Editorial A Tribuna

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Escândalo constrangedor

O desvio dos recursos da covid-19 parece ser o que menos importou no mundo de vaidades e conchavos políticos da Capital Federal

O senador flagrado pela Polícia Federal com R$ 33,1 mil na cueca não se trata apenas de mais um escândalo da classe política. Aliás, na superfície da análise a situação parece cômica, afinal, é difícil imaginar ser possível esconder tanto dinheiro na região das nádegas. Porém, o caso de Chico Rodrigues (DEM-RR) é trágico, pois se tratava de um vice-líder do governo no Senado, portanto, de confiança do presidente da República. Além disso, a PF atribuiu a Rodrigues o envolvimento no desvio de recursos da covid-19, o que é uma afronta à sociedade em tempos de crise sanitária e de deterioração das contas públicas devido aos próprios gastos com o novo coronavírus. Apesar do alvo da operação policial ter sido surpreendido em casa, em Boa Vista (RR), é mais um a desnudar a bolha que isola Brasília. Entre os que estão lá, há os que ignoram as reais necessidades dos brasileiros, sentem-se impunes ou acham que o dinheiro público é infinito e está lá para se servir.

Em meio a várias circunstâncias políticas, essa operação tira qualquer dúvida sobre as dimensões do cerco da corrupção aos recursos da covid-19, que tiveram seus trâmites licitatórios dispensados para que as vítimas da pandemia fossem socorridas a tempo. Em poucas semanas, as autoridades policiais e o Ministério Público passaram a identificar esquemas de desvio dessas verbas em vários pontos no País. No caso atribuído ao senador, a PF e a Controladoria-Geral da União identificaram sobrepreço de quase R$ 1 milhão só com kits de testes rápidos.

Casos semelhantes ao do senador já foram noticiados diversas vezes, com outras situações de dinheiro escondido na cueca, nos bolsos, na cintura e até nos sapatos ou ainda nesses pontos simultaneamente por se tratarem de grandes quantias. Entretanto, desta vez tomou proporções de grande escândalo político. Há poucos dias o presidente Jair Bolsonaro passou a discursar que acabou com a Lava Jato (não é atribuição dele) porque não há corrupção no governo. Bolsonaro alegou que Rodrigues era apenas um de seus 18 vice-líderes no Parlamento. Porém, são amigos há duas décadas, com fotos entre eles e de Rodrigues com Eduardo Bolsonaro. A explicação presidencial não convenceu os adversários nas redes sociais, onde pipocaram hashtags em tom de escárnio. Trata-se de munição clara para esta eleição e a de 2022.

Para completar a gravidade do caso, a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso de afastar Rodrigues causou revolta nos senadores. Não porque pretendiam defender o colega, mas por concluírem que o magistrado desrespeitou a autonomia do Senado de afastar seus pares e, nos bastidores, por verem um risco de se tornarem alvo fácil de futuras operações e da humilhação pública. No final das contas, o desvio dos recursos da covid-19 parece ser o que menos importou no mundo de vaidades e conchavos políticos da Capital Federal.

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