EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

18 de Novembro de 2019

José Luiz Tahan

Livreiro da Realejo, editor, ilustrador e idealizador do festival Tarrafa Literária. Nasci em Santos em 1971, comecei como livreiro na mítica Livraria Iporanga aos 18 anos. Em 2001 criei a Realejo Livros e na sequência evoluímos para sermos editores. E, em 2009, estreamos o festival Tarrafa Literária. A parte desses trabalhos todos mantenho o desenho e ilustrações na minha vida. E um futebolzinho também.

O fim de um cinema

Resolvi pensar alto sobre o fim do cinema do shopping Miramar, no Gonzaga. Demorei, mas aqui vão alguns resmungos, causos e palpites

Dizem que notícia ruim é mais eficaz do que a boa, que espalha mais rápido. Talvez seja porque somos mórbidos, secadores anônimos, ou apenas fofoqueiros, pendurados nas nossas janelas espreitando a vida dos outros.

Quando se anunciou o fechamento das salas de cinema do shopping Miramar, no Gonzaga, pensei: lá vem a enxurrada de lamentos, reclamações de que coisa boa não vende, de que a cultura vai mal das pernas por aqui em Santos e no Brasil.

Para quem não sabe, o Miramar abrigava três salas de cinema dito de arte, filmes de circuitos menores, muitos europeus e brasileiros.

Santos tem tradição em consumir cinema, somos uma das cidades mais cinéfilas que se tem notícia, mas aí vai uma nota dissonante do que li sobre a maioria das reclamações dos viúvos das salas. De uns tempos pra cá, bons anos, as salas davam sinal de cansaço. Piso, poltronas rasgadas ou quebradas, teto com rombo, ar-condicionado fora de grande performance. Ora, os clientes não são missionários, são apenas clientes, amantes da arte na película, da sétima arte, e nem por isso precisam acatar a precariedade das instalações.

Eu, por conta de ter três filhos ainda pequenos, tenho visto mais blockbusters da Marvel, Disney e que tais, e torço para que eles gostem de variar seus consumos de cinema para descobrirmos juntos filmes, culturas diferentes por meio do cinema. Mas assumo, estou até agora com pouca autonomia para ir ao cinema sem eles, fica a torcida.

Concordo, também, que os negócios precisam ficar no azul, ter faturamento, mas se o empresário não ajudar, fica mais difícil. Mais divulgação, criações e eventos ajudam, exemplo do Festival Varilux, evento anual do cinema francês que acontecia nas salas.

Virá por aí uma nova rede para ocupar o espaço, será de cinema mais popular, mais comercial, e por consequência, mais óbvio.

A boa notícia, e que bom que nesta história há a boa notícia, é que outro grupo de cinemas da cidade se animou a ocupar este espaço vago. O Toninho Campos, da rede do Cine Roxy, resolveu destinar como espaço de cinema de autor uma das salas do Pátio Iporanga, para exibição de películas mais artísticas, ou alternativas.

Mas, deixa uma ameaça no ar, já avisando aos futuros cinéfilos, que se não houver público, não haverá mais o cinema de arte.

Enquanto isso, na praia, o Posto 4 segue adiante.

Bem, fica aqui o convite, vamos ao cinema juntos? Chamem os amigos e vamos aborrecer o Toninho dizendo que fomos, combinado?

Obrigado pela preferência, voltem sempre!

Tudo sobre:
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.