Ivan Sartori

Desembargador aposentado, ex-presidente do Tribunal de Justiça, mestre em Direito da Saúde e professor de Direito Civil na Universidade Santa Cecília (Unisanta).

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Neste momento, golpe militar é peça de ficção

O fantasma do golpe militar não passa de uma narrativa tosca, um rascunho mal feito de teoria da conspiração

A Pesquisa Datafolha divulgada recentemente indica que 75% dos entrevistados consideram a democracia o regime mais indicado. Segundo o mesmo levantamento, 10% responderam que, em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático.

O apreço pela democracia, expressado maciçamente na pesquisa, chama a atenção para um ponto de vista absolutamente desprezado por grande parte da mídia enviesada e pelas narrativas defendidas pela imensa maioria dos que se abrigam no campo ideológico oposto ao do presidente Bolsonaro.

Independente dos fatos, no melhor estilo de Joseph Goebbels, essa espécie de torcida organizada e barulhenta, fica pregando aos quatro ventos que o processo democrático está prestes a ser rompido pelos militares. Porém, em uma análise fria das circunstâncias ou dos fatos, não há nenhuma atitude, lei ou iniciativa do governo federal que possa dar o mínimo respaldo a essas afirmações, começando pela ampla liberdade de imprensa, uma realidade inegável.

Faço esse recorte para propor uma reflexão, uma leitura diferente, até porque, em termos de parâmetros de uma pesquisa científica, pouco ou quase nada se aproveita do trabalho em questão. Permito-me, inclusive, questionar a metodologia proposta, já que o Datafolha, muitas vezes, se comporta como um mero braço de um grupo de comunicação de linha editorial totalmente contrária ao que defende o atual governo. Na verdade, a agenda conservadora é que tornou vitoriosa a campanha legitimada pelo voto popular e que colocou Jair Bolsonaro na condição de presidente do Brasil.

Vale dizer, o Datafolha parece não produzir pesquisas para aferição da opinião pública mediante um fato concreto e sim para gerar discussões midiáticas que baseiem e validem seus princípios e ideologia, causando, não raro,, mais confusão do que esclarecimento.

Objetivamente, o índice de 10% dos que preferem a ditadura projeta que o regime democrático é quase consenso entre o eleitor brasileiro, o que não deixa de ser um ótimo indicativo. Isso prova também que a tentativa de marginalizar eleitores do governo federal, imputando-lhes os piores adjetivos possíveis, os classificando como fascistas, incultos, intolerantes e tratando-os como gado, só comprova o quanto seus detratores são preconceituosos e míopes, pois só conseguem admitir o pensamento único, aliás, uma forte características dos governos marxistas e comunistas ao longo da história. 

Ademais, a pesquisa também pode dar respaldo à realidade de que as faixas que pedem a volta do AI-5, fechamento do Congresso Nacional e do STF, e a própria intervenção militar, na verdade, representam um grupo minoritário entre os apoiadores do governo Bolsonaro.

Não há dúvida de que nossa Constituição lhes garante esse direito de livre manifestação. Entretanto, o que se vê, contra esse grupo de cidadãos, é uma verdadeira caça às bruxas, com respaldo, inclusive, por integrantes da Suprema Corte, em inquéritos questionáveis juridicamente.

Em suma, o fantasma do golpe militar não passa de uma narrativa tosca, um rascunho mal feito de teoria da conspiração, com a aparente intenção de cassar o resultado da última eleição presidencial e saciar o inconformismo dos perdedores nas urnas. Certamente, há muitos procurando pelos ditadores no lugar errado.

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