Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos.

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Pobre leitor

Não basta ter um dicionário do lado: é preciso entender um pouco de estatística, matemática, regra de três. E política também

Se já está difícil para os jornalistas cobrirem o dia a dia da pandemia, imagino que para o leitor/internauta, a tarefa seja ainda mais desafiadora.

Zona laranja, zona vermelha, viés de alta, viés de baixa, variáveis, pesos, flexibilização, taxa de evolução média, achatamento da curva....e por aí vai. Não basta ter um dicionário do lado: é preciso entender um pouco de estatística, matemática, regra de três. E política também.

O Governo do Estado lançou semana passada um plano de retomada das atividades que enquadra cada região em quatro diferentes zonas, entendendo que cada uma está em um momento diferente da epidemia. OK, até aí tudo bem, compreensível e razoável. Um estado com 645 municípios não deve mesmo ser tratado como um todo. O problema começa quando se diz que a análise dos dados será feita semanalmente, mas a eventual reclassificação só de duas em duas semanas. Oi?

Não vamos entrar nos detalhes do plano, que certamente estão fundamentados em critérios técnicos, mas por que não divulgar novos dados apenas quando for para mudar de fase? Senta todo mundo, analisa o quadro do momento e decide: muda ou não muda de estágio. Parece tão simples...

Pior que isso é constatar que, no caso da pandemia, a matemática deixou de ser uma ciência exata. Os dados dos municípios não batem com os dados do Estado, que não batem com os dados da União, que não batem com os dados dos sites oficiais.

No momento em que se fala tanto em transparência, inadmissível que esses dados não estejam todos unificados e reunidos em um único local, de fácil acesso e compreensão cristalina não só para a imprensa, mas a todo cidadão. E não pode haver divergência. Se o que conta para analisar o estágio da contaminação é o número de leitos de UTI, o número de mortes, a taxa de ocupação dos leitos ou o que quer que seja, esses números precisam ser únicos, sem interpretação x, y ou z.

Há mais uma questão importante: alguns municípios têm divulgado x leitos de UTI mas que, na verdade, não estão disponíveis porque não há equipe técnica para trabalhar. É como se a cozinha do restaurante estivesse montada, mas sem cozinheiros para preparar os alimentos. Isso é mentir para a população e esconder as próprias incompetências.

Mais ainda: algumas prefeituras têm liberado suas atividades comerciais sem ter boa retaguarda na saúde, como leitos de enfermaria e UTI. Onde seus moradores vão ficar caso se contaminem?

Não é só o cidadão que assiste a tudo isso que se surpreende com a falta de sintonia:  comerciantes e empresários que mantêm suas portas fechadas há 90 dias aguardam pacientemente um desfecho para voltar ao mercado. Amargam prejuizo e contas para pagar sem entrada de receita. Nos países que já passaram por isso a crise econômica também foi sentida, mas no Brasil, onde o Sistema Único de Saúde bate de goleada na maioria desses países, a falta de organização parece por tudo a perder.

Vamos acreditar que nada disso tenha interferência político-partidária, que seja apenas a adoção de linguagens diferentes para o mesmo cenário, daí a confusão momentânea. Se assim é, pode ser questão de dias até que tudo se afine e as coisas voltem aos eixos. Com gente morrendo, gente perdendo o emprego, gente perdendo aula, empresário amargando prejuízos, a Baixada Santista não pode se dar ao luxo de ficar patinando em cima de dados enviesados e interpretações dúbias.

Tudo menos isso!

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