita conversa sobre futebol e tênis. A amizade entre “os reais” se consolidou quando ambos jogaram no Cosmos, de Nova Iorque.

Essa foi uma das grandes oportunidades profissionais e pessoais que o Rei nos proporcionou. Em outra, nos permitiu uma conversa reservada com “Dona Celeste” na casa do canal 6. Não me lembro ao certo, concedam-nos, por, por favor, o benefício da dúvida, mas, durante a Copa de 58 ou 62, Pelé avisou à mãe que lhe daria um fogão (ou geladeira) para ampliar o conforto em casa. Terminou em discussão, afinal, a casa não tinha estrutura para tal item sofisticado.

Outra, cujo conteúdo ele e eu guardamos até hoje, num pacto firmado na hora, ocorreu no escritório da Rua Riachuelo, em Santos. Ao entrar na sala, Pelé escrevia uma carta e, por uns instantes, sequer levantou os olhos e abriu o sorriso para nos receber. Logo depois, revelou que preparava uma carta para seu filho Edinho, na oportunidade preso, salvo engano, na penitenciária de Tremembé. Ao ler um bom trecho, o Rei chorou. Juramos fazer segredo do conteúdo e mantemos até hoje.

Sua dor era grande! E nos contagiou de imediato. O choro foi inevitável.

Desse episódio, o mais importante, que perdura até hoje, é o sentimento familiar do Rei, ressaltado sempre em prosa e verso. Era assim também com o Pai, irmão e irmãs. Aliás, Zoca tinha boas qualidades técnicas, só não se consolidou como bom jogador por que queriam que ele, a cada jogo, fizesse o mesmo que o irmão. Impossível, é óbvio.

Histórias e brincadeiras à parte, dói muito ver o Rei com problemas de saúde. Observá-lo, por exemplo, numa cadeira de rodas é absurdo, contraria toda sua história de resistência à violência que sofreu nos campos do mundo.

Ninguém é eterno, sem dúvida, nem os reis e rainhas. Porém, se Deus quiser, nosso Rei se livrará de mais essa e, em breve, estará conosco, com seu sorriso contagiante e um humor que sempre marcou sua carreira.

“God save the Queen” é um hino usado em certos países dos Reinos da Comunidade das Nações, territórios e dependências da coroa britânica. Normalmente, tais palavras são adaptadas para o gênero do atual monarca do Reino Unido. Por exemplo: a substituição de “Rainha” (Queen), por “Rei” (King).

Está na história.

Portanto, nada impede que, juntos, exclamemos:

“God save the King”.

Em todos os sentidos.

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