Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos.

Acesse todos os textos anteriores deste colunista

“A inteligência do jornalismo é acrescentar valor à informação, ir além do fato”

Assim afirma o jornalista e consultor de empresas de Comunicação, Eduardo Tessler, em entrevista para o Jornal A Tribuna

Jornalista e consultor de empresas de Comunicação, especialista em integração de redações, criação de novos fluxos dentro da cadeia produtiva da notícia, Eduardo Tessler analisa o momento atual do Jornalismo no Brasil e no mundo, e acredita que a pandemia apenas acelerou um processo que já vem ocorrendo há anos: a transformação digital.

“Esse momento que estamos vivendo mudou o negócio de todo mundo, inclusive do consumo de informação. Mas é uma super oportunidade, porque é quando o jornalismo renasce e passa a ser a chave para o entendimento dos novos tempos. É preciso ter criatividade e sintonia com o mundo e para onde ele caminha”, diz o jornalista, que mora em Porto Alegre, mas intensificou, nos últimos anos, a análise do comportamento das pessoas ao consumirem informação, tanto no Brasil como no restante do mundo. 

“A pandemia não é culpada por tudo, porque o universo da comunicação já está mudando faz tempo. Antigamente, o jornal impresso era o dono da notícia. Se ele não dava uma determinada informação, é porque ela não havia acontecido. A chegada dos meios digitais acabou com essa supremacia, e agora a notícia é dada o tempo todo, em tempo real. Essa dinâmica torna maior o desafio dos jornais impressos, que precisam trazer um conteúdo diferenciado e complementar, precisam usar de mais criatividade e inteligência”.

Criador e curador do site midiamundo.com, Tessler analisa a forma como jornais e sites do mundo inteiro se comportam diante das coberturas jornalísticas, e defende que a criatividade é ponto-chave para o sucesso.

Com a experiência que adquiriu visitando redações do mundo todo, Tessler tem sido corriqueiramente convidado para seminários e workshops organizados pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER).

“O digital não apareceu para a mídia. O digital apareceu para o mundo e mudou o conceito e a velocidade de tudo”, disse, em recente encontro promovido por essas entidades. E cita outros setores que também foram bastante impactados pelos canais digitais: mercado imobiliário, as escolhas de viagens e roteiros, mercado financeiro, com o surgimento de bancos digitais.

“Jornais são produtores de conteúdo, e precisam se adaptar à forma como as pessoas querem receber esse conteúdo. Não somos mais o intermediário da notícia, mas os refinadores dela. A notícia chega fácil, ao vivo, o tempo todo ao público, o que o jornalismo precisa fazer é refiná-la e ajudar o leitor a entendê-la, seja onde for. O leitor é um cliente e precisa ser bem tratado”.
 

Leia, a seguir, entrevista feita esta semana.
No universo da comunicação, mudança é um estado permanente?
A mudança é permanente porque a sociedade tá sempre mudando. As pessoas estão mudando todos os dias, acrescentando conhecimento e alterando a forma de fazer as coisas. As pessoas mudam, e os meios de comunicação, por algum motivo, acham que são imutáveis.

Mas há uma certa impressão de que a velocidade das mudanças está muito maior do que há 20, 30 anos.
Se você comparar o jornal A Tribuna> de 2010 com o de 1990 vai notar diferenças, tanto na pauta, que ficou mais humana, como da apresentação da notícia. Lembro que em 95 me chamaram pra criar uma editoria dentro da Veja chamada Comportamento, que reuniria matérias de saúde, moda, religião. Olha só...não se falava sobre isso de forma permanente nos veículos.

Mas com a entrada da internet as mudanças ficaram mais rápidas, não?
A revolução digital é muito forte porque ela toca tudo a nossa volta. O celular passa a ser a extensão do nosso braço. É uma parte do corpo. Isso mudou a forma das pessoas se conectarem. Quem trabalha com comunicação não entendeu quando essas mensagens começaram a aparecer do meio digital. Então, a digitalização mudou o comportamento e a forma da gente viver.

E se ainda existia alguém mais resistente a conhecer o universo digital, a pandemia forçou esse processo.
Sim, por necessidade. O mercadinho da esquina não atende o telefone para fazer uma encomenda, mas entrega tudo se você pedir por aplicativo. E é assim que as coisas se comportam e vão ser daqui pra frente. Nós, dos meios de comunicação, demoramos pra entender que tudo estava mudando.

Com tanta oferta de informação, como atrair a atenção do leitor para o jornalismo de qualidade que você faz no seu veículo?
A expressão “jornalismo de qualidade” todo mundo usa, mas ninguém sabe o que é. Jornalismo de qualidade é oferecer um conteúdo que interesse diretamente à vida das pessoas. Você vai ser a fonte mais confiável na medida em que o conteúdo produzido for relevante para as pessoas e confiável também. E pra isso, você precisa conhecer muito bem o seu público, saber o que ele gosta e o que ele precisa.

Você acredita que os grupos de comunicação regionais têm uma vantagem em relação aos veículos de cobertura nacional por oferecerem algo que o leitor não encontrará em outro lugar?
Esse é o maior ativo para esses grupos de comunicação. É a informação sobre a região dele, informação diferente e que diz respeito diretamente à vida dele.

Você acredita que o uso mais intenso das redes sociais por políticos, nos últimos tempos, minimiza a importância do jornalismo profissional?
Isso é uma coisa armada, não é de graça. É importante para políticos que não têm unanimidade ou que se veem ameaçados de alguma forma. Ele monta uma forma paralela de informar as pessoas, dando descrédito aos meios de comunicação. O presidente da República faz isso todos os dias, e usa as redes sociais para falar mal da imprensa. Isso é uma tática de guerra para desacreditar os meios de comunicação. Só que um dia a casa cai.

Cai?
Cai, com certeza, cai. Mas e o que é preocupante que estamos vendo acontecer no Brasil, por exemplo? É que não são pessoas simples, de pouco esclarecimento, que estão caindo nessa. Mas eu acredito que vai chegar um dia em que vão se dar conta. Os políticos podem anunciar nas redes sociais uma série de coisas, mas se essas coisas não se confirmarem na prática e os meios de comunicação mostrarem isso, esse cidadão vai se voltar a quem deu informação confiável pra ele.

Muito já se falou sobre fake news, sobre como identificá-las e o mal que fazem, mas como explicar que pessoas de bom nível intelectual continuem acreditando em fake news e distribuindo esses conteúdos?
As pessoas gostam de ser fonte de informação, de mostrar para os outros que sabem, que recebem a informação. É mais fácil a rede social punir quem posta fake news, do que uma pessoa deixar de passar espontaneamente. É uma guerra, sim, que terá que ser eliminada na raiz.

Falando para o mercado publicitário, você acredita que também as campanhas e os anúncios tenham que mudar de formato e proposta em função de toda essa revolução?
Não tenho a menor dúvida que sim. O que acontece hoje ainda é a pouca formação do vendedor. Hoje, qualquer campanha que se ofereça tem que pensar em apresentar solução para o cliente. A solução passa por um trabalho inteligente, de muita escuta para entender do que é que ele precisa.

No início deste mês, A Tribuna fechou o seu site só para assinantes. Você acha que essa é uma tendência para o jornalismo digital?
O paywall (sistema pelo qual as matérias são fechadas apenas para assinantes) é fundamental, mas tem que oferecer conteúdo exclusivo. Não se deve cobrar por aquilo que está em todos os sites, porque se o internauta não conseguir acessar em um lugar, vai acessar em outro. Deve-se cobrar matérias mais aprofundadas, análises, artigos, opinião, reportagens explicativas, furos. Assim, cria-se a fidelização. 

O que você imagina para o jornalismo daqui 10 ou 20 anos? Como você vê a função de jornalista no futuro?
Eu acho que a formação do jornalista vai ser muito mais exigente. Ainda tem muitos colegas fazendo tarefas que, num futuro, poderão ser automatizadas. A inteligência artificial já está produzindo textos básicos. O jornal The Guardian (jornal londrino) produziu, pela primeira vez, um artigo de opinião por robô. Isso é muito mais perigoso, mas já está acontecendo. Então, a perspicácia do jornalista, a sacada do jornalista, isso tudo nunca será feito pelo robô, mas a formação terá que ser de muito mais preparo. Estamos caminhando para um momento de menor número de jornalistas em empresas, e maior número de jornalistas fazendo trabalho muito específico. Por exemplo, um jornalista especializado em pandemias. O trabalho dele será super bem remunerado. Serão menos jornalistas nos jornais, mas muito qualificados. 
 

Tudo sobre:
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.