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Segunda-feira

13 de Julho de 2020

Editorial A Tribuna

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A chaga do racismo

No Brasil, a população negra e parda se vê às voltas com estatísticas frias de vítimas nos aglomerados mais pobres

O assassinato de George Floyd não foi uma fagulha. O detonador da violência que ora assistimos nos Estados Unidos atravessa os séculos. Floyd só entrou na contagem como mais uma vítima do racismo, esse amorfo social que tangencia a sociedade norte-americana.

A morte por asfixia do segurança negro, já dominado, por um policial branco foi a demonstração explícita da intolerância.
Derek Chauvin, o oficial, agiu como antepassados dos tempos da escravidão. Negros tidos como rebeldes ou fugidios, quando capturados, passavam pelo corretivo público, às chibatadas, que serviam de exemplo para desestimular a insurreição dos dominados. O chicote de Chauvin foi o joelho. Mas se a escravidão acabou, ficaram as marcas na sociedade, que custa (ou se recusa) a tratar de suas feridas.

Nos Estados Unidos, do final dos anos 1960 em diante, houve um esforço de segmentos culturais e políticos para tentar debelar a chama do preconceito racial contra afrodescendentes. Ele se traduzia em iniciativas afirmativas que apresentavam o negro em posições de destaque no contexto social. Houve sucesso, mas não o suficiente para aplacar sentimentos indigestos de parte da sociedade.

Nem mesmo a eleição do primeiro presidente negro do país, Barack Obama, colocou fim à resistência tácita e perigosa aos processos de integração racial. Sobre o episódio com Floyd, a ex-primeira-dama Michelle Obama escreveu no Twiiter: “Raça e racismo são uma realidade que muitos de nós crescemos aprendendo a lidar. Mas se alguma vez, esperamos superar isso, não pode ser apenas uma pessoa de cor a lidar com isso”.

O que se vê, desde a trágica segunda-feira, em Minneapolis, é um país convulsionado, de leste a oeste. As manifestações, até então pacíficas, ganharam contornos mais graves, com saques, depredações e uma série de turbulências que escaparam do tom reivindicatório legítimo. A intervenção de quem deveria clamar por paz e bom senso teve efeito contrário. O presidente Donald Trump lamentou a morte de George Floyd, mas na palavra seguinte, atribuiu o pesadelo cívico a grupos radicais, oferecendo a “mão pesada” do Exército para conter os distúrbios.

Quando forças policiais chinesas contiveram protestos em Hong Kong, na semana passada, o mesmo Trump fez sérias advertências ao regime de Pequim. Em seus domínios, porém, acusou opositores, uma suposta esquerda radical e tachou todos de bandidos.

Os acontecimentos nos Estados Unidos são uma espécie de aviso. No Brasil, a população negra e parda se vê às voltas com as estatísticas frias de vítimas nos aglomerados mais pobres, como no caso mais recente, a morte do menino João Pedro Mattos, de 14 anos, durante operação policial no Rio de Janeiro. A reação ficou circunscrita à família e à comunidade, bem diferente do efeito Floyd. Mas pode ser um sinal de alerta a governantes e sociedade.

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