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Domingo

29 de Março de 2020

Editorial A Tribuna

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África em questão

A ameaça do coronavírus é real. O aumento de casos no continente é previsto, e deve piorar muito pelas condições de vida da população

A África sempre foi um continente esquecido. Nos últimos séculos, foi palco do colonialismo europeu, com seu território dividido entre vários países, que impuseram dominação, marcada pela tirania e despotismo. Não foram respeitadas as etnias e tradições históricas, sendo estabelecidas fronteiras artificiais, que não traduziam a realidade dos vários povos africanos. O resultado foi o subdesenvolvimento agudo, especialmente na região subsaariana, com índices de miséria gigantescos. 

A ameaça do coronavírus é real. O aumento de casos na África é previsto, e deve piorar muito pelas condições de vida da população. Destaque-se a história: a descolonização só começou no século 20, e não trouxe consequências positivas: a imensa maioria dos novos países passou a ser governada por líderes autoritários, que mantiveram e ampliaram a repressão, com corrupção oficial associada à perseguição sistemática aos opositores.

Ainda assim, a resistência tem sido notada por toda a parte. Hoje, três quartos dos africanos defendem a democracia multipartidária. Mas ainda há muitos governos baseados em partido único ou ditaduras militares, que lutam para manter-se, com poder absoluto.

Nos últimos 30 anos, a democracia avançou. Durante a Guerra Fria, o quadro pouco se alterou, uma vez que, tanto soviéticos como norte-americanos apoiavam regimes fortes alinhados a eles. Depois de 1990, entretanto, praticamente todas as nações africanas realizaram eleições, mas na última década houve claro recuo nas práticas e instituições democráticas. A liberdade política encolheu a partir de 2008, com restrições de todo tipo. Dos 21 países que bloquearam a internet para suas populações no ano passado, 12 eram africanos. O mesmo número foi verificado quando se levam em conta aqueles que editaram leis que dificultam a operação de organizações não governamentais (ONGs) em seus territórios.

A China tem feito investimentos expressivos em vários países africanos sem considerar como eles são governados. Ainda assim, há perspectivas para o futuro. Alguns fatores são destacados como positivos: a maior urbanização, com a parcela daqueles que vivem em cidades tendo dobrado desde 1975, e já atingindo 40% (são populações mais jovens, melhor educadas e mais difíceis de serem intimidadas do que as rurais); a construção de instituições de controle, como imprensa livre e ONGs vigorosas, capazes de denunciar fraudes eleitorais e corrupção nos governos, além de Parlamentos e Judiciários mais eficientes e atuantes. 

A construção democrática na África é grande desafio. Mas seu futuro exige tal avanço para promover o desenvolvimento no continente. Sua importância é enorme: em 2060 sua população será o dobro da chinesa, e a ausência de democracia pode fazer a pobreza e a desordem mais prováveis. 

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