EDIÇÃO DIGITAL

Quarta-feira

17 de Julho de 2019

Editorial A Tribuna

A Tribuna é o maior e mais antigo jornal impresso a circular na Baixada Santista. São 125 anos contando e publicando histórias

Café, uma eterna commodity?

Brasil ganharia muito mais com a planta se contasse com participação maior do valor agregado

O Porto de Santos segue imbatível como complexo que mais exporta café no país, com embarque de 78,9% do total de grãos vendidos no ano-safra até o mês passado, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). O produto não é mais o principal item da exportação brasileira, mas tem sua importância social devido ao número elevado de fazendeiros e trabalhadores que sustenta, além de garantir receita cambial anual de US$ 5,3 bilhões.

Entretanto, o Brasil ganharia muito mais com a planta se contasse com participação maior do valor agregado. A cada dez sacas enviadas para todos os cantos do mundo, nove são do grão verde, ficando a restante com o torrado ou solúvel, obviamente mais rentáveis que o anterior. 

Com essa proporção de nove para um, o café, por sua importância histórica, serve como um dos melhores exemplos do agronegócio brasileiro de que ele é excessivamente comoditizado. A expressão commodity, geralmente utilizada para produtos minerais e agrícolas, simboliza as mercadorias negociadas em bolsa com preços únicos e definidos nos países ricos, os principais compradores.

Essa palavra ganhou contornos pejorativos e muitas vezes se ouve um consultor falar que uma empresa não pode deixar seu negócio se transformar em uma commodity, que é ter o mesmo valor que o de qualquer concorrente. 

No caso do café, o efeito commodity transformou a Alemanha no maior exportador de café torrado, apesar de não produzir o grão. O país, assim como os Estados Unidos, o Japão e a Itália, levam as melhores safras, fazem blends (mistura) com a produção de outras regiões, obtendo um bom sabor e preço razoável, embalando-as em um eficiente marketing.

É o caso do fenômeno das cápsulas, que custam quase o mesmo que uma xícara de muitas cafeterias de rua populares. Esse produto é resultado de uma jogada de mestre da multinacional suíça que o desenvolveu, que inclui a venda de cafeteiras elétricas. No fim das contas, o café que sai do interior do Brasil a um preço baixo para o produtor tem seu valor multiplicado a partir da industrialização e design.

Em meio ao acordo Mercosul-União Europeia, o case do produto é altamente educativo. Segundo reportagem da Agência Brasil do dia 6, o mercado interno do país está fechado ao café estrangeiro sob o argumento de evitar a contaminação da lavoura brasileira, barreira essa que tem tarifa de 13,61%. Porém, isso impede o Brasil de mergulhar no mercado de blends - os outros países fazem isso livremente.

Há ainda o filão do solúvel, o café pronto para consumo e preferido na Ásia. Nos anos 1990, diz a matéria, essa modalidade era responsável por 51% das exportações. Ao invés do governo gastar fôlego com polêmicas ideológicas e brigas com ONGs, deveria se voltar a realidades como essa e estimular um salto nas exportações do agronegócio.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.