Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos.

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Quem é o analfabeto?

Talvez porque não houvesse ninguém munido de um celular por perto, o desembargador conseguiu se ver livre de outros 40 episódios em que respondeu ao Tribunal de Justiça por infração disciplinar

Para o bem e para o mal, as redes sociais se instalaram na vida nossa de todo dia e, graças a elas, foi dada visibilidade a aberrações que, em outras épocas, jamais viriam a público.

Talvez porque não houvesse ninguém munido de um celular por perto, o desembargador conseguiu se ver livre de outros 40 episódios em que respondeu ao Tribunal de Justiça por infração disciplinar. Machucou a ética? Ofendeu alguém? Desrespeitou seus pares? Subjugou? Humilhou? Jamais saberemos...todos foram arquivados.

O Caso do Desembargador, como ficará registrado nos anais da imprensa, certamente não é o único em que a figura central é alguém com algum poder; e a figura secundária, um empregado qualquer, cumprindo suas funções: lhe servindo o prato num restaurante, abastecendo seu carro, fazendo o troco numa padaria, vendendo balas ou flores no semáforo, ou pedindo para por a máscara. Alguém que não fala francês e não alcançou o diploma. E pior: alguém que insiste em não saber com quem se está falando.

Até que um dia um “ser qualquer” resolve filmar e jogar na rede mundial de computadores cenas inimagináveis para alguém tão letrado e culto como um desembargador, de quem se esperaria, minimamente, justiça. Ou respeito: ao outro, à saúde pública, ao coletivo.

O primeiro episódio de execração pública não foi suficiente para domar o ímpeto do desembargador, que voltou a ofender semanas depois, ao ser flagrado novamente sem máscara.

Com a decisão de ontem, de afastá-lo das funções temporariamente, o Conselho Nacional de Justiça presta um favor em duas frentes. À sociedade, que por um momento até achou que esse seria mais um episódio a ser arquivado. E ao próprio desembargador, que na solidão dos dias que virão pela frente poderá refletir melhor sobre o papel que tem na sociedade, sobre as oportunidades que a vida lhe deu, e sobre como quer viver os demais anos de sua existência.

“Analfabeto” não é o guarda municipal que “não sabia com quem estava falando”. Analfabetos são todos aqueles que passam pela vida sem apreederem conceitos básicos de humildade, gratidão e empatia. Uma pena, senhor desembargador.

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