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Terça-feira

22 de Outubro de 2019

Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

Ações afirmativas para vozes femininas

Estudo inédito realizado pela faculdade de Direito da USP aponta para a necessidade de se reduzir as barreiras nos espaços de comunicação dentro de suas salas de aula

O que define nossa capacidade comunicativa? Como conquistamos os espaços de fala nos grupos sociais a que pertencemos? Há talentos naturais que conquistam os espaços quase sem nenhum esforço, mas há uma parcela grande cuja conquista de espaços ma comunicação é mais penosa. Observamos isso já no ambiente escolar. As lideranças-mirim aparecem naturalmente, dominam o espaço de comunicação e são recompensadas positivamente por isso, na maioria das vezes. Os temperamentos mais reservados, por receio da exposição, assumem uma posição de coadjuvantes e seguem assim pela vida.

Já há um bom tempo que trabalho com adultos que se enquadram nesse último grupo. São pessoas mais reservadas, que “escolheram” estar na posição de coadjuvante enquanto puderam. Eles vêm das mais diversas profissões e procuram a minha ajuda profissional por estarem vivendo um momento em suas vidas em que precisam melhorar sua comunicação. São pessoas que construíram uma história profissional sólida, com um bom currículo, com um bom conhecimento técnico, mas que na hora de expressar esse conteúdo, não conseguem ter um bom desempenho.  Existe um descompasso entre a capacidade técnica e a capacidade de expressar esse conhecimento por meio da fala.  Ofereço um treinamento de dez semanas com o objetivo de alavancar essa competência de comunicação e durante muitos anos apenas homens se interessavam por ele.

Essa diferença vem diminuindo. Hoje recebo mais mulheres do que há alguns anos, mas a procura de mulheres pelo treinamento ainda é infinitamente menor. Isso sempre me intrigou. Levei um tempo pra chegar a uma resposta que não era tão complexa. O que acontecia no meu universo profissional pessoal era um reflexo do que ocorria na sociedade. A maioria dos nossos líderes são homens! Há mais homens na política, há mais CEOs homens, há mais diretores homens e assim por diante.

Passei, então, a me perguntar o que poderia ser feito para melhorar esse cenário, ao menos do ponto de vista da comunicação. Como ajudar meninas a se colocarem de forma mais assertiva já no ambiente escolar?  Poderíamos criar clubes de fala, rodas de conversa, oficinas de rádio nas escolas? Precisaríamos de ações afirmativas para garantir voz às nossas meninas?

A resposta a essa última pergunta foi divulgada, recentemente, pela Folha de S. Paulo. Uma pesquisa realizada numa das mais tradicionais escolas de Direito do país, a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em São Paulo, mostrou que sim. Precisamos de ações afirmativas. O estudo realizado por um grupo de alunas da pós-graduação confirmou o que antes era apenas uma sensação: a participação dos homens durante as aulas durante o curso de Direito, predomina. Há situações sutis de desigualdade e de desrespeito entre alunos e alunas e até mesmo entre alunos e professoras. As situações são tão sutis e dissimuladas, que as autoras denominaram esse fenômeno de “currículo oculto”. O estudo se materializou em um livro, publicado no inicio desse  ano (e-book Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto).

As ações concretas e afirmativas que o estudo conseguiu materializar foram admiráveis: criação de novas disciplinas, mudanças em bibliografias e posturas de professores, novas regras em concursos de seleção docente. Foi criado ainda um espaço  no campus para que as alunas interessadas “trabalhem no desenvolvimento de técnicas argumentativas e de aspectos psicossociais, como autoconfiança”.

Avançamos como sociedade e talvez não precisemos de ações afirmativas para algumas áreas nas quais a voz é importante, com nas artes, por exemplo. Afinal, temos muitas mulheres cantoras, mulheres atrizes. Mas quando se fala em cargos de liderança, sobretudo quando envolvem uma remuneração financeira  vantajosa, o espaço ainda é pequeno.

Sim, precisamos de ações afirmativas, que ajudem a retirar as barreiras de gênero, nos espaços de comunicação. A voz masculina domina a maioria dos espaços de liderança há séculos, e pra mudar esse cenário precisamos de ações concretas. Pequenos ajustes nos ambientes escolares, por exemplo, poderiam ser de grande ajuda para facilitar a percepção de igualdade de oportunidades entre os gêneros. Mas a mudança mais poderosa pode ser orquestrada por nós mesmos, na criação de um espaço de igualdade de incentivo, estímulo e oportunidades para os nossos filhos, sejam eles de que gênero forem.

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