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Sábado

4 de Abril de 2020

Alexandre Machado: Impactos do novo coronavírus no comércio internacional

Vírus vem afetando atividades econômicas de comércio exterior não apenas na China, mas em todo o mundo

Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional, em resposta ao novo coronavírus (2019-nCoV). Parece claro que o vírus vem afetando as atividades econômicas de comércio exterior não apenas na China, onde já foram registrados até o momento (11/2) 43.143 casos, 1.018 mortes e 4.347 recuperações (Johns Hopkins, 2020; WHO, 2020), mas em todo o mundo. 

As implicações para exportadores e importadores que utilizam o transporte marítimo internacional – mesmo diante das perspectivas de um ano promissor, com a assinatura da fase 1 do acordo EUA/China, em 15 de janeiro – podem ser críticas, se não houver um mecanismo para lidar com a propagação do vírus. 

Dessa forma, quando observamos o lado da oferta, encontramos na China a mudança inesperada sobre a demanda, a qual provocará reflexos significativos no comércio exterior brasileiro, sejam estes positivos ou negativos. 

Vale dizer que, apesar do impacto ainda ser pouco perceptível, o início de 2020 já apresenta uma pequena retração das exportações brasileiras de soja, minério de ferro e carne, muito por um congestionamento do sistema portuário chinês, segundo dados do Ministério da Economia (2020).

Dessa forma, o surto do novo coronavírus vem sendo responsável por abalar os mercados internacionais, principalmente os que permanecem fortemente dependentes da China, tanto no lado de importação quanto da exportação, ilustrando quão dependente o mundo se tornou dos produtos chineses, com muitas cadeias de suprimentos profundamente enraizadas no país. 

Vale lembrar que a propagação do vírus coincide com o Ano Novo Lunar Chinês (CNY), que marca a baixa temporada tradicional dos mercados de remessas, a qual fora estendida pelo governo daquele país em cerca de 2 semanas, na tentativa de conter o surto.

Por outro lado, este período prolongado de férias impactou negativamente nos volumes exportados, podendo chegar a uma redução de até 6m TEUs no primeiro trimestre, apesar das grandes linhas continuarem operando nos principais portos chineses, porém com uma redução de cerca de 20%, desde janeiro, segundo a Alphaliner (2020). 

Do mesmo modo, a China é o maior importador de Petróleo & Gás do mundo, ou seja, sua paralisação trará uma queda transitória nas importações de P&G, gerando cortes nas refinarias, provocando uma queda temporária nos preços dessas commodities. 

Portanto, os efeitos indiretos do vírus ainda são de difícil análise, visto que no balanço de movimentação dos principais portos chineses em janeiro, estes apresentaram números relativamente estáveis em comparação a 2019.

Porém, segundo a Sea-Intelligence (2020), o cancelamento em massa das remessas, muito provocado pelo fechamento das fábricas, indica perda de receitas estimadas em mais de US $ 300 milhões por semana, fora a possibilidade de uma queda temporária do frete marítimo, com um consequente aumento agudo na fase de recuperação, principalmente aos remetentes que se utilizam de operações “backhaul” (quando os navios chegam vazios para receber suas cargas e deixam o país sem ocupar toda sua capacidade). 

Assim, segundo a BIMCO (2020), uma paralisação prolongada da China prejudicará temporariamente os mercados internacionais e, consequentemente, marcará uma desaceleração do crescimento econômico mundial, que provavelmente apostará na regionalização de sua cadeia produtiva, buscando evitar um maior impacto em seu mercado interno.

Como ocorreu em 2003, durante a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARs), que aparenta semelhança, podemos esperar que os mercados se recuperem rapidamente, logo que a infecção seja contida. Mas agora dependerá muito de quanto tempo a China permanecerá em quarentena e a rapidez com que o elemento humano poderá se reconstruir.

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