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Domingo

29 de Março de 2020

Dad Squarisi

Dad Squarisi fez curso de letras na UnB. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. É editora de Opinião do Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília.

Mesmice e complexo de Deus

O novo coronavírus sofre de incurável falta de criatividade. Impôs rotina única para todos

Recado
“Desculpe-me, senhora, se escrevi carta tão longa. Não tive tempo de fazê-la curta.”
Voltaire

O novo coronavírus sofre de incurável falta de criatividade. Impôs rotina única para todos. Grandes e pequenos, altos e baixos, brancos e negros, pobres e ricos precisam ficar em casa. Além de tocar o samba de uma nota só, o mal-amado tem complexo de Deus. Atingiu os moradores dos cinco continentes.

Resultado: sobra tempo. E daí? O jeito é dar um jeito. Aí, o vírus não apita. Alguns tricotam, bordam, fazem crochê. Outros reformam roupas, arrumam gavetas, organizam armários. Há também os que se informam. Veem tevê, ouvem rádio, leem jornais. E, como o dia ficou mais comprido, prestam atenção ao texto e à fala. Ficam curiosos. E mandam questões pra coluna.

É guerra

O presidente do Banco Central disse que “temos um arsenal para combater a crise”. Edileusa ouviu a frase. Ficou encucada. “Arsenal não se refere a armas?”, pergunta. É nesse sentido que a palavra foi empregada. Como estamos em guerra contra o coronavírus, Roberto Campos Neto recorreu a vocábulo que tem tudo a ver.

Desperdício

Samanhtha Queirós observa: “Ao se referir à pandemia, gregos, troianos e romanos dizem que o vírus atinge todos os países do mundo. É pleonasmo, não?” Dessssssssssssssssssste tamanho. Ganha um bombom Godiva quem encontrar um país que não seja do mundo. Basta país: O vírus atinge todos os países.

Eu sou mais eu

João Moreira Coelho leu na primeira página do Correio esta chamada: “Mandetta se sobressai”. Surpreendeu-se. Com razão. O verbo sobressair joga no time dos autossuficientes. Acredita que é melhor andar só que mal-acompanhado. Daí por que não aceita jamais a companhia dos pronomes me, te, se, nos, vos.

Para sobressair, empregue o sobressair assim: Mandetta sobressai.

Os formandos sobressaíram na pesquisa. Os alemães sobressaem no combate ao coronavírus. Eu sobressaio na defesa dos servidores. Sobressaia no trabalho, na família e na vida.

Criatividade?

Bolsonaro dava entrevista. Estava tenso. Num momento de descontração, resolveu brincar. Disse que a imprensa inventa brigas “entre eu e o Moro, entre eu e o Mandetta”. A Neusa ouviu. Duvidou dos próprios ouvidos. Mais tarde, assistiu à reprise da fala. Era verdade. “Xô! Xô! Xô”, gritou ela.

Explica-se a reação. A moça aprendeu na escola que o pronome eu não tem vez quando antecedido de preposição. Ora, entre é preposição. Dá passagem ao pronome mim. Veja exemplos variados: Gosta de mim. Trabalha para mim. Falou sobre mim. Inventa brigas entre mim e o Moro, entre mim e o Mandetta.

Ops!

João e Rafa leram esta frase: “Em todo o mundo, todo mundo sofre os efeitos da pandemia”. O jogo de palavras os deixou confusos. Pediram explicação. Ei-la:

Todo mundo = todos
Todo o mundo = todos os países, o mundo inteiro

Leitor pergunta

Outro dia, o telejornal Hoje, ao noticiar a autorização para atendimentos médicos a distância, a telinha mostrou “à distância”. Bobeou, não?
Roberto Barreto, Ipatinga

A locução a distância só ganha o acentinho indicador da crase quando a distância for determinada. Compare: Viu Luciana a distância. Viu Luciana à distância de uns 200m. A escola oferece ensino a distância. Com a crise, estou trabalhando a distância. Autoridades sanitárias recomendam: fique à distância de 1 metro.

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