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Terça-feira

31 de Março de 2020

Editorial A Tribuna

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Manifestações e protestos nas ruas

Nova rodada de protestos tomou conta das ruas das cidades brasileiras nesta semana

Nova rodada de protestos tomou conta das ruas das cidades brasileiras nesta semana. Organizados por entidades estudantis, MST, CUT e partidos de esquerda, as manifestações aconteceram em 129 cidades, e sua motivação era protestar contra a política educacional do governo federal, mas elas acabaram por se converter em uma série de atos de oposição ao presidente Jair Bolsonaro.

A avaliação foi que os protestos se aproximaram, em número e intensidade, daqueles que aconteceram no último domingo, quando apoiadores do governo mobilizaram-se a favor das reformas da Previdência e do pacote anticrime do ministro Sergio Moro, mas resultaram inferiores aos que ocorreram no dia 15 de maio, quando foram realizados atos em defesa da Educação, contestando os bloqueios no orçamento da área que foram determinados pelo Palácio do Planalto.

O clima continua tenso e a reação do Ministério da Educação, divulgando nota que circulou nas redes sociais pedindo à população que denunciasse professores, servidores, funcionários, alunos e pais de alunos que promovessem manifestações em horário escolar, foi exagerada e inadequada. Não se discute a motivação dos protestos - a natureza, extensão e possibilidade de reversão dos bloqueios das verbas da Educação - e insiste-se no confronto com o movimento, estimulando que cidadãos que se sentissem constrangidos de alguma forma a participar dos protestos que procurassem a ouvidoria do Ministério.

Os problemas são reais e persistem. Apesar do contingenciamento inicial de R$ 7,4 bilhões ter sido reduzido em 21% na semana passada, a estimativa de corte nas universidades federais continua em torno de R$ 2 bilhões, representando 30% da verba discricionária (que não inclui gastos obrigatórios como salários), e o bloqueio na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que financia bolsas de pesquisa, atingiu R$ 819 milhões, 19% de sua verba total.

Manifestações públicas são legítimas e fazem parte do cotidiano da democracia. Em uma semana, o País assistiu dois conjuntos de atos que se opuseram - um a favor do governo; outro protestando contra sua política de educação - e isso aconteceu em ambiente de normalidade e tranquilidade, sem confrontos ou violência. Não se pode, porém, imaginar que a rotina de protestos domine a cena nacional. Há inevitável refluxo e esvaziamento diante da repetição mecânica dos atos, e seus organizadores devem ter consciência dos riscos em tentar mobilizar a população, principalmente para responder e mostrar força diante de manifestações adversárias.

Povo nas ruas é sinal de vitalidade democrática, mas insistir na prática pode cansar e comprometer os objetivos dos movimentos. Política se faz de várias formas, todos os dias, e protestos são apenas uma das modalidades. 

 

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