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Quinta-feira

17 de Outubro de 2019

Não precisa ser super-herói para lidar com a vida

Quem se cobra demais corre riscos psicológicos e sai do caminho do sucesso

Tire sua capa de super-herói. Quem se cobra demais arranja problemas na mesma proporção em que perde a mão da autocrítica. Especialistas indicam que, além de trazer riscos psicológicos e físicos, quem está sempre competindo consigo mesmo, não se perdoa nem se flexibiliza atrapalha o próprio sucesso e tende a se distanciar da felicidade. 

Cobrar-se para ser melhor é altruísta e faz bem, até para evitar acomodação. O problema é não enxergar o limite – ensina Fábio Serrão Franco, professor de Psicologia da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), psicanalista e doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP).

“Quando nos exigimos um melhor desempenho e atingir essas metas trazem satisfação, tudo bem. O problema é quando essa postura é adotada não para satisfação de desejos próprios, mas para atender expectativas alheias ou sociais. Sem prazer, não vale”, diz.

A neuropsicóloga Sheila Cristina Martines Bueno, que atende adolescentes em seu consultório em Santos, conta que muito dessa cobrança é social. Se for mulher, é para ser a melhor mãe, esposa, profissional e dona de casa ao mesmo tempo. Se for homem jovem, para ter casa de luxo e carrão aos 30. Se for idoso, para ser exemplo e ter condição financeira para sustentar a família.

“E adolescentes estão morrendo ou se automutilando por causa do Enem ou escolha de faculdade aos 17 anos”, cita ela, lembrando que, desde criança, o estudante é cobrado a ser melhor da classe, bem-educado e se destacar em tudo. De brincadeiras ao esporte, das notas de prova à ridicularização pela aparência, se perpetuam cobranças pessoais. O resultado, segundo Franco, é um enorme número de deprimidos.

“A autorecriminação é uma das principais características do transtorno depressivo. O depressivo usualmente fala: ‘Não valho nada, não sirvo para nada, não mereço isso’”, diz, sobre os casos em que frustrações acumuladas fazem adoecer.

Sociedade cansada

Bruno farias, psicólogo e hipnoterapeuta, conta que, com tanta pressão social, estudiosos já chamam a atualidade de sociedade de cansaço. O motivo é o desenvolvimento do vício pela agressividade, mesmo conosco.

“Não nos damos conta de que um simples pensamento pode ser tudo, menos inofensivo”, afirma, sobre repetições de pensamentos que se tornam hábitos. Aí, segundo ele, se tornam cada vez mais comuns insônia, ansiedade, enfraquecimento do sistema imunológico e doenças.

Antídoto

Farias indica a Psicoterapia preventiva como o melhor presente que alguém se dá. Outra dica é diferenciar problema de situação. “Problema é ter um filho internado. Situação é o sujeito te fechar no trânsito. Estamos valorizando demais as situações”, diz.

Para os profissionais, é preciso trocar críticas por autogenerosidade. “Está provado que a prática aumenta a saúde, a resistência e dá sensação de vida leve. Você se sente bem, mesmo sem motivo especial”.

Cuide-se 

Dicas para frear e se perdoar, sem traumas:

1) Busque a felicidade; identifique o que lhe faz bem, mesmo que seja algo simples, como fazer um bolo

2) Comemore e se elogie por isso. Valorizar as próprias características no espelho também faz bem

3) Pense positivo. Ao notar que pensou algo negativo, pense duas coisas positivas. Mentalize que vai dar certo

4) Olhe seus erros com carinho. Só com o entendimento do motivo do erro é possível melhorar

5) Seja generoso com os outros. Alerte, perceba o outro e comente que ninguém precisa ser herói

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