Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos.

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'Precisamos criar um novo plano de desenvolvimento para a Baixada', diz presidente da Investe SP

Wilson Mello diz que região tem condições de voltar a atrair atividades industriais, por exemplo

A Investe SP é uma agência de Promoção de Investimentos e Competitividade ligada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico. Em linguagem simples, é a Investe SP que mostra aos possíveis investidores do País por que trazer seus negócios para o Estado de São Paulo. Na gestão Doria, a Investe inaugurou duas agências fora do País e planeja montar mais uma em 2021.

Nesta entrevista, Wilson Mello, o presidente, explica quais têm sido os argumentos para falar do Estado lá fora e como a Baixada Santista pode se tornar um polo de novos negócios também.

Em quase dois anos à frente da Investe SP, quais têm sido os ganhos para o Estado de São Paulo?

A Investe sempre foi reconhecida pela sua excelência, e não é um mérito exclusivo da minha gestão. Quando eu cheguei, já encontrei um time muito técnico e competente. A gente vem aprimorando o que já funcionava bem.

De que forma?

Eu destaco três pontos: o pilar da atração de novos investimentos, que sempre foi muito forte na razão de ser da Investe, com uma prestação de serviço e uma consultoria forte com os novos investimentos, as empresas que querem vir para São Paulo. Mas fizemos duas coisas adicionais que quero mencionar. Primeiro, a gente deu o mesmo valor para os investimentos já instalados. Durante muito tempo, a Investe focou nos novos, mas percebemos que era preciso fazer um trabalho forte de manutenção dos atuais. Esse foi um ponto que desenvolvemos bastante nesses 20 meses e tem dado resultado. As empresas têm respondido bem a essa atuação.

E o terceiro ponto?

É um pilar que não existia e foi criado nessa gestão, o da internacionalização da Investe SP, com abertura de dois escritórios fora do Brasil, um em Xangai (China) e outro em Dubai. São escritórios que têm sua autonomia financeira, custeados pelas empresas privadas que são clientes. Temos a previsão de inaugurar, em junho de 2021, um em Munique (Alemanha). Essa internacionalização é algo que não era feito. 

As empresas paulistas também se beneficiam desses escritórios fora?

Sem dúvida. É uma via de mão dupla, porque tanto fazemos o apoio para as empresas paulistas que querem exportar seus produtos para esses lugares ou para outros, usando esses escritórios na China e no Oriente Médio para acessar os mercados da Ásia ou África, como também servem como pontas de lança para atendimento a potenciais investidores interessados em São Paulo. Fazemos um atendimento presencial, olho no olho.

Nesse contato com investidores de fora interessados no Brasil, que fatores prejudicam a imagem do País?

Na verdade, o que eu acho mais importante destacar é o que temos feito para descolar São Paulo de uma eventual realidade brasileira, do que eventualmente a imagem do Brasil. O que os escritórios têm feito com muito sucesso é mostrar as vantagens competitivas do Estado de São Paulo, que é uma nação dentro de uma nação. Nossos números em São Paulo são de país. Se fôssemos uma economia separada, seríamos a vigésima primeira do mundo. Isso nos dá credibilidade e musculatura para poder diferenciar São Paulo.

E o que é dito a esses possíveis investidores de fora?

Estamos sempre dizendo que existe segurança jurídica, e apresentamos nosso histórico de relações público-privadas, concessões, PPPs, e sempre com respeito ao contrato. Mostramos também que a questão ambiental no Estado de São Paulo é prioritária, basta ver que nos últimos dez anos ampliamos de 18 para 22% a cobertura vegetal, e mostramos isso com dados, fotos e imagens. Portanto, não falamos aqui de desmatamento, pelo contrário, falamos em aumento da cobertura. Mostramos para o investidor que, independentemente do que ele veja no Brasil ou pense sobre o Brasil, a realidade de São Paulo é essa que a gente mostra. Não tivemos problemas em relação a isso. Não houve uma contaminação nos investimentos em São Paulo.

Falando dos investidores do Brasil, o que eles levam em conta quando estão na fase de escolher em qual estado vão abrir seus negócios? Quais são os requisitos?

Eu diria assim: infraestrutura, e nós temos uma bem diferenciada, com o maior porto da América Latina, os dois maiores aeroportos do Brasil, 19 das 20 melhores rodovias do País estão em São Paulo. Segundo, mão de obra qualificada. Algo perto de 70% da mão de obra qualificada do Brasil está em São Paulo. Essas questões são, muitas vezes, mais compensatórias que as razões tributárias da guerra fiscal, que sempre surgem na equação, e a gente consegue compensar com essas outras qualidades do Estado. Além disso, há também uma visão mais liberal do Governo, então, é um Governo que respeita o setor privado, respeita o investimento. Temos a tranquilidade de poder vir com infraestrutura, mão de obra e a ciência, inovação e tecnologia. Tudo isso torna o ambiente muito atrativo, além de 33% do PIB brasileiro e 40% do mercado consumidor estarem aqui.

Dentro desse universo do Estado, quais são as vantagens e desvantagens competitivas da Baixada Santista?

Tenho dedicado bastante tempo para a Baixada. Me preocupo com a situação da Baixada no pós-pandemia, que afetou bastante o turismo e os serviços. Tenho um encontro marcado para este mês com os empresários da região. Precisamos criar e desenvolver um novo plano de atração de investimentos para a Baixada Santista. Precisamos agregar ao setor de turismo e de serviços novas vocações. Acho que a logística é uma vocação natural em função do Porto de Santos e do Porto de São Sebastião. Acho também que é preciso melhorar a questão industrial. Tem potencial. Podemos explorar melhor o próprio entorno do Porto, o pré-sal, o que fazer com o gás do pré-sal. Hoje, o gás está sendo queimado ou reinjetado porque não tem consumidor para ele. Precisamos pensar em como atrair eventuais consumidores de gás para o Estado, e aí faria todo sentido que fosse na região. Enfim, deveríamos redirecionar um pouco dos esforços e da vocação para a questão industrial e logística, que a Baixada teve e perdeu. Tem muita planta parada em Santos, Cubatão...

Quando o senhor fala em ‘planta parada’, o que quer dizer exatamente?

Quero dizer, por exemplo, que a Baixada já teve atividade industrial e ela pode voltar. Por exemplo, já teve uma Usiminas empregando 4 ou 5 mil funcionários, e hoje só tem 180. Tem a indústria de fertilizantes, que já foi muito mais atuante, com Ultrafertil, Fosfertil, e hoje não está mais como era..

Mas quanto desse esvaziamento está ligado à desindustrialização e à própria redução da atividade do setor em nível nacional e até internacional?

É um pouco de tudo, mas a gente precisa enfrentar. Quando é um problema do setor, podemos reinventá-lo? Por exemplo, se a questão da siderurgia não é mais uma solução para a Usiminas, o que fazer com aquele terreno gigante, subutilizado? Tem toda infraestrutura montada. Não acho que o problema setorial responda a todas as perguntas, não. O setor de fertilizantes, por exemplo, só cresce. Precisamos entender porque a indústria saiu para ver como a gente faz pra ela voltar.

E como colocar a Baixada Santista na prateleira dos locais de interesse de novos investidores?

Aproveitando algumas coisas que só tem aí.

Tipo o quê?

Pré-sal, petróleo, gás... como transformar toda essa riqueza natural em riqueza industrial, comercial e serviços? Porto de Santos só tem aí. O turismo, as praias...precisamos potencializar tudo isso.

Alguns empreendimentos grandes acabam levando muito tempo para saírem do papel por conta da legislação ambiental.

A Cetesb, na gestão João Doria, é uma outra Cetesb. Tenho a convicção de que um projeto, qualquer que seja ele, não pode demorar tanto. As questões judiciais fogem ao nosso controle, não temos gestão sobre isso. Podemos tentar ajudar na interlocução, no diálogo, mas não é simples de resolver.

A Investe tem feito alguns cursos focados na capacitação de gestores municipais. O senhor acredita que falta preparo das equipes técnicas dos municípios para a atração de novos investimentos?

Sim, temos feito esse trabalho. A gente acredita que as prefeituras poderiam fazer um trabalho mais focado para atração de investimentos. Então, nos propomos a fazer esse trabalho. Ano passado, fizemos em 400 prefeituras, e este ano faríamos em mais 360, mas a pandemia atrapalhou.

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