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Quarta-feira

21 de Agosto de 2019

'Educação a Distância é aliada, e o professor tem que se atualizar', diz Elisabeth Tavares

Em entrevista para A Tribuna, especialista pontua sobre o estudo a distancia e o presencial

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria construção.” Paulo Freire se orgulharia da paixão com que fala de Educação a coordenadora pedagógica dos cursos de ensino a distância da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Elisabeth Tavares. Desde 2006, ela comanda na instituição o desenvolvimento da modalidade de ensino, cujo número de matriculados representa 21% das matrículas no país, de acordo com o Ministério da Educação.

Estimativas apontam que, em 2022, essa relação será de 50%/50% para os cursos presenciais. Elisabeth entende que é preciso abraçar o futuro, não repeli-lo. Por isso, vê o ensino a distância como realidade e crê que quem não entender isso será excluído do mercado.

A Educação a Distância forma bem os alunos?

No Brasil, ainda temos a cultura de que o ensino a distância não forma bem, que é mais fácil. Isso é cultural, um ranço que a gente tem. No mundo, não se trata de uma verdade. Tem aluno nosso que já passou em 1º lugar em concurso. Hoje, países como Espanha e Canadá são referência na Educação a Distância. A Universidade Aberta de Portugal também é referência. Será que nossos cursos presenciais das nossas universidades são assim? Você tem modelos e modelos.

Como os cursos a distância se tornaram realidade?

Em 2002, ainda não havia legislação sobre o assunto, e eu coordenei o processo de implantação da Educação a Distância aqui na Unimes. Começamos a nos mover. Aqui na universidade, nosso credenciamento foi em 2006, com dois cursos: Pedagogia (licenciatura) e Administração (bacharelado).

A legislação evoluiu desde lá até os dias de hoje?

A legislação se alterou e descentralizou a responsabilidade para a universidade. Hoje, temos autonomia. Temos maior autonomia que centros universitários e faculdades. Então, criamos nossos cursos independentemente de um ministério. A não ser cursos como Medicina, Psicologia, Direito e Enfermagem. Esses são criados exclusivamente pelo Ministério da Educação.

Como isso é distribuído?

Eu coordeno a parte pedagógica desse núcleo, mas cada curso tem seu coordenador. Nós nos reunimos semanalmente para definirmos e alinharmos rotinas e padrões, estando atentos aos estudantes. Hoje, há uma grande diferença no mercado, porque algumas instituições trabalham com perfis padronizados, e outras, de forma mais individualizada e personalizada.

Até que ponto a EaD democratizou o acesso ao ensino no Brasil?

A diferença de acesso é bem grande. O ensino a distância tem exigência das avaliações obrigatórias presenciais. Nós adotamos o modelo de polos, onde elas são feitas. Conseguimos alcançar muitos públicos. Temos locais com internet via rádio, alunos de zona rural, áreas onde sequer há instituições de Ensino Superior. O Brasil é um país com muitas desigualdades, até por sua extensão geográfica. Então, quando a Educação a Distância chega, ela democratiza isso.

De que forma?

Há diversas contradições quando falamos de Educação a Distância versus o modelo presencial. A partir do momento em que você começa a fazer o perfil desses alunos ingressantes na sua universidade, vê que há muitos perfis diferentes, e montamos uma formação de acordo com isso. Se há um aluno mais velho, que lê noticiários diariamente, ele vai ser estimulado a partir dessas características. Há também os que vão até os polos para conseguir acessar a internet. E, ainda, aqueles que usam os smartphones diariamente.

Os polos são os locais onde os alunos estudam?

Sim. Hoje, nós temos 180 polos, em todas as regiões do País, fora um em Portugal. Então, o acesso desses alunos ocorre por meio deles, e isso expande o nosso alcance.

Qual o principal desafio da EaD?

Neste momento, estou envolvida num processo dentro do mestrado em que leciono sobre como os professores podem usar a tecnologia no Ensino Fundamental. Esse grupo de pesquisa também estuda EaD. Uma das nossas preocupações é a formação de professores a distância. Por meio da Associação Brasileira de Educação a Distância, realizaremos o 2º Encontro Nacional das Licenciaturas em EaD. Esse encontro (marcado para os dias 13 e 14 de junho, na Unimes) vai discutir, principalmente, a formação de professores e a didática a distância.

A Educação Básica também é uma preocupação?

A Educação Básica é muito crítica no Brasil, porque 80% da população na idade escolar está na rede pública. Mas essa pirâmide se inverte no Ensino Superior, quando você acaba tendo um contingente muito maior na rede privada. Não existe educação presencial versus EaD. Eu diria que minha prática presencial aumentou a partir do momento em que eu comecei a me aprofundar na Educação a Distância. No meu mestrado voltado às políticas públicas para Educação Básica, vejo quais serão as tecnologias que eu usaria com meus alunos.

Existe alguma restrição quanto à EaD?

Alguns conselhos profissionais se posicionam contra os cursos. Eu considero que isso é irreversível, mas entendo que há modelos e modelos de cursos a distância. Alguns exigem práticas que não são possíveis on-line. Porém, há uma tendência dos chamados cursos híbridos. Eu não acredito que as atividades permanecerão inteiramente presenciais. De alguma forma. elas irão se alterar. Alguns cursos poderão ser feitos inteiramente a distância e muitos serão híbridos. Hoje, o Ministério da Educação já permite que os cursos possam ser feitos 40% on-line, desde que sejam reconhecidos.

Existe uma preocupação com os professores formados a distância?

Formar professor é uma responsabilidade imensa. Formar em Educação a Distância é uma preocupação maior ainda.

No seminário marcado para Santos, vocês irão discutir isso?

Traremos professores engajados na Educação a Distância nas licenciaturas com a maior qualidade possível. É preciso pensar não só na educação do professor por meio da EaD, mas na sua formação. As pessoas dizem que a tecnologia jamais substituirá o professor. Isso é óbvio. Mas o professor que não usar bem a tecnologia será substituído. O aluno que está diante de nós, virtual ou pessoalmente, chega com muito mais empoderamento digital com as ferramentas da Educação a Distância. Os mais jovens são nativos digitais, eles não têm paciência.

Mas há uma classe reticente a isso, não?

As discussões sobre livro ou tecnologia não têm que ser com base no termo “ou”, mas sim, apoiadas no “e”. Tem o momento da roda de história e o da tecnologia. As pessoas vivem de amor e ódio, mas não é isso. A Educação a Distância é uma aliada. Um professor dessa modalidade tem que se atualizar sobre o conteúdo dele e também das ferramentas digitais. Posso fazer discussões sobre o conteúdo com os professores, mas tenho que buscar a ferramenta. Não dá mais para usar PowerPoint.

Há contras na Educação a Distância?

Na Educação, não há nada contra. Educação é uma porta aberta para a identidade de cada um, para o direito de cada um e para a cidadania. Não existe nada contra quando se quer fazer educação. Eu fiz uma lista sobre prós e contras para nossa entrevista e todos os contras nós podemos contestar. Um deles é a desconfiança no meio acadêmico. Preconceito, eu diria. Existe isso? Sim. E de quem será esse preconceito? Penso que é de uma pessoa absolutamente fora da realidade que estamos vivendo no mundo. Outra coisa que dizem: dificuldade em tirar dúvidas. Na Unimes, somos 150 professores só na EaD, sendo que 50 deles são doutores.

Mestrados e doutorados também serão on-line?

Aqui, na EaD, tenho quatro professores fazendo stricto sensu, a distância, fora no Brasil. A pós-stricto tem uma organização onde o aluno é obrigado a fazer algumas disciplinas. No Brasil, só temos projetos de mestrados sendo desenvolvidos em rede entre universidades federais, que se associam e fazem o mesmo mestrado entre elas.