EDIÇÃO DIGITAL

Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Júnior Bozzella

É bacharel em Direito, empresário, deputado federal (PSL/SP) e membro do diretório nacional do partido. Foi superintendente da Funasa no Estado de São Paulo, vereador na cidade de São Vicente (SP), além de suplente de deputado estadual e candidato a prefeito no município.

Aos mestres mais reconhecimento

A profissão que deveria ser uma das mais valorizadas por qualquer nação é uma das menos prestigiadas no nosso país

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, disse certa vez Paulo Freire, um dos maiores educadores do Brasil.

Por essa lógica está nas mãos dos educadores o futuro não só dos nossos jovens e crianças, mas da nossa nação. Alguém que não conheça o cenário dos professores no Brasil poderia imaginar que são eles, então, a categoria mais bem remunerada de profissionais, dado a importância e responsabilidade do ofício que exercem, mas a realidade do professor no nosso país é bem diferente: muito trabalho, salários menores do que se imagina, falta de respeito dos alunos e um dos piores sistemas educacionais do mundo.

A profissão que deveria ser uma das mais valorizadas por qualquer nação é uma das menos prestigiadas no nosso país. O Brasil ocupa a última posição do ranking de prestígio de docentes. A pesquisa foi realizada em 35 países e divulgada pela Varkey Foundation, entidade dedicada à melhoria da educação mundial.

O ranking de prestígio geral também trouxe números desanimadores, e aponta que menos de 1 em cada 10 brasileiros (9%) acha que os alunos respeitam seus professores em sala de aula, colocando o Brasil mais uma vez em último lugar do ranking. Na China, país com a melhor avaliação, 81% das pessoas acreditam que os docentes são respeitados pelos alunos, número 9 vezes maior que no nosso país.

O levantamento mostra ainda que 88% dos brasileiros consideram a profissão de professor como sendo de “baixo status”, o segundo pior lugar do ranking mundial, perdendo apenas para Israel, onde 90% dos cidadãos pensam da mesma forma. Isso reflete no interesse cada vez menor pela profissão. Hoje, apenas 1 em cada cinco brasileiros incentivariam o filho a ser professor, a sétima pior posição global. Em comparação, na Índia, 54% dos pais dizem que encorajariam o filho a lecionar.

A falta de respeito de alunos para com os professores são os maiores agravantes desse cenário caótico onde a desigualdade econômica e a violência urbana atuam como fatores que prejudicam o ensino e afetam o professor, tanto no desenvolvimento da sua profissão quanto no cotidiano do trabalho.

Os inúmeros casos de violência contra professores registrados nos últimos anos acendem um alerta. Em 2018, foram registrados 434 ROEs (Registros de Ocorrência Escolar) referentes a violência física dentro da sala de aula. Em média, são 2,17 agressões físicas por dia letivo contra professores.

Esse número quase duplicou em comparação ao ano de 2014, quando foi implementado o ROE. Naquela ocasião, foram registradas 237 ocorrências, cerca de 1,2 agressão ao dia letivo, representando um aumento de 83% nos últimos cinco anos.

Em fevereiro e março deste ano, os dois primeiros meses de aula de 2019 segundo o calendário oficial, foram registradas 57 agressões a professores na sala de aula.

De acordo com o calendário estadual, e os dados da secretaria estadual de educação que em maio deste ano apontava 5.368 escolas estaduais com aproximadamente 3,6 milhões de alunos, nas escolas estaduais paulistas, pelo menos 2 professores são agredidos a cada dia.

O número de professores no Brasil passa de 2,5 milhões, segundo censos educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) referentes a 2017. Desse universo, 340 mil professores estavam atuando.

Apesar do interesse cada vez menor da população por seguir a carreira docente, o Brasil é o país que paga pior seus professores do ensino fundamental ao médio entre 40 países ou sub-regiões, membros ou parceiros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o estudo “Education at a glance” os professores brasileiros ficam em última posição em quase todos exceto na educação infantil.

A pesquisa, publicada anualmente pela OCDE, analisou o cenário educacional em 46 países ou regiões, mas, no caso dos salários de professor, apenas 40 disponibilizaram dados. O  De acordo com o relatório, o Brasil paga salário mínimo de US$ 13.971 por ano para seus professores. O país tem um piso salarial para toda a educação básica, e, diferente de outras nações, não há variação de uma etapa para outra.

Nos primeiros anos do ensino fundamental, o salário mínimo anual brasileiro é bem abaixo do montante de US$ 70.192 pago em Luxemburgo, país com melhores rendimentos. Os professores brasileiros também ganham menos que docentes de países vizinhos como o Chile, onde eles recebem inicialmente US$ 23.429 por ano. O país também fica atrás da média dos países da OCDE (incluindo a Lituânia, que entrou recentemente no grupo), que registra salário anual inicial de US$ 31.919.

No segundo segmento do fundamental, o Brasil continua com o salário inicial anual de US$13.971 na última posição, enquanto a média da OCDE sobe para US$ 33.126. No ensino médio, os países da OCDE pagam em média US$ 34.534 por ano, e o Brasil segue com o mesmo salário inicial anual.

Nesta terça-feira, dia 15, é Dia do Professor, e como vimos, infelizmente hoje eles têm muito pouco para comemorar.

Diante disso, vemos que é nosso dever como homem público criar mecanismos para mudar esse cenário. Realizar campanhas de conscientização e valorização dos professores, criar leis que garantam a segurança dos mestres e punições mais duras àqueles que coloquem em risco a integridade física dos docentes, garantir que os professores tenham estrutura e condições dignas de trabalho nas escolas, promover a integração entre a família e o ambiente escolar, investir em um modelo educacional embasado na valorização do professor, resgate da ética e cidadania e na disciplina, como por exemplo a implantação das escolas cívico-militares.

Na Câmara dos Deputados levantamos a bandeira dos educadores e votamos a favor da mudança em um dispositivo da Reforma da Previdência que beneficia professores que já estão próximos da idade de aposentadoria.

A alteração, que atinge uma das regras de transição entre o antigo e o novo sistema previdenciário, reduz a idade mínima para que os professores tenham direito ao benefício. Com a alteração aprovada pelo plenário,  o texto da reforma prevê que a idade mínima de aposentadoria de professores seja cinco anos menor que a dos demais trabalhadores.

Também estamos destinando milhões de reais em emendas para serem investidos na Educação dos municípios paulistas. Esse é só um começo, pois ainda há muito para ser fazer pelos professores e pela educação no Brasil. Entretanto, reconhecer a desvalorização porque passam os professores, e a necessidade de ações que venham a mudar esse cenário é, sem dúvida, um primeiro passo.

Tudo sobre:
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.