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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

Dad Squarisi

Dad Squarisi fez curso de letras na UnB. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. É editora de Opinião do Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília.

Adeus, namoradinha do Brasil

Regina Duarte chegou, mas não deu conta da pressão

Recado

“A linguagem é como a pele: com ela eu me contato com os outros.”
Roland Barthes

Regina Duarte chegou, mas não deu conta da pressão. Depois de 77 dias no cargo de secretária da Cultura, bateu asas e voou. Recebeu um prêmio de consolação — diretora da Cinemateca Brasileira. A Folha de S.Paulo foi saber o que é isso.

Descobriu. “Cinemateca Brasileira não tem cargo prometido por Bolsonaro a atriz”, escreveu na chamada de capa. Ops! Cadê a crase? O acento se impõe porque não se trata de uma atriz qualquer. Mas de atriz definida: a velha namoradinha do Brasil.

Na dúvida, vale apelar para o truque do troca-troca — substituir a palavra feminina por uma masculina. Se der ao, sinal de casamento de dois aa. Caso contrário, nada de aliança no anular esquerdo. Compare:

Cinemateca não tem cargo prometido por Bolsonaro à atriz.

Cinemateca não tem cargo prometido por Bolsonaro ao ator.

Regina Duarte visitou a deputada.

Regina Duarte visitou o deputado.

Simples assim.

Por falar em cinemateca...

Cinemateca rima com biblioteca, videoteca, discoteca, brinquedoteca. Reparou? Todas as palavras terminam com teca. As quatro letrinhas querem dizer isto: lugar fechado onde se guarda um montão de alguma coisa.

Que coisa? Cinemateca guarda filmes. Biblioteca, livros. Videoteca, fitas. Cinemateca, filmes. E brinquedoteca? Está na cara — brinquedos. Vamos à farra?

Mais um capítulo

A fila anda. Regina Duarte sai, candidatos se apresentam. Um deles é o ator Mário Frias. A propósito, o Correio escreveu: “Nos últimos dias, Frias aproximou do presidente e até almoçou no Planalto”. Ops! O jornal cochilou.

Esqueceu que os verbos são seres pra lá de ardilosos. Inconstantes, viram a casaca como nós trocamos de camiseta. É o caso de aproximar. Ora ele pede pronome. Ora o dispensa. Como saber? Analise o período:

Frias aproxima o copo

Frias funciona como sujeito. Copo, como objeto direto. (O sujeito e o objeto são pessoas diferentes.) Às vezes, o sujeito e o objeto são a mesma pessoa: Frias aproximou Frias.

Pra evitar a repetição e tornar o enunciado mais claro, o pronome ocupa o lugar do objeto: Frias se aproximou. Eu me aproximo. Tu te aproximas. Nós nos aproximamos. Eles se aproximam.

Do Verissimo

“Se quem fala várias línguas é poliglota, quem fala três língua é triglota e quem fala duas línguas é biglota, quem fala uma língua o que é? Provavelmente americano.”

Desperdício

“Não é admissível criar novos tribunais”, foi o título do editorial de O Globo de quinta. Baita pleonasmo. Ganha um bombom Godiva quem cria o velho. O velho se recria. Melhor: Não é admissível criar tribunais.

Leitor pergunta

“O Brasil é o terceiro país do mundo com maior número de contaminados pelo coronavírus”, anunciou o Jornal da CNN. É pleonasmo, não?
Celso Melo, Porto Alegre

Quem consegue citar um país que não seja do mundo? Melhor poupar palavras: O Brasil é o terceiro país com maior número de contaminados por coronavírus.

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