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Domingo

19 de Maio de 2019

Especialista comenta sobre melhores condições de trabalho para o professor

Diretora do Instituto Inspirare, Anna Penido fala sobre a formação do professor e a necessidade de investimentos na área da educação

Anna Penido é jornalista, com especialização em Direitos Humanos pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e em Gestão Social para o Desenvolvimento pela Universidade Federal da Bahia. Ela chegou a coordenar o escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para os estados de São Paulo e Minas Gerais e, hoje, é diretora do Instituto Inspirare. O órgão atua em projetos para inovação, equidade e qualidade na Educação. Uma das principais bandeiras do instituto é a defesa de uma educação integral, ou seja, o ensino com o objetivo de desenvolver o aluno intelectual, emocional, social, física e culturalmente. Mas quem vai prepará-los está preparado para essa missão? Esta é uma questão central, na visão da especialista. Na entrevista a seguir, Anna Penido comenta como formar o professor para essa tarefa e a importância da escola garantir habilidades socioemocionais a crianças e adolescentes, que cada vez mais engrossam as estatísticas de ansiedade e depressão. A especialista diz ainda que a construção e prática dos currículos, alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é a grande oportunidade de realizar essa mudança. “É uma grande oportunidade de mudar e melhorar de verdade.”

Falamos muito da importância de o aluno ter uma educação integral, mas pouco sobre o preparo, ou não, dos professores para ensiná-los. Nossos docentes estão preparados para garantir aos estudantes as habilidades para a vida no século 21?

Quando falamos de uma educação contemporânea, estamos falando no desenvolvimento de muitas competências nos alunos para além das acadêmicas. A gente fala de desenvolver a capacidade do aluno de ter empatia, de trabalhar em grupo, de ser criativo, crítico, lidar com a tecnologia. Tudo isso são competências muito demandadas.

Agora, como o professor vai desenvolver essas competências nos alunos se ele mesmo não tem essas competências?

Precisamos entender que a formação do professor vai ter que extrapolar também o nível do conhecimento sobre o componente curricular, da disciplina, das didáticas, para também poder desenvolver empatia, capacidade de colaborar, conhecimentos sobre tecnologia, criticidade, criatividade. Para que ele possa, inclusive, ofertar um ambiente pedagógico que possa ser estimulante para esse tipo de aprendizagem.

Mas quando falamos em ensinar todas essas competências devemos pensar apenas em formação continuada ou é necessário debater com mais atenção e promover mudanças na formação inicial dos nossos professores?

O ideal é que possamos ter isso em todos os aspectos da formação do professor. Ou seja, a formação inicial realmente precisa ser revista. E, sobretudo, ela precisa desenvolver uma atitude docente, indo além da teoria e prática. Essa atitude precisa ser desenvolvida ao longo da formação. E aprofundada ao longo da formação continuada.

O que seria exatamente essa atitude docente e como desenvolvê-la?

São coisas que não são tão complexas de se fazer. É você oferecer ao professor, por exemplo, a oportunidade de ele conhecer os grandes temas da contemporaneidade em grandes debates. Por que o professor não vai participar ou saber sobre essas grandes questões que estão abalando o mundo? Temos que ampliar o repertório do professor e criar oportunidades para ele se conhecer melhor e se reconectar com seu propósito de vida. Por que ele escolheu ser professor? Como ele mantém a determinação e não desiste do seu aluno? E como ele lida com as questões emocionais que aparecem na sala de aula quando o aluno é agressivo, provocativo? Enfim, são várias oportunidades que a gente tem de trabalhar de maneira simples, a partir das próprias vivências no dia a dia da escola.

Agora, como fazer isso com professores que dão aulas em duas, três escolas, que estão insatisfeitos com os salários e numa carreira desvalorizada socialmente?

Eu acredito que a gente precisa investir muito na criação de melhores condições docentes. Não podemos desistir nunca de ter um professor numa escola só, podendo estabelecer vínculos com seus alunos e com outros professores. Com a possibilidade de mergulhar na proposta pedagógica daquela unidade, com infraestrutura. Mas, na verdade, não adianta tudo isso acontecer se não houver uma mudança interna do professor. Se ele continua se vendo como transmissor do conhecimento. Se ele não desenvolve um olhar para o aluno como um ser humano que precisa ser acolhido e precisa ser estimulado, nada disso vai adiantar. Nós precisamos ajudar o professor a equilibrar essas duas coisas. A disrupção não acontece com mobiliário colorido, mas dentro de nós. O professor precisa superar a ideia de que sua atividade é a de detentor do conhecimento.

A escola sozinha não pode – nem conseguiria – dar conta, mas o fato é que, de alguma forma, ela precisa olhar e ajudar uma geração de crianças e jovens que vem enfrentando, cada vez mais situações de ansiedade e depressão, por exemplo. O que poderia ser feito para colaborar neste sentido?

Ansiedade, depressão, automutilação, suicídio são temas tabus. Incomodam e, por isso, não queremos falar. Mas eles acontecem na nossa cara, diariamente, nas salas de aula. E nós iremos fazer o quê? Vamos continuar fingindo que não acontece e deixar nossos estudantes morrendo? A escola é aquela que consegue promover oportunidades e perspectivas a seus alunos. Se a gente não está conseguindo oferecer isso, é porque tem algo muito errado com o que estamos fazendo e não é só porque não damos uma boa aula de Português ou Matemática.

Então, a ideia de educação integral pode ajudar nessa questão? Seria essa uma alternativa para ajudar de alguma forma os estudantes neste sentido?

Se é um professor que tem essa preocupação de olhar para o seu aluno como um ser humano e de lidar e se relacionar com ele também a partir de uma relação humana, sem dúvida isso vai fazer diferença. E a gente sabe que os grandes professores que marcaram nossa vida são aqueles com quem nós estabelecemos vínculos profundamente humanos.

Como a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que também fala no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, e a construção dos currículos alinhados a ela podem colaborar com esse cenário?

Abriu-se uma janela. A gente pode fazer com que essas novas abordagens e novas concepções de educação que a base traz sejam apenas um adendo num capítulo introdutório ou podemos, realmente, fazer isso para repensar o que estamos fazendo nas nossas escolas. É uma grande oportunidade de mudar e melhorar de verdade.