Editorial A Tribuna

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Crime organizado fora da agenda

As travas, configuradas em forma de ameaças, têm sido impostas por facções criminosas a candidatos aos legislativos e executivos do PSDB e partidos aliados no pleito deste ano

Passou quase sem alarde reportagem feita por A Tribuna, há uma semana, sobre a dificuldade que alguns candidatos têm enfrentado para desenvolver suas campanhas em comunidades carentes, notadamente nas periferias das cidades da região.

As travas, configuradas em forma de ameaças, têm sido impostas por facções criminosas a candidatos aos legislativos e executivos do PSDB e partidos aliados no pleito deste ano. Em alguns casos, o recado é direto: insistir em fazer campanha ou gravar imagens nesses locais significa colocar em risco a própria vida ou das equipes de campanha. Por obediência e receio, todos recuaram.

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O fato não é novo. Em eleições passadas, estratégias precisaram ser mudadas por conta de ameaças semelhantes, mas provavelmente propósitos distintos. Se antes o objetivo era auxiliar candidatos supostamente apoiados pelo crime e evitar a ascensão dos demais, o foco agora parece ser outro: retaliar o atual governador, João Doria, pela política de segurança adotada no Estado. Dessa forma, todo aquele que esteja concorrendo pelo partido do governador ou seus coligados receberá o devido alerta.

Situações assim transcendem qualquer análise racional, qualquer debate razoável entre os entes envolvidos, qualquer possibilidade de entendimento sobre como foi que aqui se chegou. Para além de buscar soluções factuais para essa fotografia eleitoral, cabe perceber que qualquer caminho que se trace precisa passar, necessariamente, por políticas públicas mais profundas e estruturais.

A criminalidade se desenvolve e cresce na ausência do Estado e de tudo que ele representa: habitação, formação profissional, regularização fundiária, emprego e, claro, segurança. Se falta habitação, há espaço para aglomerados humanos com quase nenhuma estrutura e de difícil acesso. Se faltam educação e formação adequadas, jovens são facilmente convencidos a seguir caminhos alternativos. Se faltam emprego e oportunidade de trabalho, a renda será obtida de forma menos lícita. Se falta segurança, esses aglomerados urbanos tornam-se núcleos vulneráveis e sujeitos a regras próprias.

Não é de hoje que se acompanha a ascensão do crime organizado no País. E não só no Estado de São Paulo. Dados divulgados no último final de semana por um consórcio de entidades ligadas à segurança pública indicam crescimento das milícias na cidade do Rio de Janeiro. Tanto milícias quanto facções ligadas ao tráfico têm por trás um serviço de inteligência e estratégias de mercado muito bem montadas, muitas vezes, com o acobertamento ou leniência das autoridades. 

É urgente que se coloque o tema na ordem do dia, sem o negacionismo que marca os discursos oficiais. Candidatos aos executivos da região precisam inserir em seus programas de governo um capítulo inteiro sobre essa questão. Ou se tira a pauta da sombra agora, ou em breve os grupos estarão impondo novas regras. Para além das eleições. Para além das comunidades.

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